BANCO DE TESES MAURO
BARBOSA TERRA
Fobia Social e Alcoolismo: um estudo da comorbidade.
Orientador: Prof Dr. Dartiu Xavier da Silveira
RESUMO Objetivos:
O estudo tem por objetivo investigar a associação
entre a fobia social e o alcoolismo. Visa a determinar a freqüência
de transtornos de ansiedade e depressivos em uma amostra de alcoolistas,
a comparar a freqüência de recaída, de adesão
ao grupo de alcoólicos anônimos (AA) e a tratamento
psicoterápico entre os alcoolistas fóbicos sociais
e não-fóbicos, a verificar os principais fatores envolvidos
com a recaída ou abstinência, com a adesão ao
AA ou a tratamento psicoterápico 6 meses após um período
de internação e a verificar o uso de medicação
para fobia social entre alcoolistas fóbicos sociais. Métodos:
Foi realizado um estudo de coorte, no qual 300 pacientes alcoolistas
foram inicialmente entrevistados quando hospitalizados e re-entrevistados
após 3 e 6 meses em suas residências. Foram utilizados
os seguintes instrumentos: o SCID-I para se examinar a ocorrência
de dependência de álcool, transtornos de ansiedade
e depressivos; a Escala de Ansiedade Social de Liebowitz para constatação
da gravidade da fobia social, quando presente; as escalas ESA e
ESA-mulheres adaptadas para avaliação da efetividade
do tratamento para dependência do álcool e um questionário
elaborado para se observar a relação dos pacientes
com o AA. Na análise estatística dos dados, foram
utilizados o Teste Qui-quadrado de independência, o Teste
Exato de Fisher, o Teste de Mann-Whitney e a análise de variância.
Foram feitas também regressões logísticas,
visando ao controle de possíveis variáveis relacionadas
com a não-adesão ao tratamento ou com a recaída,
assim como variáveis relacionadas com a adesão a tratamento
ou à abstinência. Resultados: A amostra apresentou
predomínio de homens (91,7%) e a média de idade foi
de 41,5 ±
8,6 anos. Quanto à escolaridade, menor proporção
de alcoolistas fóbicos estudaram até o 3º grau
(p=0,036; RR=0,37; IC:0,16-0,87) e apresentavam mais freqüentemente
um familiar alcoolista (p=0,039; RR=2,01; IC:0,98-4,12). Foram
encontradas freqüências de 30,6% para fobia específica,
24,7% para fobia social, 22,2% para transtorno de ansiedade induzido
pelo álcool, 19,3% para transtorno de ansiedade generalizada
e de 31,3% para transtorno depressivo maior. Os alcoolistas fóbicos
sociais apresentavam mais transtornos depressivos (p=0,001; RR=2,01;
IC:1,37-2,96), transtorno de ansiedade generalizada (p=0,009; RR=1,76;
IC:1,17-2,65), transtorno de ansiedade induzido por substância
(p=0,007; RR=1,77; IC:1,19-2,64), fobia específica (p=0,002;
RR=1,85; IC:1,26-2,72) e transtorno de ansiedade de uma forma geral
(p=0,002; RR=2,01; IC:1,27-3,18) comparativamente aos não-fóbicos.
Foi encontrada freqüência de uso de medicação
para fobia social entre os alcoolistas fóbicos sociais de
apenas 20,3%, não havendo relação da prescrição
com a gravidade da fobia social. Não foram encontradas diferenças
quanto aos índices de recaída e quanto aos escores
médios da escala ESA na comparação entre
alcoolistas
fóbicos e não-fóbicos. Na avaliação
da adesão a tratamento, também não houve diferenças
entre os alcoolistas fóbicos e não-fóbicos
com relação a adesão ao AA ou a tratamento
psicoterápico. A adesão ao AA dos alcoolistas fóbicos
foi menor do que a dos não-fóbicos, mas a diferença
não era estatisticamente significativa. Foi encontrada entre
os alcoolistas uma adesão ao grupo de AA menor do que a adesão
para tratamento psicoterápico. Foram feitas regressões logísticas
para os desfechos recaída / abstinência, adesão
ao AA e a tratamento psicoterápico, após 6 meses da
internação, e o modelos finais apontaram os seguintes
dados: a recaída estava relacionada com ter feito tratamento
anterior e com o fato de ser solteiro, enquanto que a abstinência
estava associada com adesão inicial ao AA ou possivelmente
a tratamento psicoterápico e com a presença de transtorno
depressivo; a adesão ao AA estava relacionada com adesão
inicial a tratamento psicoterápico e com maior escolaridade;
a adesão ao tratamento psicoterápico estava associada
com o fato do paciente ter maior escolaridade, com a presença
de transtorno depressivo, com a presença de uso associado
de álcool com outras drogas, com a adesão inicial
ao AA e com a existência de tratamento anterior; e, finalmente,
a não-adesão a tratamento psicoterápico estava
associada a presença de transtorno de ansiedade induzido
por substância. Conclusões: A freqüência
de transtornos de ansiedade, em particular da fobia social, e de
transtornos depressivos foi elevada entre alcoolistas. No entanto,
o uso de medicação para fobia social em alcoolistas
fóbicos foi infreqüente. A fobia social não pôde
ser definida como um fator de risco para recaída, nem interferiu
de forma importante na adesão ao AA ou a tratamento psicoterápico.
A adesão ao AA dos alcoolistas fóbicos tendeu a ser
menor do que a dos não-fóbicos. Aliás, a adesão
ao AA foi baixa entre os alcoolistas, sendo inferior a adesão
encontrada para tratamento psicoterápico.
Pôde-se identificar fatores preditivos de abstinência,
recaída e adesão a tratamento. |