Repercussão internacional das discussões no Brasil sobre a validade dos critérios diagnósticos para a identificação da morte encefálica
2. Cartas do Exterior
2.5 Yoshio Watanabe (Japao) - Diretor do Toyota Medical Center
Yoshio Watanabe, M.D., Diretor
de Hospital
Toyota Regional Medical Center
3-30-1 Mishiyama-cho
Toyota, Aichi 471, Japão
16 de outubro de 1998
A quem possa interessar:
Com esta carta pretendo apresentar minhas críticas contra a validade dos critérios de diagnóstico para morte cerebral usados atualmente a nível internacional, e para dar apoio incondicional ao valor científico da nova pesquisa experimental realizada por Cicero G. Coimbra, M.D., Ph.D., do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Escola de Medicina da UNIFESP, São Paulo, Brasil. Minha posição sobre o assunto é baseada principalmente em observações clínicas feitas ao longo de vários anos sobre o valor da terapia de hipotermia cerebral para impedir a ocorrência da assim chamada morte cerebral. O parágrafo a seguir foi ligeiramente modificado de meu artigo publicado na Revista Japonesa de Cardiologia (Watanabe, Y: Mais uma vez sobre o transplante cardíaco. Falhas do raciocínio dos propositores. Jpn Heart J, 1997: 38:617-624).
Uma equipe de neurocirurgiões do departamento de cuidados de emergência do Hospital Universitário de Nihon, liderada pelo Professor Nariyuki Hayashi, desenvolveu uma nova técnica de hipotermia controlada por computador com manutenção da pressão intracraniana adequada. Eles aplicaram essa nova técnica no tratamento de 20 casos de hematoma subdural agudo com ferimento cerebral difuso e 12 casos de isquemia cerebral total devida a paradas cardíacas de 30 a 47 minutos de duração. Todos os pacientes tinham um nível de coma caracterizado como de 4 ou 5 na escala de Glasgow, mostrando dilatação bilateral das pupilas e perda de reflexo ao estímulo luminoso. Mesmo assim, após o tratamento, 14 dentre os 20 pacientes do grupo formado por vítimas de traumatismo craniano e 6 dentre as 12 vítimas de parada cardíaca reassumiram a vida diária normal, tendo a comunicação verbal restabelecida, com exceção de um único paciente. Admite-se que esses pacientes pudessem não ter completamente satisfeitos todos os critérios atuais para o diagnóstico de morte cerebral, em parte porque a equipe de cuidados de urgência relutou em recorrer a certos procedimentos diagnósticos, tais como o teste da apnéia, com o temor de agravar a lesão cerebral. No entanto, isto ainda implica uma clara visão do ponto de vista de não retorno na direção (ou talvez mesmo dentro) do estágio de morte cerebral. Fica evidente que um diagnóstico apressado de morte cerebral sem tentar novas medidas terapêuticas poderia muito bem constituir-se em assassinato, ou pelo menos em caso de imperícia. Todos os proponentes de morte cerebral devem manifestar-se a respeito.
Na época em que escrevi este texto, eu desconhecia os mecanismos fisiopatológicos subjacentes a estes excelentes efeitos clínicos de hipotermia cerebral. No entanto, lendo os textos escritos pelo Professor Coimbra sobre os efeitos neuroprotetores da hipotermia baseados em seus estudos experimentais, podemos agora entender claramente porque a técnica do Professor Hayashi foi capaz de salvar tantos pacientes aparentemente desenganados, e porque a não aplicação dos testes de apnéia contribuíram para o alto grau de sucesso em evitar-se a morte cerebral real. Assim, o uso contínuo dos critérios atuais para morte cerebral para a morte cerebral sem prestar-se séria atenção a esses novos resultados clínicos e experimentais, é não apenas obsoleto mas também totalmente contrário aos princípios científicos.
Uma vez que o tempo e espaço não me permitem elaborar meus argumentos adicionais contra a tendência mundial de aplicar o termo morte cerebral ao coma profundo e prolongado, e de declarar a morte de uma pessoa neste estágio, o leitor deste documento deve remeter-se a meu artigo já mencionado e também a um anterior, intitulado "Por que sou contrário ao movimento para transplantes cardíacos no Japão?", Jpn Heart J 1994; 35:701-714.
Com base nessas observações, creio que o último artigo do Professor Coimbra, intitulado "Implicações da penumbra isquêmica para o diagnóstico de morte encefálica" deva ser imediatamente publicado em uma das mais prestigiadas revistas internacionais e a informação nele contida deva ser distribuída a todos os cientistas da área básica, a todos os clínicos, tanto quanto a pessoas leigas, de forma a promover-se maiores e mais sérias discussões com relação ao conceito de morte cerebral e ao transplante de órgãos que utiliza como doadores pessoas declaradas como encontrando-se em estado de morte cerebral. Finalmente eu gostaria de parabenizar a Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, por possuir entre seus professores um clínico e cientista brilhante e consciencioso como o Dr. Coimbra.
Agradecendo antecipadamente por sua atenção a este assunto, e com os melhores votos,
Atenciosamente,
(a.) Yoshio Watanabe, M.D., F.A.C.C.
Diretor do Hospital - Centro Médico Regional Toyota
Professor Emérito de Medicina pela Universidade da Saúde Fujita
Membro da Sociedade Britânica de Cardiologia
Membro Honorário da Sociedade Portuguesa de Cardiologia
Tradução por José Martins de Paula e Silva (Tradutor Público Juramentado, matriculado na Junta Comercial do Estado de São Paulo sob o número 195), tradução número 21.095, livro 161, fls. 392-394, em 4/12/98.