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Departamento de Psiquiatria da Unifesp

 

 

Caracteristicas de personalidade de jogadores patologicos avaliados pelo metodo de Rorschach

Orientador: Prof Dra. Latife Yazigi

 

O jogo patológico é um transtorno mental caracterizado pelo comportamento de jogo mal-adaptativo, recorrente e persistente, que perturba os empreendimentos pessoais, familiares ou ocupacionais. Apesar de pouco estudado no Brasil, o problema deve estar aumentando, em função do aumento das opções de jogo: além das loterias promovidas pelo governo, há dez anos surgiram as casas de vídeo-pôquer (e outros jogos mecânicos ou eletrônicos) e, mais recentemente, os bingos.
O Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD), ambulatório do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, atende pessoas com problemas de jogo desde 1994. O presente trabalho descreve características de personalidade de 20 indivíduos que buscaram atendimento e se dispuseram a participar desta pesquisa. Os sujeitos foram avaliados pelo método de
Rorschach, aplicado e analisado segundo os procedimentos e normas do Sistema Compreensivo (Exner, 1993).
Metade dos sujeitos apresenta algumas dificuldades para observar adequadamente o ambiente e organizar os dados perceptivos, o que deve prejudicar a adaptação.
De modo geral, os sujeitos conhecem as regras sociais e mostram-se ao menos minimamente dispostos a segui-las.
Alguns sujeitos apresentam pensamento mais imaturo, dado que pode ser observado em falhas na capacidade do raciocínio e/ou em concepções mais infantis. Metade dos sujeitos usa os recursos do pensamento de modo pouco
construtivo: nas situações que lhes trazem dificuldade, em vez de refletir para tomar decisões e agir para efetivamente resolver os problemas, preferem refugiar-se em fantasias.
A maioria dos sujeitos apresenta prejuízo da capacidade de controle e tolerância ao estresse. Alguns são pessoas mais imaturas, que dispõem de poucos recursos para responder às demandas cotidianas e/ou utilizam seus
recursos de modo pouco eficiente. Outros, apesar de possuírem recursos, encontram-se sobrecarregados, isto é, experimentam mais tensões do que têm recursos para enfrentar. Nos dois casos, essas pessoas apresentam uma
vulnerabilidade às falhas do controle e à impulsividade.
A maioria dos sujeitos evita as situações afetivas, o que parece ser um modo de defender-se de dificuldades afetivas ou de relacionamento interpessoal. Ao menos dez sujeitos experimentam emoções negativas, sendo que para três
sujeitos o mal-estar emocional é intenso. Muitos apresentam dificuldades em sua auto-imagem e auto-estima: alguns
consideram-se com menos valor do que as outras pessoas (baixa auto-estima); outros, são excessivamente autocentrados (egocentrismo), por serem imaturos ou excessivamente preocupados consigo mesmos. A maioria apresenta auto-imagem mais fantasiosa do que realista. De modo geral, são pessoas mais imaturas e dependentes, que necessitam ser amparadas ou ter outras pessoas que as supram de suas necessidades e as orientem sobre o que fazer. Característica que se destaca são as dificuldades de relacionamento. Nove sujeitos possuem poucas habilidades para se relacionar. Muitos compreendem as pessoas de modo mais fantasioso do que realista, muitas vezes distorcido - o que prejudica os relacionamentos e os processos de identificação, necessários ao amadurecimento e estabilidade do sentimento de identidade.
Propomos dividir a amostra em dois subgrupos: o primeiro subgrupo seria composto por sujeitos que dispõem de poucos recursos (não possuem ou não utilizam recursos, principalmente os recursos afetivos); basicamente lidam
com as situações evitando aquilo que pode trazer dificuldade. O segundo subgrupo seria composto por sujeitos que se envolvem excessivamente com as situações, têm dificuldade para moderar suas reações afetivas e apresentam
sinais de perturbação afetiva. Os resultados encontrados são discutidos em relação à literatura e suas implicações para o planejamento do tratamento.

 

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Data da última modificação: 16/12/99