DEPARTAMENTO DE NEUROLOGIA E NEUROCIRURGIA
Disciplina de Neurologia Experimental

Morte EncefálicaApnéia na Morte EncefálicaIschemic Penumbra and Brain DeathMorte Encefálica: Repercurssão Internacional

Apnéia na Morte Encefálica 

3. Efeitos nocivos do teste da apnéia: de como um teste DESTINADO A "DIAGNOSTICAR" A MORTE pode, de fato, CONSUMÁ-LA, tornando-se de fato "infalível"!

Os idealizadores do teste da apnéia têm procurado caracterizá-lo como inócuo essencialmente preconizando a sua execução associada a medidas que sejam capazes de prevenir a ocorrência de hipóxia durante o período de DEZ MINUTOS em que o respirador permanece DESLIGADO. Essas medidas preventivas são, basicamente, (1) a ventilação do paciente com oxigênio a 100% durante os dez minutos que precedem o teste, e (2) a colocação de um cateter com alto fluxo de oxigênio (usualmente 6 litros/minuto) através do tubo endotraqueal ou da traqueostomia. Veremos a seguir que esses procedimentos não conseguem evitar a hipóxia em todos os casos. Ademais, como a função respiratória não tem como único objetivo evitar a hipóxia, mas também a hipercapnia e a acidose respiratória que decorre da cessação dos movimentos ventilatórios, invalida-se a pretensa segurança do teste, pelas conseqüências devastadoras da indução dessas alterações.


3.1 - Piora da hipertensão intracraniana levando à deterioração mais pronunciada do fluxo sangüíneo encefálico

Há muito se sabe que os níveis de dióxido de carbono do sangue arterial influenciam marcadamente o volume de sangue contido no espaço intracraniano e o fluxo de sangue encefálico, modulando um e outro de forma não necessariamente proporcional, o que tem profundas implicações para o tratamento de pacientes com hipertensão intracraniana (Yoshihara et al, 1995). Reconhecendo-se o dióxido de carbono, como o mais eficiente modulador da vasomotricidade cerebral, verificou-se há longo tempo que a hipocarbia (diminuição da concentração do dióxido de carbono) reduz, ao passo que a hipercarbia (elevação da concentração do dióxido de carbono) aumenta a pressão intracraniana através da redução e do aumento do calibre dos vasos sangüíneos intracranianos, respectivamente. A aplicação desses princípios no tratamento dos pacientes com hipertensão intracraniana tem feito com que, como parte do tratamento convencional usualmente oferecido, empregue-se a hiperventilação (aumento da frequência respiratória), de forma a manter-se a pressão parcial do dióxido de carbono (PaCO2) um pouco abaixo dos valores normais (35-45 mmHg), especificamente entre 25 e 30 mmHg. Espera-se que, com essa moderada redução da PaCO2, o volume de sangue intracraniano seja predominantemente reduzido em relação ao fluxo sangüíneo encefálico - o qual viria de fato a elevar-se através da diminuição da pressão intracraniana resultante dessa manobra (Yoshihara et al, 1995).

Ao aplicar-se o teste da apnéia, o objetivo inverte-se completamente: busca-se elevar a PaCO2, PARA NÍVEIS SUPERIORES AOS NORMAIS (_ 60-65 mm Hg) SEM QUALQUER PREOCUPAÇÃO OU ATENÇÃO PARA COM AS REPERCUSSÕES DECORRENTES DESSA "META" SOBRE A PRESSÃO INTRACRANIANA - JÁ EXTREMAMENTE ELEVADA - CONSTITUINDO-SE NO DETERMINANTE PRIMÁRIO DO DÉFICIT CIRCULATÓRIO ENCEFÁLICO.

APESAR DE RECONHECIDA COMO DETERMINANTE DA PIORA DA HIPERTENSÃO INTRACRANIANA E, PORTANTO, DO DÉFICIT CIRCULATÓRIO ENCEFÁLICO - A CAUSA DA LESÃO IRREVERSÍVEL DO TECIDO NERVOSO, A HIPERCARBIA (até então evitada para preservar o tecido nervoso da lesão irreversível) PASSA A SER PROVOCADA POR OCASIÃO DO TESTE DA APNÉIA.

Os efeitos determinados pela hipercarbia são especialmente proeminentes nos pacientes portadores de hipertensão intracraniana provocada pela expansão do edema encefálico, como é o caso das vítimas de traumatismo craniano severo. Em face do esgotamento dos mecanismos tamponadores da pressão intracraniana, e da baixa complacência a novos acréscimos volumétricos resultante da exaustão desses mecanismos, elevam-se drasticamente os níveis pressóricos em resposta a poucos mililitros de sangue adicionais acumulados no interior do crânio em resposta à hipercarbia (Yoshihara, 1995):

As preocupações de Yoshihara et al (1995) quanto aos efeitos catastróficos da hipercarbia em pacientes portadores de traumatismo craniano severo já eram conhecidas há muito (MacIver et al, 1958; Mayer e Walker, 1982; Miller et al, 1981). Já há mais de uma década e meia, verificavam-se as observações de Miller (1982) nesse mesmo sentido, em sua revisão sobre a fisiologia do trauma, indicando justamente a faixa de variação da PaCO2 almejada pelo teste da apnéia (de 35 mm Hg para 60-65 mm Hg) como a mais perigosa:

ASSIM, TAMBÉM NOS CASOS DE FATO RECUPERÁVEIS, EM QUE O FLUXO SANGÜÍNEO ENCEFÁLICO ENCONTRA-SE REDUZIDO, MAS AINDA ACIMA DO LIMIAR ABAIXO DO QUAL AS CÉLULAS NEURONAIS SÃO LESADAS, IMPLEMENTA-SE UMA MEDIDA - O TESTE DA APNÉIA, QUE, JUSTAMENTE POR ELEVAR A CONCENTRAÇÃO DO DIÓXIDO DE CARBONO - FATO INEGÁVEL, EIS QUE SUA META PRECÍPUA - PIORA AINDA MAIS (E DRASTICAMENTE) A HIPERTENSÃO INTRACRANIANA E O DÉFICIT CIRCULATÓRIO DETERMINADO POR ELA. DEIXA-SE DE PRESERVAR A VIDA, E PASSA-SE A PROVOCAR A MORTE (!!!) - TUDO A PRETEXTO DE UM "DIAGNÓSTICO" QUE SOMENTE BENEFICIA A TERCEIROS.

Ademais, como se tal não fosse suficientemente absurdo erro metodológico, verifica-se que os pacientes atingem em média, ao final de 10 minutos de apnéia, 89 mm Hg (alguns ultrapassam 100 mm Hg) de pressão parcial de dióxido de carbono no sangue arterial (Jeret e benjamin, 1994) - níveis claramente suficientes para a indução de narcose carbônica, o que implica na depressão da atividade do centro respiratório, não no seu estímulo.

Que dizer de um teste que busca induzir a responsividade do tecido nervoso a manifestar-se, mas que, durante sua execução, transforma o estímulo em inibição e torna ainda mais severo o déficit circulatório causador da própria ausência de responsividade? Dizer que foi idealizado por profissionais tecnicamente capacitados, acumuladores de ampla cultura médica? "Notáveis", talvez?


3.2 - Hipóxia

Pretensamente seguro por "ser executado sem a ocorrência de hipóxia", verifica-se outra realidade. Muitos pacientes nos quais se emprega os critérios diagnósticos de morte encefálica "de acordo com os padrões atuais", são politraumatizados, portadores de lesões pulmonares agudas, apresentando a síndrome do sofrimento respiratório do adulto ("pulmão de choque"), pneumonias (muitas vezes aspirativas, comprometendo difusamente ambos os pulmões), ou portadores de pneumopatias prévias. Nesses pacientes, as medidas tomadas de forma a prevenir a hipóxia são inefetivas, e casos de hipoxemia importante realmente ocorrem em cerca de 13% dos casos (Benzel et al, 1989; Jeret e Benjamin, 1994; Perel et al, 1983; Schafer e Caronna, 1978):

Como certamente a hematose não pode ocorrer a nível da mucosa traqueal ou a nível do revestimento interno do tubo endotraqueal (!!) onde é colocada a extremidade do cateter (para "oxigenação passiva"), verifica-se que, especialmente nos casos em que os pacientes apresentam extensas áreas de parênquima pulmonar irrigadas, mas não areadas, em decorrência das patologias citadas (ventilation-perfusion imbalance), tornam-se imprescindíveis, para o aproveitamento das exíguas porções de tecido pulmonar ainda capazes de executar trocas gasosas e evitar a hipóxia, não somente a continuidade dos movimentos ventilatórios, mas inclusive o emprego ventilação sob pressão expiratória final positiva (PEEP) e de elevados níveis de fração inspirada de oxigênio (FiO2). Que dizer da propriedade de desligar-se o respirador por DEZ MINUTOS nesses pacientes? Que dizer do bom senso dos propositores de tal procedimento?


3.3 - Hipotensão arterial, levando ao colapso irreversível da circulação intracraniana

Muitíssimo mais grave do que a exacerbação da hipertensão intracraniana determinada pelo teste da apnéia, revela-se a hipotensão arterial induzida em cerca de 40% dos pacientes submetidos a esse procedimento (Jeret e Benjamin, 1994). Conforme se sabe há pelo menos 15 anos (Lewelt et al, 1980; Miller, 1982) a hipotensão arterial tem conseqüências catastróficas e irreversíveis sobre pacientes portadores de hipertensão intracraniana, como, por exemplo, as vítimas de traumatismo craniano severo. Ao contrário dos indivíduos normais e de alguns daqueles que apresentam hipertensão intracraniana secundária a outras causas, para os quais a pressão de perfusão encefálica (calculada pela diferença entre a pressão arterial média, que favorece o fluxo sangüíneo, e a pressão intracraniana, que se opõe a ele) necessária para sustentar o fluxo sangüíneo encefálico pode ser tão baixa quanto 40 mm Hg, OS PACIENTES PORTADORES DE TRAUMATISMO CRANIANO SEVERO (condição que mais freqüentemente leva ao "diagnóstico" de morte encefálica) NECESSITAM DE NÍVEIS DE PRESSÃO DE PERFUSÃO DA ORDEM DE 80 A 90 MM HG PARA SUSTENTAREM A CIRCULAÇÃO ENCEFÁLICA. NESSES PACIENTES, MESMO REDUÇÕES MODERADAS E BREVES DA PRESSÃO DE PERFUSÃO PODEM LEVAR À ISQUEMIA CEREBRAL CATASTRÓFICA E PERMANENTE, QUE NÃO PODE SER REVERTIDA MESMO COM O RESTABELECIMENTO IMEDIATO DOS NÍVEIS PRESSÓRICOS NORMAIS (Miller, 1982):

As observações de Miller (1982) e de Lewelt et al (1980) foram ainda reconfirmadas por um largo estudo multicêntrico envolvendo centenas de casos de traumatismo craniano - o Traumatic Coma Data Bank, as quais apontam a ocorrência de hipotensão arterial como o mais importante incidente associado a um prognóstico desfavorável (evolução para morte ou estado vegetativo persistente). Em sua brilhante explanação veiculada em um recente congresso dedicado ao tema, o Dr. Chesnut retira a quintessência do aprendizado proporcionado pelo referido estudo afirmando, categoricamente, que a preservação da pressão arterial em valores normais constitui-se em uma das principais, se não na principal e mais efetiva de todas as medidas terapêuticas empregadas pelos centros hospitalares mais conceituados internacionalmente, em seus protocolos de vanguarda no tratamento de vítimas de traumatismo craniano grave. Assevera mesmo o Dr. Chesnut que a rigorosa prevenção da hipotensão arterial deva ser considerada a única, real causa do sucesso alcançado por esses centros (Chesnut, 1997):

Os dados que motivam as afirmações do Dr. Chesnut são de inegável eloquência, como demonstram as 2 tabelas seguintes, reproduzidas a partir de uma publicação anterior (Chesnut, 1992). A primeira dessas tabelas demonstra como a presença de hipotensão, hipóxia ou ambas (hipotensão e hipóxia), por ocasião da chegada à emergência do hospital, influencia o prognóstico de 699 pacientes. Verifica-se que a presença de hipóxia isolada faz com que o percentual de mortos se eleve de 27% para apenas 33.3%; já a ocorrência de hipotensão tem um efeito devastador, elevando o percentual de mortos para 60.2% quando isolada, e para 75% quando associada à hipóxia. O percentual de boa ou moderada recuperação decresce na mesma proporção, não sendo quase afetado pela ocorrência de hipóxia isolada (de 51.1% para 44.9%), mas sendo drasticamente reduzido pela hipotensão isolada (para 25.7%) e associada à hipóxia (para 5.8%).

Table 1. Outcome by secondary insult present at time of arrival at Traumatic Coma Data Bank hospital emergency for mutually exclusive insults

Secondary insults

No. of Patients

% Total Patients

Outcome percent

Good or Moderate

Severe or Vegetative

Dead

Total cases

699

100.0

42.9

20.5

36.6

Neither

456

65.2

51.1

21.9

27.0

Hypoxia

78

11.2

44.9

21.8

33.3

Hypotension

113

16.2

25.7

14.1

60.2

Both

52

7.4

5.8

19.2

75.0

Hypoxia = PaO2 < 60 mm Hg; hypotension = SBP < 90 mm Hg;

 A tabela a seguir (nº 5 deste texto, reproduzida a partir da de nº 3 do texto de Chesnut, 1997) apresenta os resultados da hipotensão (pressão arterial sistólica < 90 mm Hg) ocorrida isoladamente antes (early hypotension) ou depois (late hypotension) da admissão à unidade de tratamento intensivo, consecutivamente em ambas as situações (early & late hypotension) ou em nenhuma delas (no hypotension) em 493 vítimas de traumatismo craniano severo. Através dos dados nela apresentados, verifica-se que a hipotensão ocorrida tardiamente, quando o edema encefálico encontra-se já francamente instalado possui um efeito muito mais devastador do que a hipotensão precoce. Enquanto a hipotensão precoce reduz de 64% para 40% o percentual de pacientes que apresentam recuperação boa ou moderada, a hipotensão tardia reduz esse mesmo percentual para 20%, enquanto o efeito consecutivo de ambas o reduz para apenas 15%. Obviamente, o resultado final de morte ou estado vegetativo persistente responde à hipotensão na forma inversa, ocorrendo em apenas 27% dos pacientes não acometidos por hipotensão, em 33.3% dos pacientes que sofrem hipotensão precoce isoladamente, em 60.2% dos pacientes nos quais ela é notada somente na unidade de tratamento intensivo, e em 75% dos casos que a apresentam consecutivamente em ambas as situações.

Table 3. Influence on early (admission) or late (in ICU) occurrence of one or more episodes of hypotension on outcome in 493 severe traumatic brain injury patients from the Traumatic Coma Data Bank surviving _9hr in the ICU

Secondary insults

No. of Patients

Outcome percent

Good or Moderate

Severe

Vegetative or dead

No hypotension

307

64

19

27.0

Early hypotension

30

40

13

33.3

Late hypotension

117

20

14

60.2

Early & late hypotension

39

15

8

75.0

Hypotension = SBP < 90 mm Hg

 Obviamente, o "diagnóstico" de morte encefálica é buscado mais freqüentemente na unidade de tratamento intensivo pois, pela própria natureza de sua atividade, os profissionais que trabalham em unidades de pronto-atendimento ministram os primeiros socorros e a seguir encaminham os pacientes aos setores pertinentes do sistema hospitalar. Evidentemente, portanto, o teste da apnéia, que é executado em pacientes que apresentam supressão da atividade sináptica pela progressão do edema encefálico e da hipertensão intracraniana, incide justamente sobre eles no momento da evolução do quadro clínico em que já se encontram com o fluxo sangüíneo encefálico mais reduzido e são mais suscetíveis a pequenos ou mínimos decréscimos da pressão arterial. Justamente nesse momento sujeita-se o paciente aos efeitos nocivos do teste, que provoca hipotensão severa em 40% dos casos (Jeret e Benjamin, 1994).

Frente a esses dados, como entender-se manifestações como a do Dr. Wijdicks a respeito - cujo posicionamento contraditório e incoerente a respeito do assunto já foi extensivamente discutido neste texto, em mais uma de suas alocuções em que, apesar de reconhecer a ocorrência comum de hipotensão severa durante o teste, em comentário ao relato de Jeret e Benjamin (1994), quando escreve novo texto para apenas sugerir aos médicos não considerem tal complicação como realmente perigosa (Wijdicks, 1995b)?

Coerência e ética não faltam aos autores do relato em questão (Joseph S. Jeret e Jeffrey Benjamin) que, em resposta a Wijdicks (1995b) aconselham prudência a seus colegas médicos e solicitam a atenção de profissionais do direito, da ética e da religião para as implicações de seus resultados, que incluiram também a verificação de paradas cardíacas durante a realização do teste (ver adiante):

É inegável, portanto, o poder destrutivo do teste da apnéia, capaz de provocar colapso irreversível da circulação intracraniana (irreversível provavelmente por associar a elevada pressão intracraniana - piorada pela hipercarbia - à tensão superficial que o colapso permite que se estabeleça entre as superfícies luminais do endotélio ao longo de toda a rede vascular intracraniana), levando à isquemia devastadora, e com ela à destruição difusa do encéfalo. Essa destruição, portanto, que seria objetivo do teste apenas "diagnosticar" é evidentemente induzida por esse procedimento HOMICIDA. A evidência apresentada a seguir corrobora essa afirmação.

Há que reconhecer a clara discrepância em relação à evolução para morte por parada cardíaca entre os pacientes submetidos e não submetidos ao teste da apnéia, mesmo quando todos os demais parâmetros clínicos são satisfeitos igualmente nos dois casos (coma profundo, dependência da ventilação mecânica, e ausência dos reflexos cefálicos por pelo menos 6 horas). Quando esses pacientes não são submetidos ao teste da apnéia, a evolução para a parada cardíaca, mesmo na ausência de reposição de vasopressina, ocorre em 93% dos casos (Walker et al, 1975). No entanto, quando os pacientes são submetidos ao teste da apnéia de 10 minutos de duração, 100% deles evoluem para a parada cardíaca, como demonstram diversos relatos (Ebata et al, 1991 - 9 pacientes; Hung e Chen, 1995 - 73 pacientes; Jeret e Benjamin, 1994 - 61 pacientes; Rowland et al, 1984 - 9 pacientes, apenas para citar alguns, e que totalizam, apenas nessa série, 152 pacientes). Não fosse o teste da apnéia uma das causas da evolução para a parada cardíaca (por diabete insípido secundário à destruição hipotalâmica, por sua vez determinada pelo colapso circulatório irreversível já comentado), constituindo-se realmente em um "inofensivo" procedimento diagnóstico, deveria, necessariamente, não confirmar a "morte encefálica" sugerida pelo quadro clínico descrito em cerca de 7% dos casos. Consequentemente, o teste da apnéia altera a evolução natural desses casos de forma a induzir a progressão para a parada cardíaca em cerca de 7% dos casos, e de forma a antecipar a lesão irreversível do encéfalo em um percentual provavelmente muito maior. Antecipa ou determina a morte em pacientes que poderiam ter suas seqüelas reduzidas ou serem recuperados a ponto de reassumirem as atividades desempenhadas antes do acidente, se fossem submetidos ao tratamento hipotérmico, como foi o caso dos pacientes beneficiados pelo estudo de Metz et al (1996).

Não é de surpreender-se, no entanto, a falta casos não confirmados pelo teste! Repetidamente encontram-se instruções na literatura orientando os médicos a desconsiderarem virtualmente qualquer movimento que o paciente venha a executar como originário da atividade encefálica, o que constituir-se-ia, nesse caso, em evidência de que esteja vivo! Ao ser desligado o respirador, o paciente pode elevar a mão palmos acima do tórax, ou repedidamente à região cervical ou mentoniana, ou mesmo (inacreditável!!) realizar movimentos "sugestivos de esforço respiratório". Tudo inútil!! Segundo os propositores do método, que exaram tais "orientações" do alto de sua "ciência" inquestionável, quaisquer desses movimentos devem ser encarados como "reflexos" medulares. Estranhamente, apesar de que não se tenha notícia ou comprovação de que a medula espinhal humana seja capaz de executar movimentos tão complexos, mesmo assim eles são atribuídos à medula por simples exclusão, já que se parte do pressuposto ("inquestionável"!) de que o quadro clínico apresentado pelo paciente identifica infalivelmente o estado de irreversibilidade da lesão encefálica! É inimaginável para tais "cientistas" a possibilidade de pacientes com fluxo sangüíneo encefálico situado próximo ao limiar de inativação sináptica possam ainda manifestar qualquer sinal de vida!!!

"Como?!! Considerar tal possibilidade representaria uma ameaça à credibilidade da ‘soberana’ avaliação clínica!!! Não!!! Definitivamente não!!! Tais movimentos agônicos, desencadeados pelo sofrimento respiratório, não podem ter origem no encéfalo!!" Melhor subverter, reinventar a ciência, tranformando-a em atividade mental cartilhista, incapaz de considerar alternativas à "morte encefálica indiscutível". Observe-se o que diz Allan H. Ropper (1984), exercendo o seu direito ao absurdo, ao sugerir que os familiares sejam retirados do recinto antes que o respirador seja desligado, para não ficarem chocados com a cena, ou protestarem:

A figura 12 ilustra a conseqüência do teste da apnéia nos dois casos: (1) em que a irreversibilidade da lesão ainda não se estabeleceu até o momento do teste, ou (2) que não se estabeleceria nunca, não fosse a implementação desse "procedimento diagnóstico":

Figura 13 - Efeitos do teste da apnéia induzido ao nível de 24 horas de sobrevida sobre a evolução natural do fluxo sangüíneo encefálico após traumatismo craniano severo. Por ocasião da implementação do teste, todos os 3 casos ilustrados já apresentam supressão das funções encefálicas dependentes da atividade sináptica há mais de 6 horas (há 20, 12 e 8 horas respectivamente nos casos 1, 2 e 3 respectivamente). A hipercarbia e a acidose abruptamente provocadas pelo "teste" agravam a pressão intracraniana e induzem hipotensão severa simultaneamente, levando, através de ambos os mecanismos, ao colapso da circulação intracraniana. Por razões ainda não conhecidas (possivelmente devido ao estabelecimento de tensão superficial entre as superfícies do lúmen vascular) o colapso dos vasos intracranianos não pode ser revertido mesmo após o reequilíbrio dos níveis pressóricos, levando à isquemia devastadora do encéfalo, que até então, nos casos 2 e 3, não havia se estabelecido espontaneamente. O teste induz a irreversibilidade que pretende diagnosticar, selando o destino de pacientes que poderiam ser beneficiados pelo tratamento hipotérmico!

Por absurdo que possa parecer, é precisamente após a implementação de tal procedimento "diagnóstico", que claramente pode induzir ao colapso irreversível dos vasos intracranianos, que os pacientes são submetidos a exames "confirmatórios", destinados a avaliar a atividade do tecido nervoso (EEG, potenciais evocados) ou detectar a presença de fluxo sangüíneo residual no espaço intracraniano!!!

Demonstrando a força com que o pensamento cartilhista bloqueia qualquer estímulo capaz de induzir desvios para a linha científica, há quem se negue a reconhecer o caso descrito no último congresso americano de neurologia como uma evidência da falibilidade do diagnóstico clínico de morte encefálica. Naquele congresso, ocorrido em abril de 1997 em Boston, Koberda et al (1997) relataram o caso de um paciente que, depois de permanecer em coma profundo, dependente de ventilação mecânica e com ausência de todos os reflexos cefálicos por 6 horas, com oclusão da artéria basilar documentada arteriograficamente, teve a recirculação daquele vaso restaurada pela administração intra-arterial de uroquinase, vindo a recuperar-se a ponto voltar a andar e viver independentemente em sua residência.

"O paciente não foi submetido ao teste da apnéia!" - protestam, inconformados, os partidários da "morte encefálica indiscutível! Não acham talvez correta a atitude de Koberda e associados, que, ao invés de submeterem o citado paciente, já em grave sofrimento circulatório do tronco encefálico (a ponto de o fluxo sangüíneo residual do território vértebro-basilar já não poder ser detectado pelo exame arteriográfico), à situação configurada na figura 14, decidiram tentar salvá-lo ("Que insensatos, não?!"), procurando desobstruir a artéria basilar antes que o fluxo do tronco encefálico atingisse níveis inferiores ao limiar de lesão por mais de 1 hora. Segundo se depreende desses protestos, o correto teria sido induzir hipercarbia, acidose, elevar a pressão intracraniana (provocando maior resistência ao débil fluxo sangüíneo da artéria basilar ou da circulação colateral) e induzir hipotensão arterial (eliminando-se assim de uma vez por todas o débil fluxo sangüíneo mantenedor da vitalidade do tronco encefálico e da vida do referido paciente). "Insensato Koberda! Por que não seguiu a cartilha?!!"

Figura 14 - Efeitos da administração intra-arterial de um agente trombolítico sobre o fluxo sangüíneo do tronco encefálico em um caso hipotético de oclusão da artéria basilar (como o relatado por Koberda et al, 1997). O paciente apresenta depressão do nível de consciência às 9:00 horas da manhã. Às 10 horas encontra-se com os sinais clínicos de morte encefálica (incluindo provas calóricas negativas). Às 14:00 horas é submetido a uma angiografia que evidencia o diagnóstico e, a seguir, à administração intra-arterial do agente trombolítico, que, às 16:00 horas promove a desobstrução. Nas 24 horas seguintes recupera-se progressivamente. Deve este paciente ser submetido ao teste da apnéia e não à terapia trombolítica??!!!

Ao afirmar-se que o caso relatado por Koberda et al não pode ser considerado como de morte encefálica (pela falta do teste da apnéia), devendo ao invés, ser considerado como um simples caso de prognóstico reservado que "fugiu à regra", está-se desconsiderando, ademais, (1) que o teste nunca se contrapõe ao quadro clínico (mesmo porque movimentos sugestivos de esforço respiratório não são considerados!), e (2) que o próprio "diagnóstico" de morte encefálica nada mais é do que um prognóstico de morte, ou seja, que os critérios utilizados (exceto pelo homicida teste da apnéia, que avança muito além disso), caracterizam exatamente isso: um prognóstico reservado!

Veja-se o que declara o Dr. Wijdicks a respeito do progóstico desses pacientes (cuja posição é, uma vez mais contrariada pelo relato de Koberda et al), ao "estabelecer" que a evolução natural de todos os casos de oclusão da artéria basilar que apresentam em algum momento coma e dependência à ventilação mecânica é, invariavelmente, a morte (Wijdicks and Scott, 1996):

As palavras do Dr. Wijdicks claramente indicam que a oclusão da artéria basilar, quando chega ao ponto de provocar coma profundo associado à dependência à ventilação mecânica deva "indiscutivelmente", ser considerada "UMA CAUSA CONHECIDA DE IRREVERSIBILIDADE DA LESÃO ENCEFÁLICA, OU SEJA, DE MORTE ENCEFÁLICA". Essa tem sido o último argumento sobre o qual se sustentam os defensores da viabilidade do diagnóstico clínico de "morte encefálica". Basta, segundo eles, que se identifique uma "causa sabidamente irreversível". Pois aí está "uma delas", reconhecida pelo próprio Wijdicks. E ainda assim, na realidade, como demonstra o relato de Koberda et al (1997), uma causa reversível. A contradição entre afirmação e fato demonstra, uma vez mais que as situações clínicas assim consideradas ("irreversíveis"), podem deixar de sê-lo, e freqüentemente o são, na dependência da evolução do conhecimento científico sobre a fisiopatologia das doenças e do aprimoramento dos recursos terapêuticos que esse progresso coloca à disposição do clínico. Não é, portanto, nem através desse argumento que se pode validar a morte encefálica!


3.4 - Parada cardíaca fatal

Por ocasião da aplicação do teste da apnéia, a observância das medidas preventivas da hipóxia não impede que as conseqüências graves da hipercarbia abrupta e da acidose dela resultante se façam sentir de forma devastadora sobre o sistema cardiovascular, levando à hipotensão arterial, já discutida, e mesmo à parada cardíaca fatal durante o teste, cuja ocorrência inspirou o estudo de Jeret e Benjamin (1994):

Durante o acompanhamento prospectivo de 61 casos de pacientes submetidos ao teste da apnéia, Jeret e Benjamin (1994) selecionaram o seguinte caso como um dos dois mais ilustrativos dos riscos do teste da apnéia:

Apesar de que os fatores determinantes da depressão cardiovascular (levando à hipotensão e à parada cardíaca) induzida pelo teste da apnéia não se encontrem determinados com absoluta segurança, é provável que a causa seja a profunda acidemia inevitavelmente associada à hipercarbia que o procedimento tem por objetivo induzir (Jeret e Benjamin, 1994):