DEPARTAMENTO DE NEUROLOGIA E NEUROCIRURGIA
Disciplina de Neurologia Experimental

Morte EncefálicaApnéia na Morte EncefálicaIschemic Penumbra and Brain DeathMorte Encefálica: Repercurssão Internacional

Apnéia na Morte Encefálica

4. Observações adicionais

É extremamente eloqüente observar-se que, em sua brilhante alocução sobre a importância de prevenir-se a hipotensão arterial (com ênfase também para os riscos da hipóxia) como medida básica para o tratamento das vítimas de traumatismo craniano severo, o Dr. Chesnut (1997) destaca a importância de um único fator adicional como determinante de um prognóstico ruim - a hipertermia, citando o trabalho de Jones et al (1994):

A importância dessa informação é referendada pelos dados de Schwab et al (1997), apresentados na figura 4 deste texto. Como se observa naquela figura, ao selecionarem pacientes em estado grave para o tratamento hipotérmico, os autores encontraram essencialmente candidatos hipertérmicos em situação dramática, demonstrando a estreita correlação entre a ocorrência de hipertermia e severidade do quadro clínico de pacientes portadores de edema cerebral.

Já na década de 70 Clasen et al (1974) haviam demonstrado a rápida progressão do edema em animais submetidos a lesão criogênica do cérebro, verificando o aumento de 40% de edema ao longo de apenas 2 horas de sustentação da temperatura ao nível de 40ºC em relação à evolução dos animais normotérmicos. Na mesma década, Hindfelt (1976) notou a drástica redução dos índices de recuperação (ao longo dos primeiros 2 meses) dos déficits neurológicos de 60% para 8% em pacientes que apresentam hipertermia, mesmo em grau leve ou moderado, durante a primeira semana de sobrevida do AVC. Na década de 80, Przelomwski et al (1986) observaram a brusca elevação da pressão intracraniana em pacientes com lesões cerebrais associadas a edema por ocasião do início de surtos hipertérmicos. Recentemente, estudos experimentais mostraram que a extensão da área de infarto na isquemia focal transitória pode triplicar ocasião da ocorrência de hipertermia mesmo 24 horas depois do insulto primário (Kim et al, 1996), o que pode dever-se, entre outros fatores, ao aprofundamento do déficit circulatório da zona de penumbra isquêmica, em decorrência da elevação da pressão intracraniana (Coimbra e Cavalheiro, 1997). Outros estudos demonstraram o desencadeamento de um processo neurodegenerativo crônico pela ocorrência de hipertermia após a isquemia global transitória, capaz inclusive de fazer desaparecer lentamente a proteção propiciada pelo tratamento com hipotermia moderada pós-isquêmica (Coimbra et al, 1996a, b). Com relação a esse processo neurodegenerativo, o efeito anti-inflamatório da hipotermia (Coimbra e Wieloch, 1994) pode ser contrabalançado pelo efeito pró-inflamatório da hipertermia: em outras palavras, mecanismos fisiopatológicos associados à produção de radicais livres e outras neurotoxinas, depois de tornarem-se quiescentes pelo tratamento hipotérmico, podem ser reativados pelo ocorrência de hipertermia (Coimbra et al, 1996a, b). Recente revisão aponta para o "redescobrimento" da influência das alterações da temperatura corporal na fase aguda das lesões encefálicas agudas, evidenciado pela eloquência dos recentes e numerosos relatos feitos por diversos grupos de pesquisadores, tanto clínicos como experimentais (Colbourne et al, 1997).

Inegável, portanto, que a antipirexia deva ser considerada como um dos pilares essenciais para o tratamento de pacientes com edema cerebral e hipertensão intracraniana. A inobservância desse preceito pode fazer com que se perca o efeito protetor propiciado pelo tratamento hipotérmico, não somente pelo desencadeamento de processos neurodegenerativos crônicos, mas também pelos seus efeitos imediatos sobre o edema e sobre o fluxo sangüíneo encefálico (figura 13) - fato extremamente relevante em face da freqüente ocorrência de infecções respiratórias e urinárias em pacientes em coma. A pneumonia bacteriana é de fato a complicação mais comum do trauma craniano (Luce, 1986), acometendo até 80% dos pacientes (Hooton et al, 1981). É possível, portanto, que mesmo a vigorosa proteção induzida pela hipotermia nos estudos de Marion et al (1997) e Metz et al (1996) - o qual verificou a ocorrência de pneumonia em 50% dos casos - tenha sido de fato subestimada em razão da superposição dessas complicações.

A figura 15 demonstra a inter-relação entre o fluxo sangüíneo encefálico e a ocorrência de surtos hipertérmicos em pacientes com edema encefálico e hipertensão intracraniana.

Figura 15 - Efeitos de surtos hipertérmicos consecutivos sobre a evolução natural do fluxo sangüíneo encefálico (FSE) após uma lesão associada a edema proeminente. Cada surto induz imediata elevação da pressão intracraniana (Przelomski et al, 1986), reduzindo instantaneamente o FSE, ao mesmo tempo em que acentua drasticamente o edema encefálico, de forma que apenas 2 horas de elevação da temperatura corporal (TC) podem expandir em 40% o volume do edema (Clasen et al, 1974). O segundo surto, ao nível de 25 horas de sobrevida leva à inativação da atividade sináptica, dando origem ao quadro clínico de "morte encefálica" (coma profundo, apnéia, e supressão dos reflexos cefálicos), apesar de que o paciente permaneça ainda recuperável, não fosse a ocorrência do terceiro episódio de hipertermia (ao nível de 29 horas de sobrevida), que leva a uma nova e mais profunda deterioração do FSE, dessa vez desencadeando o processo bioquímico que leva à necrose celular. Em conseqüência da necrose hipotalâmica, desaparece a hipertermia, sobrevindo a progressiva redução da TC, hipotensão e assitolia.