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MEDICINA BASEADA EM CIÊNCIA, FISIOPATOLOGIA,
EXPERIÊNCIA, COMPETÊNCIA ETC. E EVIDÊNCIAS OU MEDICINA BASEADA NAS MELHORES EVIDÊNCIAS
DE EFETIVIDADE, EFICIÊNCIA E SEGURANÇA PARA AS CONDUTAS MÉDICAS
(Texto extraído da Revista Diagnóstico & Tratamento
- Vol. 9 - edição 4 - Out/Nov/Dez 2004 - Pag. 173/174)
Em
1910, quando Abraham Flexner avaliou as
escolas médicas norte-americanas, já havia um grande
volume de conhecimentos médicos acumulados, como anatomia, fisiologia humana,
incluindo o ciclo cardíaco descrito por William
Harwey, os microrganismos etc. Flexner sugeriu, dentre as escolas médicas na época os cursos duravam cerca de seis semanas , que aquelas que não tivessem condições de
ensinar ciências básicas e fisiopatologia
deveriam ser fechadas e que as boas escolas
fossem financeiramente apoiadas pelo governo
americano. Isso provocou uma revolução no ensino médico. Iniciou-se então a era da fisiopatologia
e da lógica nas condutas médicas, ou seja, a
integração dos conhecimentos epidemiológicos, clínicos e experimentais gerando hipóteses lógicas para o diagnóstico, a terapêutica e a prevenção de doenças. Após
algumas décadas, começou-se a verificar que nem sempre a teoria fisiopatológica se
comprovava com os resultados de ensaios clínicos e
com os resultados práticos. Anchibald Cochrane, Richard Doll, Kerr White e
outros passaram a aplicar os métodos da epidemiologia a situações clínicas dando
inicio à Epidemiologia Clínica, que, dentre seus princípios, requer suporte dos resultados dos ensaios clínicos para tomadas de decisão em medicina.
Iniciou-se,
então, a partir da década de 70, a era da fisiopatologia e da pesquisa clínica aplicada
que redundou no período atual que entendemos ser o da
fisiopatologia associada à medicina baseada em evidências. Ou seja, o conjunto de conhecimentos integrados
(fisiopatologia) cria uma hipótese, que deve ser
submetida ao crivo dos estudos controlados randomizados para então gerar respostas, que
darão suporte a
prática da medicina baseada em evidências.
De
forma que não há nenhum antagonismo entre
fisiopatologia e medicina baseada em evidências, os dois conjuntos de pensamentos
se estimulam e se complementam. Quando a hipótese
fisiopatológica não é confirmada pêlos
ensaios clínicos (e revisões sistemáticas),
muda-se a hipótese gerada pela fisiopatologia, criam-se novas perguntas e,
posteriormente, novos ensaios clínicos. Assim, entendo, estamos na era da lógica
(fisiopatologia) e das evidências, interligadas por
uma magnífica ferramenta chamada ensaio clínico randomizado.
Outra
expectativa errada sobre a medicina baseada
em evidências é de que ela ignora a experiência clínica.
Nada mais incorreto. Medicina baseada em evidências é para quem já sabe medicina! Ou
seja, após se ter feito uma boa anamnese, um exame
físico competente, o diagnóstico diferencial
amplo e o diagnóstico correto, busca-se
então a melhor evidência para tomada de
decisão que possibilitará maiores chances de
efetividade, eficiência e segurança. Para tal é preciso ter uma visão muito
ampla e multidisciplinar da prática médica. Para obtenção de efetividade são necessários prática, boa relação médico-paciente,
visão antropológica do comportamento humano,
psicologia, humanismo,
conhecimentos de economia médica etc. Ou
seja, requer que se vá além do diagnóstico correto. Aliás,
o professor Jairo Ramos dizia que a prescrição igualava os médicos. Pois, ao
prescreverem a mesma coisa, os resultados seriam os mesmos! Isso era mais válido
naquela época, em que a quantidade de conhecimentos era bem mais limitada. Hoje sabemos
que na prescrição há de se incluir evidências essenciais sobre efetividade,
eficiência, segurança e levar-se em conta o
direito de escolha do paciente adequadamente informado
e as possibilidades de se atingirem os desfechos clinicamente
relevantes, como, por exemplo, sobrevida e qualidade
de vida em 10 ou 20 anos. O médico precisa estar
educado e motivado para isso.
Sabia-se
que a digitoxina melhorava o caso do paciente.
Presumia-se que aumentava a sobrevida. Hoje sabe-se
que a digitoxina reduz morbidade, mas não reduz
mortalidade. Por outro lado, há evidências de
que betabloqueadores, bloqueadores da enzima de conversão
da angiotensina e espironolactona aumentam a
sobrevida do paciente com insuficiência cardíaca.1"5 Ou seja, a ciência norteia a experiência e clareia a inteligência médica. Se a prescrição igualava os médicos,
hoje o conhecimento científico adequado os diferencia. E os diferenciará cada vez mais. Melhor não perder o bonde
da história. A história dos ensaios clínicos na medicina
iniciou-se com Lind, no tratamento do escorbuto
em 1753.6'7 Ele fez esse primeiro estudo após revisar
sistematicamente o tratamento do escorbuto na época,
que incluía, entre outras informações, colocar
o paciente em um buraco e cobri-lo até o pescoço com uma espécie de gosma, não se sabe do que, pois a
patente era registrada! Lind criou, então, as revisões sistemáticas e os ensaios
clínicos que já são as bases estratégicas da
medicina deste século. As alternativas são conhecer bem esses assuntos ou
agarrar-se a um atraso científico que já completou 251 anos.
Álvaro Nagib Atallah. Professor titular,
chefe da Disciplina de Medicina de Urgência da Universidade Federal de São Paulo/Escola
Paulista de Medicina. Diretor do Centro Cochrane do Brasil. E-mail: atallahmbe@uol.com.br
Referências:
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Informações:
Endereço
para correspondência: Centro Cochrane
Rua Pedro de Toledo, 598 Vila Clementino São Paulo/SP CEP 04039-001
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