Resumo
Diferentes
opções terapêuticas estão disponíveis
para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Segundo
a literatura, 60 a 80 % dos portadores do TOC respondem às
intervenções medicamentosa e psicoterápica.
Existe porém uma parcela de pacientes que não se beneficiam
destes tratamentos. Principalmente nestes casos, a psicocirurgia
estereotáxica vem sendo indicada como modalidade terapêutica.
Por outro lado, falta uma revisão sistemática que
determine a eficácia e o perfil de efeitos adversos e complicações
das diferentes técnicas cirúrgicas.
Tivemos como objetivo neste estudo investigar se a psicocirurgia
estereotáxica oferece resultados benéficos no tratamento
de sintomas obsessivo-compulsivos, através de uma revisão
sistemática da literatura.
Identificaram-se todos os estudos sobre a psicocirurgia estereotáxica
para o tratamento do TOC, qualquer que fosse a técnica operatória
empregada, indexados nas seguintes bases de dados: Biological Abstracts;
The Cochrane Controlled Trials Register da Cochrane Library; EMBASE;
LILACS; MEDLINE (PubMed); The Obsessive Compulsive Disorder Database;
e PsycLit. Foram também pesquisadas as referências
bibliográficas de cada artigo identificado anteriormente.
Os estudos foram categorizados e hierarquizados segundo o desenho
metodológico, em ensaios clínicos randomizados, estudos
prospectivos de coorte, estudos retrospectivos, e outros desenhos
prospectivos/retrospectivos. Relatos de caso foram excluídos.
Avaliamos individualmente os estudos de acordo com os seguintes
critérios: qualidade metodológica; análise
por intenção de tratar; critérios de inclusão/exclusão
de pacientes para cirurgia; descrições de tratamentos
pré-cirúrgicos; refratariedade a tratamentos prévios;
alterações cognitivas e/ou de personalidade; utilização
de exames de neuroimagem; seguimento a longo prazo; e aspectos éticos
na condução do estudo.
Obtiveram-se dados quanto ao grau de melhora pós-cirúrgica
de sintomas do TOC, melhora global pós-operatória,
aceitabilidade da cirurgia e eventos adversos ou complicações
pós-cirúrgicas.
Um total de apenas 30 estudos puderam ser incluídos para
análise. As seguintes técnicas cirúrgicas estereotáxicas
foram investigadas: cingulotomia anterior, capsulotomia anterior
(termolesão ou radiocirurgia), tractotomia subcaudado e leucotomia
límbica.
Identificaram-se apenas 2 ensaios clínicos randomizados,
ambos empregando a capsulotomia: um deles, em fase de execução,
sem resultados preliminares; o outro, incluindo apenas um total
de 4 pacientes. Vinte e cinco estudos acompanharam de forma prospectiva
uma ou mais coortes de pacientes. Somente 3 publicações
empregaram desenhos retrospectivos. Na maioria dos estudos, os grupos
de pacientes não eram comparáveis entre si. Também
não se pode garantir se as avaliações dos desfechos
clínicos foram realizadas ou não por pesquisadores
independentes.
Muitas publicações não descreveram adequadamente
os critérios de inclusão, exclusão ou refratariedade
dos pacientes. Em geral, apenas os estudos empregando as técnicas
da cingulotomia e da capsulotomia relatavam sobre a presença
de comorbidades. A maioria dos estudos não citava detalhadamente
quais intervenções foram utilizadas antes do procedimento
cirúrgico. A adoção de um termo de consentimento
informad tornou-se corrente apenas a partir da década de
90.
Os estudos referiam taxas de melhora global pós-operatória
nas técnicas da cingulotomia, capsulotomia, tractotomia subcaudado
e leucotomia límbica, respectivamente, de 27 a
57 %, 56 a 100 %, 33 a 67 %, e 61 a 69 % dos pacientes.Não
se descreveram pioras com a capsulotomia, mas as taxas relatadas
com a cingulotomia, tractotomia subcaudado e leucotomia límbica
estiveram ao redor de 7 a 30 %, 0 a 5 %, e 6 a 13 %. Foram relatados
alguns casos de convulsões isoladas, cefaléia, delirium
nas primeiras semanas e retenção urinária transitória.
Raras vezes se observaram alterações comportamentais
ou de personalidade, e hemorragias intracerebrais. Suicídio
foi o evento fatal mais freqüente.
Conclusões: os estudos sugerem um possível efeito
benéfico da psicocirurgia para o tratamento do TOC, especialmente
em casos refratários. Observamos porém grande heterogeneidade
entre os estudos e a presença de muitos vieses de seleção
de amostras, de execução, de detecção
e de publicação. Assim sendo, não há
evidências se a psicocirurgia para o tratamento do TOC oferece
um real benefício ou não para pacientes obsessivo-compulsivos.
Faltam estudos adequadamente conduzidos. Somente a partir da realização
de mais ensaios clínicos randomizados será possível
determinar o papel da psicocirurgia no TOC.
Abstract
Different
therapeutic options are available for the treatment of obsessive-compulsive
disorder (OCD). About 60 to 80 % of the OCD patients usually improve
with the use of drug and psychotherapeutic interventions. However,
there is a subgroup of patients showing no benefits with these treatment
approaches. In these situations, stereotactic psychosurgery is often
indicated. On the other hand, no systematic reviews have been published
to determine whether these surgical techniques are efficacious or
not, and what adverse events or complications are expected.
Our objective is to employ a systematic review to investigate whether
stereotactic psychosurgery offers benefits for the treatment of
OCD.
We identified all studies related to stereotactic psychosurgery
for OCD, whatever the surgical technique, indexed by the following
databases: Biological Abstracts; The Cochrane Controlled Trials
Register from Cochrane Library; EMBASE; LILACS; MEDLINE (PubMed);
The Obsessive Compulsive Disorder Database; and PsycLit. References
of the identified articles have also been searched.
Studies were categorized hierarchically according to their methodological
designs, into randomized controlled trials, prospective cohort studies,
retrospective studies and other retrospective/prospective studies.
Case reports were excluded.
A set of criteria were established to critically evaluate each publication:
methodological quality; intention to treat analysis; inclusion/exclusion
criteria for surgery; description of pre-surgical treatment trials;
evidence of refractoriness; cognitive/personality changes; use of
neuroimaging techniques; long-term follow-up; and care for ethical
aspects.
Information was obtained on the postsurgical degree of OCD symptom
change, postsurgical global mental change, acceptability of the
operations and adverse events/complications.
Only 30 studies were included in the analysis. The following stereotactic
techniques were investigated: anterior cingulotomy, anterior capsulotomy
(thermolesion or radiosurgery), subcaudate tractotomy and limbic
leucotomy.
Two randomized controlled trials were identidied, both employing
capsulotomy: the first, is still under way, with no preliminary
results; the second, consisted solely of 4 patients only. The prospective
follow-up of one or more cohorts was adopted by 25 studies.There
were only 3 retrospective design publications. In the majority of
studies, the groups of patients were not comparable to each other.
The use of independent outcome researchers was not generally warranted.
Most publications did not describe adequately their patients´
inclusion, exclusion, or refractoriness criteria. Comorbidity was
generally not cited, except for some cingulotomy or capsulotomy
studies. Few articles reported in a detailed way the previous drug
or psychotherapeutic trials prior to surgery. Adoption of informed
consent became a routine only in the 90´s.
Studies refer global postoperative improvements with cingulotomy,
capsulotomy, subcaudate tractotomy and limbic leucotomy ranging,
respectively, from 27 to 57 %, 56 to 100 %, 33 to 67 % and 61 to
69 % of patients. No deteriorations were described with capsulotomy
patients, but worse escores were found for cingulotomy, subcaudate
tractotomy and limbic leucotomy in about 7 to 30 %, 0 to 5 %, and
6 to 13 % of subjects. There are reports of isolated convulsions,
headaches, delirium (in the first weeks) and transient urinary retention.
Rare behavioral or personality changes were observed, as well as
intracerebral hemorrhages. Suicide was the most frequent fatal event.
Conclusions: various studies suggest that psychosurgery offers important
benefits in the treatment of OCD, especially in the refractory cases.
On the other hand, a great degree of heterogeneity exists among
the studies, as well as many sources of bias, including selection,
performance, detection and publication bias. Therefore, there are
no evidences whether psychosurgery for the treatment of OCD offers
a real benefit for theses patients. Scarce studies have been adequately
devised. More randomized controlled trials must be conducted to
explore the role of psychosurgery for the treatment of OCD |