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Pesquisa da Unifesp investigou mais de 900 crianças em idade pré-escolar

Publicado em RELEASES

Pesquisa revela o que os pequenos comem entre o intervalo das principais refeições; frutas participam de 98,8% das composições dos lanches. No entanto, o consumo de açúcar ainda preocupa

Daniel Patini

Uma montagem com vários círculos coloridos e frutas

Um estudo realizado de forma conjunta entre professores e pós-graduandos do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP), do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi (Hospital Infantil Sabará) e do curso de Nutrição da Universidade São Judas Tadeu, com o apoio da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), descreveu os hábitos alimentares de crianças em idade pré-escolar em relação ao consumo dos lanches intermediários, que são aqueles feitos entre as principais refeições.

No estudo identificaram-se os principais grupos alimentares que entram nos lanches intermediários e modelizou-se o plano alimentar desta refeição intermediária, baseado na frequência dos mais encontrados, e montaram-se cardápios típicos para as regiões brasileiras e níveis socioeconômicos.

Foram analisadas as respostas dos pais ou responsáveis de 1.391 crianças, com idade entre 4 e 6 anos, de todas as regiões do Brasil. Uma segunda fase está em publicação com os dados referentes à faixa etária de 7 a 11 anos. No projeto identificou-se que lanche intermediário foi consumido por 98,20% das crianças brasileiras, sendo compostos, em média, por três grupos de alimentos: frutas, biscoitos e iogurtes. O lanche da tarde, no geral, foi mais frequente (96,69%) que o lanche da manhã (71,17%). 

Além disso, foi constatado também que o valor calórico desses lanches estava de acordo com o preconizado (entre 180 e 270 kcal). Entretanto, o lanche da manhã da região Centro-Oeste e o lanche da tarde da região Sudeste se mostraram abaixo da recomendação, com 146 kcal e 168 kcal, respectivamente. A média calórica dos lanches intermediários do Brasil, considerando nível socioeconômico e gênero, variou de 190 a 250 kcal.

“Porém, o lanche da tarde mostrou-se mais calórico e com consumo mais frequente de alimentos variados com baixo valor nutricional e com alto teor de açúcares de adição, como balas, sorvetes e chocolates”, revela o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, que é professor associado do Setor de Medicina do Adolescente da EPM/Unifesp e um dos coordenadores do estudo. O consumo de açúcar de adição, somadas as quantidades de açúcares do lanche da manhã e da tarde, no geral, aproximou-se do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a dieta de uma criança de 4 a 6 anos: 22,5 gramas por dia.

Na Região Centro-Oeste, por exemplo, os lanches atingiram sozinhos esse limite, apresentando um consumo de 29,6 gramas/dia (131,5% do limite). Somente o lanche da tarde (21,4 g) contribui com quase a totalidade da recomendação para o dia. Tal contribuição é explicada pela composição do lanche da tarde dessa região, formado pelos alimentos consumidos com maior frequência pelas crianças: biscoito doce com recheio, banana e suco de frutas industrializado. 

Já a ingestão de frutas em geral esteve presente em 98,8% das composições de lanches estudadas, que pode ser entendida como uma tendência de melhoria da educação nutricional no Brasil. O leite e bebidas à base de leite estiveram presentes em quase 10% das composições de lanches e o suco compôs 8,3% dos lanches intermediários estudados. O refrigerante apresentou frequência de ingestão próximo a 5% no lanche da tarde das crianças. 

“A composição dos lanches intermediários é de suma importância, uma vez que são oportunidades para o preenchimento das necessidades nutricionais das crianças desta faixa etária, que precisam de aporte nutricional adequado por estarem em período de crescimento e desenvolvimento”, explica o professor.

O lanche ideal

Segundo o Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), durante a idade pré-escolar, é recomendado que sejam realizadas as refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) com três lanches intermediários entre elas: lanches da manhã, tarde e noite, em horários regulares e com intervalos entre 2 e 3 horas, suficientes para que a criança sinta fome na próxima refeição. 

Equipe de pesquisadores, estão sentados lado a lado em um sofá

Mauro Fisberg, Ana Del'Arco, Agatha Previdelli e Carlos Nogueira-de-Almeida

Da mesma forma que nas refeições principais, eles devem incluir grupos de alimentos que forneçam macronutrientes – carboidratos, lipídios e proteínas –, fibras e também micronutrientes - vitaminas e minerais. Recomenda-se também que as crianças sejam constantemente hidratadas. “Na elaboração dos lanches, a presença de alimentos in natura é muito importante, além de produtos que sejam práticos para a realização desta refeição”, ressalta Fisberg.

De acordo com as recomendações dietéticas do Manual do Lanche Saudável da SBP, o lanche intermediário para ser considerado saudável deve ser composto por uma fruta, um tipo de carboidrato e um alimento fonte de proteína, quase sempre láctea. Se houver possibilidade de oferta, a bebida deveria ser a água. Se houver oferta de sucos, que sejam não adoçados. 

Para o médico, os lanches devem ser planejados e preparados pela família ou pela escola, no intuito de agregar valor nutricional ao mesmo, preenchendo as recomendações nutricionais, diferenciando assim o lanche daquele momento de consumir alimentos de forma irregular ou ocasional, denominado como “beliscar”.

Lanche da manhã e da tarde

As composições verificadas nos lanches da manhã das crianças brasileiras foram caracterizadas, em geral, pelos mesmos grupos alimentares: frutas em geral (40,34%), biscoitos em geral (33,28%) e iogurtes em geral (22,34%), entre outros. Vale destacar que cerca de 6% das crianças brasileiras consumiram balas e/ou pirulitos no lanche da manhã. 

Especificamente dentro do grupo dos biscoitos, o tipo doce foi consumido com maior frequência, sendo o biscoito doce sem recheio o mais frequente para o Brasil total entre os meninos e para os níveis socioeconômicos A, B e C; já para as meninas e entre as crianças dos níveis D e E, o biscoito doce com recheio foi o consumido com maior frequência, 13,60% e 14,83% respectivamente. 

Em relação ao lanche da tarde, o estudo verificou que o grupo de alimento mais frequente foi o dos biscoitos em geral (79,44%), seguido pelas frutas em geral (58,10%) e pelos iogurtes em geral (41,33%). Tal composição de lanche da tarde difere apenas para o nível socioeconômico C, no qual o grupo do leite e bebidas à base de leite foi o terceiro grupo consumido com maior frequência. 

O consumo de alimentos com alto teor de açúcares de adição (como balas, sorvetes e chocolates) aparece com frequência superior a 5% no momento de consumo do lanche da tarde para todos os níveis socioeconômicos e entre as meninas e os meninos. A frequência de consumo destes grupos entre as crianças brasileiras foi de 20,49% para o grupo das balas e/ou pirulitos, 17,76% para o grupo dos sorvetes e sobremesas lácteas e de 16,75% para o grupo dos chocolates.

Macro e micronutrientes

Em relação aos macronutrientes, o consumo médio de proteínas em todas as regiões do país foi de 5 gramas em cada lanche. O consumo de gordura total foi maior na região Norte e Nordeste (consideradas em conjunto pelo trabalho), com pico de 8,6 gramas para o lanche da manhã, seguido por 8,3 gramas no lanche da manhã da região Sudeste e 7,6 gramas no lanche da manhã da região Sul. Já o consumo de gordura das meninas (média de 6,8 g) foi maior quando comparado ao consumo dos meninos (média de 6,45 g). 

O carboidrato foi ingerido na quantidade média de 31,9 g no lanche da manhã e de 36,7 g no lanche da tarde no geral, sendo sempre maior o consumo no lanche da tarde. Em média, as meninas (35,05 g) consumiram mais carboidrato que os meninos nos lanches (33,50 g). 

Quanto aos minerais, verificou-se que o consumo de cálcio foi de 120 mg no lanche da manhã e de 125 mg no lanche da tarde, quando avaliados os lanches das crianças na amostra total. Os maiores consumos de cálcio foram verificados no lanche da manhã da região Sudeste, com 186 mg, e da região Sul, com 163 mg. “O grupo dos iogurtes em geral e o grupo do leite e das bebidas à base de leite esteve presente em 93% das composições, o que explica o consumo de cálcio reportado”, esclarece Fisberg.

O lanche da tarde foi o que mais contribuiu com a ingestão de ferro para todas as regiões. No geral, o consumo de ferro foi de 1,82 mg no lanche da manhã e de 2,15 mg no lanche da tarde. Já a ingestão de sódio foi de 457 mg quando somadas as quantidades médias dos lanches intermediários das composições de lanches do Brasil.

A soma da quantidade de vitamina C nos lanches da manhã e da tarde atingiu a recomendação de 30 mg dessa vitamina estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nos níveis socioeconômicos, em ambos os sexos e na maioria das regiões, exceto nas regiões Norte e Nordeste (11 mg) e na região Sul (10 mg).

Padrões alimentares

Uma alimentação balanceada requer rotinas alimentares diárias bem definidas, pois não só a qualidade e a quantidade da alimentação oferecida à criança são importantes, mas também os horários das refeições; não sendo diferente para os lanches intermediários. “A falta de disciplina e controle familiar costuma ser a maior causa de dificuldades alimentares”, lembra Fisberg.

Ela ressalta ainda que os pais são responsáveis pelas escolhas e pela formação dos hábitos alimentares das crianças, uma vez que são eles quem disponibilizam os alimentos, saudáveis ou pouco saudáveis, que serão consumidos por elas.

A população infantil é, do ponto de vista psicológico, socioeconômico e cultural, influenciada pelo ambiente onde vive, preferindo os alimentos facilmente disponíveis e habitualmente servidos em casa. “Além da família, o ambiente escolar também é responsável pela formação e manutenção dos hábitos alimentares das crianças”, explica o pesquisador.

A mudança dos padrões de comportamento ajudaria a explicar o contínuo aumento da adiposidade nas crianças, por haver redução da atividade física e no consumo de frutas, hortaliças e leite e aumento na ingestão de bolachas recheadas, salgadinhos, doces e refrigerantes, como constatado nos lanches intermediários, além da omissão de refeições, principalmente o café da manhã.

“O comportamento alimentar de risco está ficando precoce e doenças de adultos hoje também são pediátricas”, analisa o médico. “Hipertensão arterial e resistência à insulina, por exemplo, são observadas atualmente em idades cada vez mais precoces”, finaliza.

Gráfico Consumo de açúcar nos lanches intermediários de crianças no Brasil. Consumo médio de açúcar de adição (gramas) do Brasil, segundo macrorregiões, níveis socioeconômicos e gênero, no lanche da tarde, para a faixa etária de 4 a 6 anos.

Artigo relacionado:
FISBERG, Mauro; DEL’ARCO, Ana Paula Wolf Tasca; PREVIDELLI, Agatha; TOSATTI, Abykeyla Mellisse; NOGUEIRA-DE-ALMEIDA, Carlos Alberto. Hábito alimentar nos lanches intermediários de crianças pré-escolares brasileiras: estudo em amostra nacional representativa. International Journal of Nutrology, v. 8, n. 4, p. 58-71, set/dez. 2015. Disponível em:< http://www.abran.org.br/RevistaE/index.php/IJNutrology/article/view/191/181 >. Acesso em: 13 abr. 2016.

Publicado em Edição 06

Dificuldades escolares, problemas nas relações familiares e sociais são reflexos da doença, que acomete entre 3,76 e 17,1% das crianças no Brasil; com tratamento apropriado é possível reverter o quadro

Mariane Santos

Desenho de uma menina triste, ela tem sinais de dor na área da cabeça

A queixa de dificuldades escolares é comum em crianças com enxaqueca. Uma pesquisa realizada pelo Setor de Investigação e Tratamento das Cefaleias (SITC), da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, constatou que crianças que nunca fizeram o tratamento da doença apresentaram déficit de atenção seletiva e alternada, além de expressarem altos níveis de impulsividade durante os testes realizados.

Presente na vida de muitas crianças brasileiras, entre 3,76% e 17,1%, a patologia prejudica as atividades cotidianas dos menores, incluindo o desempenho das tarefas escolares, as relações familiares e sociais. Thais Rodrigues Villa, neurologista chefe do SITC e autora do estudo, explica que as pesquisas sobre a relação entre a atenção visual das crianças e a incidência de enxaqueca foram motivadas pela crescente demanda registrada pelo setor.

Os pesquisadores do SITC decidiram estudar a atenção visual de crianças recém-diagnosticadas e em tratamento preventivo da enxaqueca e compará-las a um grupo controle saudável. Foram analisadas 82 crianças de 8 a 12 anos de idade, divididas em três grupos: 30 crianças com enxaqueca sem tratamento, 22 crianças em tratamento e 30 crianças controle saudáveis.

Os 30 participantes do grupo sem tratamento haviam sido recém-admitidos no Ambulatório de Cefaleias na Infância do SITC. As crianças apresentaram uma média de cinco dias de dor de cabeça por mês, sem uso prévio de qualquer tratamento preventivo para enxaqueca.

Já os participantes do grupo que estava realizando tratamento preventivo da doença eram pacientes regulares do ambulatório, com média de 6 dias de dor de cabeça por mês antes da intervenção, que teve início de 4 a 6 meses antes da avaliação. Ela foi realizada com medicações indicadas para prevenção das crises de enxaqueca, que foram tomadas diariamente. As crianças em tratamento tinham que estar livres de dor e sintomas de enxaqueca nos dois meses anteriores à avaliação.

Já o grupo formado por crianças sem dor de cabeça foi selecionado por meio de questionários preenchidos pelos pais em duas escolas públicas de São Paulo.

Metodologia 

A médica Thais rodrigues villa está sentada atrás de uma mesa, à sua frente estão uma adolescente e sua mãe

Thais Rodrigues Villa durante o atendimento à paciente em tratamento de enxaqueca

A análise das crianças foi realizada entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2012. Elas estavam livres de dor e sintomas de enxaqueca nos três dias que antecederam à verificação e foram submetidas a avaliações médicas e neuropsicológicas (veja box na página anterior). 

Os critérios de exclusão estabelecidos foram: qualquer outra doença sistêmica concomitante; anormalidades reveladas no exame neurológico; QI (quociente de inteligência) inferior a 80; distúrbios psiquiátricos; dificuldades de aprendizagem; histórico de epilepsia; traumatismo craniano ou uso de drogas que atuam sobre o sistema nervoso central, incluindo o consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas; utilização anterior de profilaxia de enxaqueca (no grupo de enxaqueca não tratada); e histórico de episódios de dor de cabeça primária (no grupo controle). 

Todos os participantes foram avaliados pela Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC-III), realizado por psicólogos do setor. O teste é um instrumento clínico, de análise individual, que mede a capacidade intelectual de crianças e adolescentes.

Desenho de uma menina, ela está feliz e segura balões coloridos

Menos impulsividade e mais atenção

As crianças com enxaqueca sem tratamento tiveram um desempenho significativamente pior em testes de atenção visual (Trail Makink Test A and B e Test of Visual Attention 3rd Edition – veja o box) em comparação com o grupo controle e o grupo de crianças submetidas ao tratamento preventivo da doença. Já o desempenho em tarefas de atenção foi dentro da normalidade em todos os grupos. Os participantes que nunca trataram a doença apresentaram déficits de atenção seletiva e alternada.

Durante os testes de atenção, crianças com enxaqueca apresentaram altos níveis de impulsividade. Já aquelas em tratamento apresentaram níveis inferiores de impulsividade e ansiedade e o desempenho de atenção semelhantes ao grupo controle saudável, destacando o benefício e eficácia para as crianças.

Em comparação com crianças que não receberam nenhum tratamento, as crianças que receberam melhoraram seu desempenho escolar e receberam menos queixas de pais e professores sobre déficits de atenção.

“É necessário investigar o déficit de atenção em crianças com enxaqueca e procurar ajuda especializada para o tratamento preventivo da dor de cabeça, quando este for indicado. Com um tratamento eficaz, é possível que o equilíbrio cerebral seja restabelecido e observamos melhora dos sintomas da enxaqueca e, consequentemente, dos déficits de atenção associados à doença”, conclui Thais.

 

Testes neuropsicológicos complementares do estudo

Trail Making Test A and B: A - explora a atenção visual, flexibilidade mental, varredura visual e velocidade psicomotora por meio da conexão de números espalhados em uma folha de papel com uma sequência ascendente de um a 15. B – explora a atenção alternada também por meio de uma sequência ascendente de oito números e oito letras alternadas. O desafio é, em ambas as tarefas, executá-las no menor tempo possível e sem erros. A execução em segundos é a principal variável analisada.

Letter Cancellation Test: avalia a atenção seletiva e sustentada em que o sujeito tem que marcar todas as letras A, juntamente com outras letras aleatórias, em uma folha de papel, em um curto período de tempo e com o mínimo possível de erros. Nessa avaliação foram analisados o tempo de execução em segundos e a quantidade de letras omitidas.

Test of Visual Attention 3rd Edition: é um teste computadorizado que consiste em avaliar três tarefas: 1) atenção seletiva; 2) atenção alternada; 3) atenção sustentada. Nele, o avaliado utiliza um joystick (espécie de controle, semelhante ao de um computador ou videogame), para responder ao que o teste solicita. Nesse foram avaliados o tempo de reação (tempo necessário para empurrar o botão do controle em resposta a cada estímulo), a falta de resposta ao estímulo selecionado e o número de erros de ação (a resposta a um estímulo não selecionado).

Artigo relacionado:
VILLA, Thaís R. ; Agessi, Larissa M.; MOUTRAN, Andréa R. C.; GABBAI, Alberto A.; CARVALHO, Deusvenir S. Visual Attention in Children With Migraine: The Importance of Prophylaxis. Journal of Child Neurology, 31 ago. 2015. Disponível em: < http://m.jcn.sagepub.com/content/early/2015/08/27/0883073815601498.full.pdf >. Acesso em: 15 dez. 2015.

Publicado em Edição 06