epmpq.gif (1789 bytes) Banco de Teses : Cláudio Torres de Miranda

Crianças desnutridas, a saúde mental de suas mães e a perspectiva de intervenção psicossocial

Orientador: Prof. Dr. Jair de Jesus Mari

 

Objetivos: 1) Medir a associação entre desnutrição energético protéica (DEP) em crianças de famílias de baixa renda e a saúde mental de suas mães; 2) estudar a confiabiidade de um instrumento para medir a interação mãe-criança, apropriado para ser utilizado em ambientes de baixa renda, e que possa também ser utilizado para avaliar o efeito de intervenções nestes locais; 3) estudar a associação entre interação mãe-criança desnutrida (IMCD) e saúde mental da mãe (SMM); e 4) testar a aplicabilidade de uma intervenção na interação mãe-criança desnutrida em mães com e sem problemas mentais.

Material e métodos: Estudo caso controle: casos foram mães de 60 crianças com DEP moderada e grave ( critérios de Gomez) selecionadas de 2 Postos de Saúde. Controles consistiram em 45 mães de crianças eutróficas que frequentavam os mesmos postos. A mãe era considerada uma portadora provável de um transtorno emocional quando atingia um escore pelo Questionário de Morbidade Psiquiátrica do Adulto (QMPA)>6. Estudo de confiabilidade entre aplicadores: consistiu na avaliação feita por dois juízes independentes de um vídeo-tape de 10 minutos de duração em que a mãe interagia com seu filho desnutrido. Os vídeos foram gravados nas casas das duplas mãe-criança. Dezoito duplas mãe-criança desnutrida foram selecionadas em dois postos de saúde do Embu. Mães que não permaneciam parte significativa do dia com seus filhos foram excluídas. Foram registradas as concordâncias dos dois juízes de acordo com 8 itens ( total e um por um): sentimentos positivos (SP), seguir a iniciativa da criança (SIC), dar significado (DSIG), expandir (EXP), regular (REG). Cada item tinha a possibilidade de escore 0 (ausente), 1 (pouco presente) e 2 ( presente de maneira satisfatória). Estudo transversal de pareamento: comparação de escores e interação mãe-criança desnutrida, em mães com e sem transtornos emocionais provenientes de dois postos de saúde do Embu. Vinte e quatro mães de crianças desnutridas ( 1 a 4 anos de idade) foram consecutivamente escolhidas excluindo-se aquelas mães que não passavam tempo significativo com seu filho. A saúde mental materna foi avaliada pelo "Self Report Questionnaire"(SRQ), um instrumento de rastreamento psiquiátrico. Os escores de interação mãe-criança desnutrida foram avaliados por um juiz independente avaliando um vídeo de 10 minutos, através de metodologia descrita no estudo prévio. Estudo de aplicabilidade da intervenção: dezoito duplas mãe-criança desnutrida foram aleatoriamente distribuidas em 2 grupos (12 no grupo experimental (GE) e 6 no grupo controle (GC). Ambos os grupos foram avaliados em termos do estado nutricional das crianças ( através da curva de crescimento pôndero-estatural), estado mental das mães ( através do SRQ) e do escore atribuído a sua interação mãe criança. A intervenção consistiu em 6 visitas de uma hora de duração para treinar as mães a interagir melhor com seus filhos. Acompanhamento pediátrico era dispensado às crianças dos 2 grupos. Um ano após a intervenção reavaliou-se o escore atribuído a sua interação mãe-criança e o estado nutricional das crianças, estratificando-se as mães pelo seu uestado mental.

Resultados: Estudo de caso controle: 63% das mães com DEP e 38% das mães do grupo controle foram positivas no QMPA: OR = 2,8 (IC 95% 1,2- 6,9%). 27% das crianças com DEP tinham baixo peso ao nascer (BPN <2.500g) e 6% dos controles tinham BPN. Foram identificadas interações entre saúde mental da mãe e número de crianças [3 ou menos: OR= 20,0 ( IC 95% 2,1 -274,2), 4 ou mais; OR = 1,6 IC 95% 0,6-4,5), assim como saúde mental da mãe e idade materna {mães acima de 30 anos: OR= 12,5 (IC 95% 2,0 - 93,4), mães com até 30 anos: OR= 1,5 (IC 95% 0,5 - 4,4). Estudo de confiabilidade entre apicadores: Kappa ponderado SP=0,265, SIC= 0,437, COM= 88,9% ( kappa não foi utilizado porque 1 juiz deu o esmo escore para todas as duplas), ELO= 0,163, FO= 0,455, DSIG=0,586, EXP= -0,189, REG= 0,372). ELO e EXP apresentaram baixa de concordância e foram excluídos do cálculo do kappa ponderado total=0,546 (EP=0,131); Estudo transversal de pareamento:a mãe da diferença dos escores antes e depoi da intervenção entre grupo experimental (GE) e o grupo cotrole (GC) foi 1,67 ( IC 95% 0,05 - 3,29) (p = 0,04). Estratificando pela saúde mental materna, as mães SRQ positivas: média da diferença = 1,33(IC 95% -1,41 - 4,07), e mães SRQ negativas = 1,72 (IC 95% -0,55 - 3,99) ( p= 0,12). A diferença entre o estado nutricional entre GE eGC após um ano da intervenção p=0,71.

Dicussão: Estudo de caso controle:mães de crianças com DEP mostraram uma taxa maior de transtornos emocionais do que mães de crianças eutróficas. Ao contrário do BPN, idade materna e número de filhos interagem com a saúde mental da mãe, aumentando a associação. A abordagem da saúde mental materna pode levar as mães a terem melhores cuidados com seus filhos, e isto pode ter um impacto na DEP. Estudo de confiabilidade entre aplicadores: o instrumento apresentou uma confiabilidade entre aplicadores razoável quando os itens ELO e EXP foram excluídos, podendo assim ser utilizado para avaliação da interação mãe-criança desnutrida. Estudo transversal de pareamento: embora o tamanho amostral seja pequeno, os resultados são sugestivos de uma associação positiva entre o comprometimento da saúde mental das mães e os baixos escores de interação entre as mães e seus filhos desnutridos. Estudo da aplicabilidade da intervenção: a intervenção é aplicável, e parece melhorar a interação mãe-criança. Mães com transtornos emocionais tendem a ter um grau menor de melhora, sem atingir um grau de significância estatística. Embora não tenha sido detectado diferença no estado nutricional entre GE e GC, talvez o período de um ano seja insuficiente.