Unifesp - EPM
 

Departamento de Informática em Saúde

Entrevista

Professor Roque Monteleone Neto, perito da Comissão Especial da ONU (Unscom)
Professor Adjunto do
Departamento de Informática em Saúde DIS- UNIFESP/EPM
Revista Ser Médico - ABR/MAI/JUN/98- ANO I - Nº 3
Publicação do
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

ImagemLatina/Francisco Mata
Figura 1

A Biologia a serviço da guerra

O conhecimento científico a serviço da guerra legou à humanidade, entre outros, a bomba atômica, as armas químicas e as biológicas. O uso de agentes biológicos em conflitos é tão antigo quanto a humanidade. Mas agora microorganismos e toxínas são colocados em bombas e transformdos em armas de destruição maciça. Pesquisas estimuladas depois da 2ª Guerra Mundial, e principalmente depois do advento da engenharia genética, transformaram a biologia em arma tão letal quanto a nuclear. Para falar sobre esse tema Ser Médico entrevistou o professor Roque Monteleone Neto, perito da Comissão Especial da ONU (Unscom), órgão responsável pelo desmantelamento e destruição do arsenal de armas nucleares, químicas e biológicas do Iraque.

Ser Médico: Quais são os agentes biológicos usados como armas de guerra?

Roque Monteleone Neto: Em princípio, qualquer agente infeccioso pode ser transformado em arma de guerra - bactérias, fungos, toxinas e vírus que produzam danos sobre a saúde humana, animal e das plantas e que possam ser produzidos em grande quantidade. Existem alguns agentes de preferência como aquele que causa o carbúnculo (Bacillus anthracis). Existem três formas de carbúnculo, de acordo com a maneira que ocorreu o contato: a cutânea, a gastrointestinal e a pulmonar. As formas gastrointestinal e pulmonar são as mais graves, ocorrendo a morte logo após os primeiros sintomas. Há também o bacilo do botulismo (Clostridium botulinum) que produz uma neurotoxina, que é a substância de maior poder tóxico entre todas as conhecidas. A sua dose letal é calculada como sendo da ordem da milésima parte de um miligrama

Ser: Como se pode diferenciar rapidamente os diferentes agentes?

Roque: De um modo geral, não existe sintomatologia específica que caracterize uma ou outra infecção. É evidente que se pode fazer o diagnóstico diferencial com o auxílio de exames de laboratório. Mas os sintomas são muito parecidos. Alguns agentes causam hemorragias outros não, mas no geral é tudo muito parecido.

Ser: Do ponto de vista de efeitos, quais são as diferenças sintomatológicas de uma arma química e de uma arma biológica?

Roque: A arma biológica feita com bactéria produz uma doença infecciosa. Com uma arma biológica feita com uma toxina a diferença às vezes é difícil de estabelecer, tanto que algumas toxínas pertencem ao grupo de armas químicas e outras ao de armas biológicas. Com um agente biológico - uma bactéria ou um vírus - os sintomas são de uma doença infecciosa, enquanto que na arma química é de uma intoxicação grave, porém esta é apenas uma generalização, que pode ser enganosa, pois existem muitas exceções.

Ser: Além desses, quais outros agentes biológicos foram usados como armas em guerras?

Roque: A varíola foi usada em conflitos no passado. Não dentro de uma bomba como hoje. No século passado, durante a conquista de territórios dos índios na América do Norte, as tropas inglesas "presentearam" os índios com roupas contaminadas com o vírus da varíola, provocando uma epidemia. Muitos agentes já foram estudados , como o bacilo da gangrena gasosa (Clostridium perfringens), que causa uma série de alterações importantes no tecido muscular, choque, insuficiência renal e morte em menos de 2 dias. O vibrião do cólera (Vibrio cholera) também já foi usado pelos japoneses em atos de sabotagem contra os chineses, no início da década dos anos 30.

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A explosão de uma
bomba biológica não
pode afetar a viabilidade dos microorganismos
que carrega
 

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Ser: Como se transforma um agente biológico em uma arma de destruição em massa ou em uma bomba?

Roque: Em primeiro lugar, requer o domínio de uma tecnologia para produção em grande escala. Pode ser lançada por um míssil, uma bomba aérea, um avião pulverizador, um helicóptero ou um navio que tenha um mecanismo de dispersão de partículas com estes agentes. Já a colocação de agentes dentro de um artefato explosivo é mais sofisticada. Essa tecnologia foi desenvolvida após a 2ª Guerra Mundial. Exige um esforço tecnológico maior para que se tenha a possibilidade de lançar um projétil à longa distância, explodí-lo sobre um determinado alvo, sobretudo fazer com que calor produzido pela detonação não afete a viabilidade dos microorganismos que a bomba carrega em seu interior e, por último, que seja produzida uma nuvem de gotículas com os agentes biológicos que irá contaminar seres humanos, animais ou plantas.

Ser: A dispersão dos agentes é praticamente invisível e de difícil percepção. Já dispomos de tecnologia capaz de detectar o uso destas armas em tempo de evitar maiores estragos?

Roque: Para a detecção de agentes químicos, certas tecnologias modernas permitem o lançamento de um feixe de laser em uma nuvem suspeita e imediatamente se tem informações sobre a composição química dessa nuvem. Em relação aos agentes biológicos isso não existe, a detecção é uma questão de tempo, e a identificação precisa do microorganismo pode demorar muito. É preciso recolher amostras em meios de cultura adequados, levar para o laboratório e esperar que os microorganismos se reproduzam para poder identificá-lo. Geralmente, a detecção ocorre quando já apareceram pessoas doentes. Existem pesquisas para o desenvolvimento de bio-sensores, capazes de identificar mais rapidamente a presença de terminados agentes no ar, na terra ou em alimentos, mas ainda não estão disponíveis para uso. De todos os tipos de armas de destruição maciça - a nuclear, a química e a biológica - a biológica é de mais difícil detecção prévia e rápida.

Osmar Bustos

 

Roque Monteleone


Roque Monteleone: Terceiro Mundo pode ser
utilizado como fornecedor de agentes biológicos

Ser: O que diferencia arma biológica das demais?

Roque: A arma biológica e de certo modo a arma química preservam os prédios, ruas, veículos, enfim a infra-estrutura física. É um fator importante conseguir preservar as instalações, documentos, etc em uma guerra. No entanto, aquilo que caracteriza a arma biológica é que, dependendo das condições e do agente utilizado, a sua transmissão também se faz de indivíduo para indivíduo, como em uma epidemia, o que aumenta muito o seu efeito devastador.

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Diferente da nuclear,
a arma biológica
preserva prédios e
documentos

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Ser: Qual é o seu potencial de destruição, comparado com as químicas e as nucleares? O que significa uma tonelada de bacilo do carbúnculo (Bacillus anthracis) em termos de destruição de vida?

Roque: A grosso modo uma tonelada de bacilo do carbúnculo equivale a três bombas de Hiroshima. Essa estimativa foi feita por peritos da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 1970.

Ser: Explodir um centro produtor, um foco de armas biológicas, poderia difundir em vez de destruir o agente?

Roque: Normalmente, faz-se um tratamento químico antes ou uma autoclavagem, como é feito nos hospitais e nos locais onde se trata de pessoas com infecções graves. No Iraque, durante a destruição de algumas instalações, foram utilizados estes dois métodos, principalmente o de inativação química, que mata as bactérias.

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Uma tonelada de bacilo
do carbúnculo
significa três bombas
de Hiroshima

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Ser: Quais países desenvolvem atualmente armas biológicas?

Roque: É um grande segredo porque, desde 1925, o uso de armas biológicas em conflitos está proibido internacionalmente. Este acordo proíbe somente o uso em conflitos armados, mas não o desenvolvimento, a produção e a sua estocagem. É claro que a sua eficácia é discutível. Entretanto, em 1972, passou a vigorar outro tratado, o de proibição do desenvolvimento, produção, estocagem e meios de dispersão de agentes biológicos em conflitos armados. Alguns países não assinaram, mas a grande maioria assinou e, portanto, está sob esse compromisso. Até hoje dois países são suspeitos de terem violado esse tratado: a Rússia e o Iraque. Em 1992 a Rússia admitiu que uma epidemia de carbúnculo, em 1979, deveu-se a um acidente ocorrido em uma instalação militar de pesquisa biológica. Nesse caso, não houve comprovação de que as atividades desenvolvidas nessa unidade militar eram ofensivas, o que sim é proibido pela Convenção. No caso do Iraque é diferente, pois o programa ofensivo de armas biológicas foi admitido, em 1995, à Comissão Especial das Nações Unidas (Unscom). Tanto o Iraque como a Rússia são signatários dessa Convenção. Existe uma série de países suspeitos de possuírem armas biológicas, ou de desenvolverem programas para tal fim, porém isto é mais complicado de se avaliar. O país que faz a suspeita pode ter interesses políticos na denúncia e, em geral, a comprovação não é feita por um organismo independente, ou através das Nações Unidas.

Ser: Considerando a ameaça da arma biológica o que deve ser feito enfrentá-la ou combatê-la?

Roque: A prevenção ou proibição deve ser uma iniciativa do conjunto das nações. Ainda não existe um mecanismo de verificação do cumprimento do tratado de proibição já em vigor, como existe na área nuclear e química. Isto está sendo negociado em Genebra desde 1991. Estive em algumas dessas discussões e existem progressos, mas de forma muito lenta. Das três armas consideradas de destruição maciça, a biológica está sendo a última a ter esses mecanismos de verificação de cumprimento das proibições já estabelecidas em 1972. Esses mecanismos de verificação devem ser muito bem estabelecidos para, ao mesmo tempo, garantir o disposto nas proibições e não causar transtornos que inviabilizem as atividades pacíficas na área biológica. Por exemplo, um local que produz vacinas tem os mesmos equipamentos que os de uma instalação para a produção de armas biológicas e evidentemente não se deve proibir a fabricação de vacinas. Por outro lado, é muito importante ressaltar que nenhum programa biológico até hoje foi desenvolvido sem a participação de membros da comunidade científica. Portanto, a meu ver, a conscientização da comunidade científica, particularmente da comunidade médica, é fundamental para que estas proibições sejam efetivas.

UNSCOM

 

Agente biológico pode ser lançado por míssil ou bomba aérea.


Agente biológico pode ser lançado por míssil ou bomba aérea. 

Ser: Mesmo que o acordo funcione, existe outro agravante com relação a essas armas. Na Rússia, o governo perdeu o controle de algumas armas nucleares que foram parar nas mão de grupos terroristas.

Roque: Acho que o exemplo mais significante foi o do ataque terrorista com o gás sarin no metrô de Tóquio, realizado por membros da seita religiosa "A Verdade Suprema". As investigações posteriores foram surpreendentes e aterrorizantes. Primeiro, eles conseguiram produzir o sarin que depende de tecnologia sofisticada. Segundo, eles tinham laboratórios e profissionais altamente capacitados (médicos, biólogos, geneticistas, microbiologistas, químicos, etc) que desenvolveram armas químicas e biológicas. Antes do atentado com sarin, eles tinham feito duas tentativas com armas biológicas. E, finalmente, a seita era tão poderosa economicamente que as ações de seus negócios chegaram a ser comercializadas na Bolsa de Valores de Tóquio como um dos papéis mais lucrativos !!! A esperança é que esta irracionalidade seja uma das características do milênio que está terminando e não a tônica do novo que se aproxima...

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Não existem mecanismos
de verificação das
proibições para armas biológicas

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Ser: Nesse sentido, o que deve ser feito para coibir o uso terrorista?

Roque: Esse é um problema muito complexo, mas que depende basicamente do estabelecimento de legislações nacionais severas e de um esforço internacional no sentido da vigilância em torno das chamadas tecnologias de uso duplo. No meio acadêmico e mesmo jornalístico, existe uma grande carência de informação em relação às possibilidades de utilização do conhecimento com finalidades bélicas ou terrorista. Por exemplo, houve o atentado no metrô de Tóquio, que foi amplamente divulgado, mas os resultados das investigações posteriores não mereceram o mesmo destaque, portanto não são do conhecimento público. O que ficou para opinião pública é que tudo foi obra de meia dúzia de fanáticos, quando absolutamente não foi isso o que ocorreu. Essa seita tinha mais de dez mil adeptos no Japão e muito mais na Rússia. O recrutamento de novos adeptos era preferencialmente feito entre os jovens recém-formados nas melhores universidades do Japão e entre profissionais e cientistas qualificados. Seus laboratórios de química e biologia eram mais sofisticados que os de muitas universidades e institutos de pesquisa. Eles tinham até um hospital para velhos com doenças terminais, com a finalidade de oferecer tratamentos milagrosos pagos com os bens dos pacientes!

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Nenhum programa de armas biológicas
foi desenvolvido
sem a participação
de membros da comunidade
científica

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Esses e outros fatos deveriam ser intensamente debatidos pela sociedade e essas discussões fazerem parte dos cursos acadêmicos. A opinião pública deveria ser adequadamente alertada, para que se forme uma consciência ética sobre o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico. Como a que se formou em relação às armas nucleares, pois hoje é muito difícil que um país utilize a arma nuclear pela enorme pressão da opinião da pública. Causa horror, é um crime contra humanidade. Esta mesma consciência deveria se desenvolver em relação a todas as armas de destruição maciça, particularmente a biológica. 

UNSCOM

 

Peritos da ONU à procura de armas biológicas no Iraque


Peritos da ONU à procura de armas biológicas no Iraque 

Ser: Mas como regulamentar sem coibir se certas atividades biológicas tem uma utilização dúbia, entre a pacífica e a bélica?

Roque: Deve-se difundir ao máximo para a opinião pública os esforços que estão sendo feitos em nível internacional. Essas informações tem que integrar o conhecimento rotineiro da comunidade científica. Além disso, considerando que grupos terroristas possam estar interessados nesse tipo de arma, deve-se evitar que países como o nosso - subdesenvolvidos ou em desenvolvimento - sejam utilizados como fornecedores de agentes biológicos para que outros desenvolvam armas. Por exemplo, aquela seita japonesa mandou técnicos da área biomédica para o Zaire, durante a epidemia do vírus Ebola, aparentemente com propósitos humanitários, mas para que na verdade entrassem em contato com as vítimas, colhessem amostras de sangue, de tecido e levassem para o Japão para desenvolverem o vírus Ebola como uma arma biológica. Todos os países em desenvolvimento deveriam estar preocupados com a proteção da sua biodiversidade e para que as ocorrências naturais de moléstias infecciosas não sejam utilizadas por terceiros com essas finalidades.

Ser: Na hipótese de um ataque biológico, tem algum país mais preparado que outros para enfrentar este tipo de situação?

Roque: Depois do que ocorreu no metrô de Tóquio muitos países começaram a se preocupar, principalmente com a possibilidade de ataques terroristas. Os Estados Unidos, no ano passado, começou a estabelecer um plano detalhado para detecção rápida de um determinados agentes biológicos na eventualidade de um ataque. O programa está sendo desenvolvido na rede de saúde pública, nas unidades básicas de saúde, nos municípios., até chegar a laboratórios e centros mais sofisticados. Na Suécia, já há alguns anos todos os cidadãos possuem máscaras protetoras contra gazes tóxicos.

UNSCOM

 

Mulher mostra à  criança como colocar a máscara


Equipe da Unscom rastreia o solo do Iraque em busca de armas 

Ser: Mas na área de produção de medicamentos, já se está produzindo algum antídoto?

Roque: Isto representa mais um problema, pois não existe uma vacina ou antídoto universal, ao contrário eles são específicos para uma doença. Há uma vacina para o carbúnculo, que só existe no meio militar e não tem uso civil. É uma vacina que dá muitas reações, de proteção limitada e são necessárias várias doses. Basicamente, as pessoas expostas à armas biológicas recebem tratamento para moléstias infecciosas graves. No entanto, como é difícil prever o tipo de agente biológico que irá ser utilizado em um possível ataque, o caminho mais adequado é o da proibição e do banimento desse tipo de arma, através de acordos de proibição que sejam efetivos e da conscientização da opinião pública.

Ser: Soldados americanos que serviram na Guerra do Golfo , estão sendo acometidos por algumas doenças como gastrites, infecções cutâneas. Eles foram expostos a armas químicas sem o devido cuidado?

Roque: Ainda não se sabe ao certo o que é essa chamada "Síndrome da Guerra do Golfo". Pelo que vi nos últimos informes, esta sintomatologia estaria ligada ao coquetel de vacinas que os soldados americanos tomaram, mas isso ainda não está definitivamente comprovado. Quadrado

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Roque Monteleone Neto é médico geneticista, livre-docente pela USP e professor adjunto do Departamento de Informática em Saúde da Unifesp/EPM. Assessor técnico da delegação brasileira junto à Convenção sobre a Proibição de Armas Biológicas desde 1991, perito da Comissão Especial das Nações Unidas (UNSCOM) de 1994 a 1998 e participante das inspeções da ONU no Iraque. Membro do Conselho da Comissão das Nações Unidas para o Monitoramento, Verificação e Inspeção do Iraque (UNMOVIC) desde 2000. Atualmente é diretor do Departamento de Assuntos Nucleares e de Bens Sensíveis do Ministério da Ciência e Tecnologia

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Comentários e sugestões: Daniel Sigulem

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