DEPARTAMENTO DE NEUROLOGIA E NEUROCIRURGIA
Disciplina de Neurologia Experimental

Morte EncefálicaApnéia na Morte EncefálicaIschemic Penumbra and Brain DeathMorte Encefálica: Repercurssão Internacional

Repercussão internacional das discussões no Brasil sobre a validade dos critérios diagnósticos para a identificação da morte encefálica

2. Cartas do Exterior

Darthmouth Medical School
Hanover - New Hampshire
James L. Bernat, M.D., Professor de Medicina (Neurologia)

08 de outubro de 1998

A quem possa interessar:

Sou um neurologista que tem se envolvido ativamente no debate sobre morte encefálica por quase 2 décadas. Eu escrevo para expressar minha opinião sobre a validade científica do texto "Implicações da penumbra isquêmica para o diagnóstico da morte encefálica", escrito por Cícero Coimbra, M.D., Ph.D. O Dr. Coimbra gentilmente deu-me a conhecer o referido texto antes de sua publicação.

Em minha opinião, este texto faz uma contribuição importante à precária literatura corrente relativa às bases científicas para o emprego de testes diagnósticos de morte encefálica. O texto levanta uma importante questão: se a hipotermia ou outro tratamento de emergência poderia reverter ou melhorar o infarto neuronal em progressão na vigência de uma pressão intracraniana severamente aumentada produzindo uma penumbra isquêmica global. Se puder faze-lo, ainda que parcialmente, então toda a lesão encefálica em tais casos pode não ser necessariamente irreversível. Devido ao fato de que a irreversibilidade é um requisito indispensável para a determinação da morte encefálica, então a cessação da função neuronal pode não ser necessariamente irreversível, e o paciente não deve ser declarado como tendo sofrido morte encefálica.

Eu acredito que a hipótese e os dados apresentados pelo Dr. Coimbra são cientificamente válidos e merecem ser publicados. Esses dados poderiam assim ser submetidos à avaliação dos seus colegas, já que são compatíveis com o método científico. Se a hipótese será finalmente aceita ou não dependerá de como outros estejam convencidos de sua hipótese e da defesa dela.

Muito obrigado por sua atenção em relação a este assunto.

Atenciosamente,

(a.) James Bernat, M.D.

Tradução por José Martins de Paula e Silva (Tradutor Público Juramentado, matriculado na Junta Comercial do Estado de São Paulo sob o número 195), tradução número 20.843, livro 160, fl. 117, em 4/11/98.

Nota do autor (C.G.C.): O Professor Bernat (citado também no texto preliminar) é Presidente da Comissão de Ética da Academia Americana de Neurologia (Committee of Ethics and Humanities, American Academy of Neurology - AAN). O posto que ocupa é reconhecedor de sua honestidade ética e científica, a qual lhe granjeou também notável prestígio internacional. Sua opinião é particularmente importante, não somente pelo seu cargo na AAN, mas principalmente, como já se afirmou neste texto, por ter-se constituído por quase 2 décadas em um dos maiores defensores dos critérios diagnósticos de morte encefálica em uso corrente. Sua carta apresenta de fato uma reconsideração imediata e oficial (ainda que preliminar) de seu próprio posicionamento, ao ser defrontado por novos e relevantes argumentos, o que, mais uma vez, demonstra a sua indefectível honestidade intelectual e científica, produto da rara integridade de seu caráter.