No início da década
de 1990 descobriu-se que a base biológica para o fenômeno de antecipação genética era
a expansão de grupos de três nucleotídios repetidos. Estudos recentes relatam a
presença do fenômeno de antecipação em famílias com múltiplos afetados pelo
transtorno afetivo bipolar. Ao lado disso, investigações independentes utilizando o
método RED (Repeat Expansion Detection) - uma estratégia que detecta expansões de
repetições trinucleotídicas no DNA genômico sem identificar sua localização - têm
mostrado associação entre este distúrbio do humor e longas repetições da seqüência
nucleotídica CAG. No presente estudo testamos a hipótese de que loci com
repetições CAG estão envolvidos na vulnerabilidade genética ao transtorno afetivo
bipolar. Assim, analisamos o comprimento das repetições CAG presentes em quatro loci:
o locus ERDA1 na região cromossômica 17q21.3 ao qual tem sido atribuído a
maioria das repetições CAG detectadas pelo RED, o locus SEF2-1b que situa-se na
região 18q21.1, onde há relatos positivos de ligação e os loci hSKCa3 (região
1q21) e MAB21L (região 13q13), ambos devido a função do gene na qual as
repetições residem. Inicialmente, investigamos quatorze famílias brasileiras com
múltiplos afetados pelo transtorno bipolar, que tiveram a idade de início da doença
comparada na 1a e na 2a geração revelando antecipação.
Averiguamos ainda uma amostra de 115 pacientes bipolares não-aparentados e 196
indivíduos controles. As repetições CAG foram amplificadas por PCR, os produtos
submetidos a eletroforese em gel de poliacrilamida e as bandas visualizadas após
coloração com SYBR gold em aparelho de fluorescência direta (Fluorimager system),
possibilitando definir os alelos de acordo com o tamanho da seqüência CAG. O teste
ampliado para desequilíbrio de transmissão (ETDT) que utilizamos nas famílias não
evidenciou transmissão preferencial de nenhum dos alelos para os membros afetados (ERDA1
X2=11,05/p=0,136; SEF2-1b X2=4,42/p=0,62; hSKCa3
X2=0,88/p=0,92; MAB21L X2=5,76/p=0,45). A
análise de ligação por testes paramétricos e não-paramétricos excluiu ligação
entre qualquer dos quatro loci e a doença bipolar (ERDA1 lod score= -10,78/
p=0,27; SEF2-1b lod score= -5,87/p=0,6; hSKCa3 lod
score=-2,01/p=0,59; MAB21L lod score=-12,46/p=0,83). No estudo
caso-controle, a distribuição dos alelos entre pacientes bipolares e controles foi
comparada através do teste U de Mann-Whitney e não demonstrou diferenças significativas
(ERDA1 z=0,63/p=053; SEF2-1b z=-0,99/p=0,32; hSKCa3
z=-0,57/p=0,56; MAB21L z=1,0/p=0,31). Uma associação entre os
alelos considerados longos e o transtorno bipolar foi ainda testada através de um modelo
de regressão logística ajustado para controle de etnia, sexo e idade, contudo, os
resultados também não apresentaram significância estatística (ERDA1 p=0,79,
SEF2-1b p=0,073, hSKCa3 p=0,14, MAB21L p=0,12).
Em conclusão, os dados obtidos nessa investigação não apoiam a hipótese de que a
expansão de repetições CAG nos loci ERDA1, SEF2-1b, hSKCa3 e MAB21L
desempenham um papel na vulnerabilidade ao transtorno afetivo bipolar em pacientes
brasileiros. Permanece possível que outros loci com repetições CAG, não relacionados
como candidatos em nosso estudo, possam estar implicados na gênese do transtorno bipolar.
Abstract
In the beginning of
the 1990s the biological base for the phenomenon of genetic anticipation was
identified as the expansion of trinucleotide repeat sequences. Recent reports have
suggested the presence of anticipation in bipolar disorder multiply affected families. In
addition, independent studies using the RED (Repeat Expansion Detection)- a strategy to
detect repeat expansions on genomic DNA without knowledge of your location - have showed
association between BPAD and longer CAG repeats. In the light of these findings loci with
CAG repeat expansions could be candidates to the genetic inheritance of BPAD. The present
study assess the length of repeats in four loci: the ERDA-1 locus which is know to account
for most of the long CAG repeats detected by RED, the SEF2-1b locus that is placed in a
region in which positive linkage results have been reported and the loci hSKCa3 and MAB21L
as functional candidate genes. We investigated fourteen Brazilian multiply affected
bipolar families that display anticipation as a decrease on age at onset of disease in
successive generations. A case-control sample with 115 unrelated BPAD patients and 196
healthy control subjects also was studied. The CAG repeats were amplified by PCR, the
products electrophoresed on polyacrilamide gels and visualised after staining with SYBR
gold on Fluorimager system making possible to define the CAG alleles size. The extended
transmission disequilibrium test (ETDT) performed in our families did not show evidence
for non-random transmission of any allele for affected members (ERDA1 X2=11.05/p=0.136;
SEF2-1b X2=4.42/p=0.62; hSKCa3 X2=0.88/p=0.92; MAB21L
X2=5.76/p=0.45). Parametric and non-parametric linkage analysis also
did not provide support for linkage between any of the four loci and BPAD (ERDA1
lod score=-10,78/p=0,27; SEF2-1b lod score=-5,87/p=0,6; hSKCa3
lod score=-2,01/p=0,59; MAB21L lod score = -12,46 /p=0,83). On the
case-control design the distribution of the alleles between the two groups did not show
differences using the Mann-Whitney test (ERDA1 z= 0,63/p= 053; SEF2-1b
z= -0,99/ p=0,32; hSKCa3 z=-0,57/p=0,56; MAB21L z=1,0/p=0,31).
An association still was tested using logistic regression models adjusted for age, sex and
ethnicity, but the results did not approach statistical significance (ERDA1 p=0,79;
SEF2-1b p=0,073; hSKCa3 p=0,14; MAB21L p=0,12).
Our data do not support the hypothesis that variation at the polymorphic CAG repeat loci ERDA-1,
SEF2-1b, hSKCa3 or MAB21L influence susceptibility to BPAD. However, it is
possible that other genes containing CAG repeats not covered in this study are implicated
in the genesis of bipolar disorder.