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Departamento de Medicina Consolidação do Departamento (1952-1965) No período de 1952 a 1954 Jairo Ramos foi Diretor da EPM. Com um ano de existência o Departamento passa por momento de turbulência. Em sua 73a Reunião (1 de dezembro de 1952) a Congregação examina correspondência encaminhada por Octávio de Carvalho ao Diretor da EPM (neste momento Jairo Ramos) na qual faz críticas à atuação do Departamento de Clínica Médica, que estaria tirando autonomia de sua Cadeira de Clínica Médica e sendo ineficiente no ensino. Por ser tanto Diretor da EPM como chefe do Departamento, Jairo Ramos retira-se e a Congregação, presidida pelo Vice-Diretor (Flávio da Fonseca), após análise de relatório, que incluía a opinião dos alunos sobre o curso, e amplos e demorados debates considerou, por unanimidade, improcedente a denúncia de Octávio de Carvalho. Nesta época, residindo no Rio de Janeiro, Octávio de Carvalho era substituído oficialmente em suas ausências por Heribaldo do Carmo Loverso, mas na realidade, quem conduzia o curso da Cadeira de primeira Clínica Médica era Antonio José Gebara. Em 1961, por ter atingido a idade limite, Octávio de Carvalho foi aposentado e sua Cadeira incorporada ao Departamento de Clínica Médica. Antonio José Gebara veio a falecer em fevereiro de 1962. Quatro anos após a implantação do Departamento Jairo Ramos preparou documento, fazendo balanço do realizado e projetando o futuro; o documento relata a estrutura, atuação e propostas do Departamento de Clínica Médica; curiosamente o documento traz título em inglês, Department of Internal Medicine, possivelmente preparado para a Fundação Rockefeller (que após a federalização concedeu auxílio importante ao Departamento). A introdução deste documento é parcialmente transcrita a seguir (respeitada a grafia original); o documento contem capítulos específicos para cada Secção incluindo organização, atividades didáticas, atividades clínicas e de investigação e trabalhos publicados. Além dos assistentes nomeados o documento informa que as secções contavam com outros assistentes, não identificados por Jairo Ramos. Assim sendo o Departamento contava, neste momento que antecede a federalização da EPM, com o total de 57 docentes: 1 catedrático, 7 chefes de secção, 14 assistentes com responsabilidades específicas (quadro 3) e 35 "outros assistentes". Em 1955 criou-se, no Departamento, o Serviço de Metabolismo e Nutrição (chefiado por Magid Iunes), que daria origem à Disciplina de Nefrologia. Quadro 3. Estrutura do Departamento de Clínica Médica em
1955
O auxílio que o Departamento recebeu da Fundação Rockefeller permitiu a instalação de laboratório de pesquisa e, fundamentalmente, propiciou estágios no exterior para jovens docentes e pagamento do "tempo integral geográfico" para docentes seniores. Neste regime de trabalho docentes mantinham consultório para atendimento de clientela particular no HSP. Bolsas, para estágios nos EUA, foram também concedidas pela Fundação Kellog e/ou pelo American College of Physicians. Estagiaram no exterior: Sílvio Borges (1948-1950) e Cantídio de Moura Campos Filho (1949-1952) no Instituto Nacional de Cardiologia do México, de onde trouxeram "elementos para desenvolverem a pesquisa clínica e experimental de hemodinâmica e eletrocardiografia, respectivamente"; Italo Domingos Le Vocci (1947-1948) também no Instituto Nacional de Cardiologia do México e Octávio Ribeiro Ratto (1954) no Departamento de Fisiologia da Universidade da Pennsylvania; Hélio Pucci nas universidades Cornell e Philadelphia e Sílvio Campos Lindemberg em Los Angeles com o endoscopista Schindler (1948-1949); Magid Iunes nas universidades de Minnesota, Michigan e Pittsburgh no período de 1952-1954; Oswaldo Luiz Ramos na Universidade McGill; Luiz Gonzaga Murat na Marquette University School of Medicine, estudando a coagulação com AJ Quick. Criavam-se no Departamento núcleos de pesquisa clínica e bases para a estruturação dos programas de Residência Médica (iniciados em 1957) e de pós-graduação stricto sensu (credenciados na década de 1970). O programa de Residência Médica desempenhou papel fundamental na formação dos docentes, no desenvolvimento e diferenciação do Departamento e na formação de especialistas; foi e tem sido, mais do que a graduação ou a pós-graduação stricto sensu, o elo de união do Departamento. Na década de 1960 a Residência Médica na EPM era composta basicamente de dois ciclos: o clínico e o cirúrgico, com 10 vagas anuais em cada um. A partir de 12 de novembro de 1970 a Comissão de Residência da EPM passa a registrar em atas suas atividades e decisões (Ata da 1a Reunião da Comissão de Residência da EPM). O quadro 4 lista os Programas de Residência coordenados pelo Departamento em 2001: são 13 dos atuais 36 programas oferecidos pela UNIFESP. O primeiro ano (R1) de todos os programas do Departamento é de rodízio por diferentes Disciplinas, enfermaria geral e pronto-socorro. A admissão (com pré-opção) é novo vestibular, dado que o processo seletivo é aberto a todos os médicos formados no país. Em 2001 foi, pela primeira vez, concedido o Prêmio Jairo Ramos a Residente, do Departamento, que se destaque ao final do R1. Concedido pelo Departamento o prêmio (R$ 9000,00 em 2001) é patrocinado pela família Jairo Ramos, com fundos provenientes de direitos autorais da venda do livro Atualização Terapêutica. Além dos programas de residência médica o Departamento em 2001 oferece 24 programas formais de Especialização (com 99 vagas anuais para médicos e 163 para outros profissionais). Quadro 4: Programas de Residência Médica e de Pós-Graduação stricto sensu no Departamento de Medicina em 2001
Desde a criação do Departamento de Medicina até sua aposentadoria (31 de dezembro de 1965), Jairo Ramos foi a liderança do Departamento e a história das Disciplinas é contada dentro da história do Departamento. Em cada Disciplina atuavam especialistas de excelência na medicina brasileira. Neste período, apesar da nucleação de grupos de pesquisa e da formação de recursos humanos (gestação do futuro), a vocação do Departamento foi o ensino profissionalizante de excelência. As Disciplinas foram consolidadas em torno de seus programas de Residência. Mas os eventos mais importantes eram os coordenados pelo Departamento, e não os de iniciativa das Disciplinas. As principais atividades eram: as desenvolvidas nas enfermarias gerais (de homens e de mulheres) que culminavam com as visitas semanais de Jairo Ramos; os simpósios sobre temas médicos relevantes ou de assuntos de cultura geral (com freqüência com a participação de convidados de fora da EPM) e a reunião clínica semanal das quintas feiras, com a discussão de casos clínicos. Símbolo deste período da história do Departamento é o livro Atualização Terapêutica, cuja primeira edição foi lançada em 1957, editada por Felício Cintra do Prado (1900-1983, catedrático de Terapêutica Clínica), Jairo Ramos e José Ribeiro do Valle (1908-2000, catedrático de Farmacologia). A origem do livro foi apostila, idealizada por José Ribeiro do Valle e Felício Cintra do Prado, para curso de revisão e atualização terapêutica, patrocinado pela Associação Paulista de Medicina. Sua primeira edição recebeu auxílio financeiro do Conselho Nacional de Pesquisas, o que permitiu que seu preço de venda fosse consideravelmente reduzido. Com o falecimento de Jairo Ramos (1972) e de Felício Cintra do Prado (1983), a 13a edição (1985) é de responsabilidade de José Ribeiro do Valle e Oswaldo Luiz Ramos. A partir da 14a edição (1988) e até a 19a edição (1999), o livro é editado por Oswaldo Luiz Ramos (1928-1999), que conta com a colaboração de Hanna A. Rothschild. É talvez o livro médico de maior tradição no país. Vem, no dizer de Oswaldo Ramos, "socorrendo o médico brasileiro no angustiante desafio de decidir qual a terapêutica mais adequada para as principais síndromes médico-cirúrgicas, além de resumir as bases etiofisiopatogênicas e o quadro clínico destas síndromes". Em nome da homogeneidade de orientação todos os editores de secções e a maioria dos autores são Professores da EPM. Sua 20a edição (2001) é editada por Durval Rosa Borges e Hanna A. Rothschild. As 5 primeiras edições lançadas no mercado foram devidas à Editora Luso-Espanhola Brasileira Ltda; da 6a edição em diante ficaram as edições a cargo da Editora Artes Médicas Ltda, ambas de São Paulo. Jairo Ramos (1900-1972) Nascido em 24 de abril de 1900, Jairo Ramos formou-se médico pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1924. Iniciou carreira docente como Assistente da 2a Medicina de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Assistente cardiologista da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Livre Docente desta Faculdade, em fevereiro de 1933 participa de comissão que elaborou os estatutos de sociedade civil com a finalidade de criar nova escola médica na cidade de São Paulo: é um dos signatários do Manifesto de Fundação da EPM. Assume na EPM em 1936 a Cátedra de Clínica Propedêutica. Em 1951 cria o Departamento de Clínica Médica e o conduz até sua aposentadoria compulsória, em dezembro de 1965. Exerceu a Diretoria da EPM (cumulativamente com a diretoria do Hospital São Paulo) de abril de 1952 a junho de 1954. Jairo Ramos presidiu a Associação Paulista de Medicina (APM) por dez anos, em eleições sucessivas; a primeira em 1945, a última em 1955. Durante suas gestões promoveu reforma estatutária que permitiu a reunião, na APM, das várias sociedades médicas existentes no Estado de São Paulo. Conseguiu a doação de terreno e o financiamento para construir o edifício de 15 andares que ainda hoje abriga a APM, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Fundou a Revista Brasileira de Medicina, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (que presidiu) e foi um dos fundadores da Associação Médica Brasileira e do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Em capítulo introdutório da 1a edição do livro Atualização Terapêutica registra: "Há quem diga que a terapêutica é que iguala os médicos. Frase maliciosa e não real. A terapêutica sintomática iguala todos os médicos; ao contrário, a terapêutica específica distingue o bom do mau médico. Distingue os médicos que preferem um prévio e seguro diagnóstico a uma terapêutica apressada e meramente sintomática". Paraninfo, assim expressou-se a uma turma de médicos recém-formados: "Aprendam a perdoar, saibam orientar, façam por ensinar, cuidem de construir, pratiquem sua arte com nobreza, labutem com o propósito de dignificar a sociedade, de proteger o homem comum, e de enobrecer a carreira que adotaram". Em 1967 Jairo Ramos recebeu o título de Professor Emérito da Escola Paulista de Medicina. Faleceu em 1972. |
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