HISTOFISIOLOGIA


O colo do útero tem como função proteger a entrada de agentes patogênicos para o interior da cavidade pélvica, pois existe uma perviedade entre o meio exterior e a cavidade pélvica (via cavidade uterina e lúmen das tubas uterinas). Secreta muco e anticorpos que ocupa a cavidade cervical e impedem a progressão de agentes patogênicos para o interior da cavidade uterina. Além disso, possui papel importante na ativação dos espermatozóides. Alterações bioquímicas nesse muco podem levar a distúrbios da fertilidade. Deve ser lembrado que o corpo do útero é o local em que ocorre a implantação, nutrição e proteção do embrião, com função bem definida e essencial para o sucesso da gravidez.

Durante a gravidez o colo do útero se fecha fortemente mantendo o feto no seu interior. Alterações nesse mecanismo fazem com que possa ocorrer abortamento. Já no momento do parto, é necessário além das contrações uterinas, que ocorram modificações bioquímicas no estroma cervical para permitir a dilatação do colo do útero (amolecimento cervical).


  







Constituição do muco
O muco cervical é um hidrogel produzido pelas criptas do colo do útero. Está envolvido com: 1º - migração e maturação dos espermatozóides no interior do sistema genital feminino; 2º - fornecer uma barreira para impedir a entrada de patógenos para o interior do útero (cavidade uterina); 3º - sistema imunitário.
O muco sofre alterações de acordo com os níveis hormonais, significando que tem diferentes características bioquímicas e biofísicas durante o ciclo menstrual. As alterações no tipo de muco, devido às variações hormonais, residem no fato de ser secretado por vários tipos de glândulas presentes nas várias regiões do colo do útero. Essas características podem ser utilizadas como um elemento importante, mas indireto para estimar a época da ovulação, não só para os clínicos, mas também para as mulheres que podem usar métodos naturais de planejamento familiar (tal como o método de Billings). No período peri-ovulatório o muco lembra clara de ovo. Deve ser relembrado que o muco cervical não é uma entidade homogênea, mas sim heterogênea, contendo diferentes tipos de secreção que variam em proporção ao longo do ciclo menstrual. Esses diferentes tipos de muco já foram caracterizados por diversas técnicas, embora ainda não tenham sido caracterizados do ponto de vista bioquímico, pois é analisado como um todo. No entanto, existem evidências biofísicas e morfológicas desta heterogeneidade, baseados em métodos biofísicos (viscosidade) e microscópicos.
Inúmeros estudos indicam que o muco cervical humano, na realidade está constituído por quatro tipos diferentes de secreção, produzida em locais específicos nas criptas do colo do útero, sendo os seguintes tipos:
L – muco produzido pelas inúmeras células que revestem a superfície do canal cervical e não tem nenhuma função especial conhecida.
G – a secreção enzimática desta região combina-se com o muco P para criar um efeito liquidificante.
S – forma estruturas “alongadas” que auxiliam o transporte para os espermatozóides ("corredores"). Produz ainda a sensação de umidade e lubrifica a vulva.
P – constituem inúmeros subtipos de muco, os mais relevantes para a fertilidade são: P2 e P6. O P2 está presente no início da fase fértil, parece ter papel na difusão do G muco. O P6 está confinado principalmente à porção superior do colo do útero. Este último tipo está aumentado perto do pico da fertilidade, tem também papel no deslocamento dos espermatozóides. O muco P dá também uma sensação úmida e lubrificante na vulva.

A secreção desses tipos de muco sofre alterações durante o ciclo menstrual, de tal maneira que temos um arranjo final desse muco com o decorrer do ciclo, assim na fase estrogênica, a malha de muco apresenta poros de grande diâmetro, além de formar estruturas alongadas como se fossem trilhos por onde correm os espermatozóides. Já na fase progestacional esse o arranjo forma poros  de pequeno diâmetro, que dificultam a mobilidade dos espermatozóides. Próximo ao período menstrual o muco fica bem viscoso (filância) parecendo clara de ovo e fora desse período ele é quebradiço.






Composição do muco

O canal do colo do útero (endocervical) é revestido por um epitélio cilíndrico simples, constituído na sua maioria por células secretoras (95%) e células ciliadas (5%). As células secretoras produzem o muco cervical enquanto as células ciliadas criam uma corrente de líquido (uma corrente mucociliar) que carrega células e partículas em direção a vagina.
O muco cervical é uma substância (hidrogelatinosa) composta por uma fase aquosa contendo baixo peso molecular, proteínas, açúcares e enzimas, e uma fase gel contendo mucinas, que são glicoproteínas de alto peso molecular que formam uma malha complexa. Mais de 20 tipos de genes relacionados com codificação da mucina já foram identificados. As mucinas podem ser classificadas de acordo com as suas propriedades estruturais, tais como transmembrana (MUCs 1, 2, 3, 4, 12, 13, 15, 16, 17), formadoras de gel (MUCs 2, 5AC, 5B, 6), solúveis (MUCs 7, 9, 11, 14) e outras que não foram ainda categorizadas (MUCs 8, 10, 18, 19, 20). Mucina 5B gel é a principal formadora de mucina expressa pelo epitélio endocervical. Há indícios de outras mucinas, tais como MUC4, que se expressa no período ovulatório. Uma diminuição da produção de todas as mucinas é observada durante o período pós-ovulatório.

Muco cervical visto á microscopia de luz
Se colocarmos um pouco de muco sobre uma lâmina de vidro, ele se cristaliza e quando observado ao microscópio de luz pode apresentar várias formas, tal como forma de folhas de samambaia.




Muco cervical visto á microscopia eletrônica

O muco na fase estrogênica, em corte longitudinal, forma filamentos alongados que se dispõem formando trilhos que auxiliam o deslocamento dos espermatozóides, já em corte transversal o muco se dispõe formando poros de grande diâmetro (4 a 7 um) para a passagem dos espermatozóides. Na fase progestacional o muco perde sua característica filamentar, dispõe-se de forma radiada formando poros de pequeno diâmetro (0,2 a 0,8 µm) que dificultam ou impedem a entrada de espermatozóides para o lúmen uterino.