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Quinta, 30 Março 2017 15:43

Apresentação do Projeto Pauliceia 2.0

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Professor titular da Unicamp doou seu acervo bibliográfico e documental à instituição 

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Quarta, 07 Dezembro 2016 14:05

A base, as versões e a história

Arte com a Base Nacional Comum

Arte elaborada a partir de sobreposição de páginas do arquivo digital da 2ª edição do BNCC, disponível em <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documentos/bncc-2versao.revista.pdf >

Fotografia de Elaine Lourenço

Elaine Lourenço
Docente e coordenadora do curso de licenciatura em História do Departamento de História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos

O mundo moderno tem na escola uma instituição de aceitação unânime. A consagração da “forma escolar” como meio de socialização preferencial segue até hoje, e isso pode ser visto a cada eleição, quando os candidatos sempre recolocam a educação como prioridade. O mesmo não se pode dizer, entretanto, dos currículos. O que, quando, para quem ensinar é objeto de acirradas disputas, uma vez que ao currículo prescrito caberia a função de “moldar” os futuros cidadãos. Qualquer estudioso das teorias e práticas curriculares sabe que isso não é verdade: entre o previsto e o realizado há uma grande distância, em cujo percurso, inclusive, outras finalidades são atingidas. Ainda assim, considerando que as prescrições sinalizam o que se torna hegemônico em dado momento, tais documentos ganham relevância pelos caminhos que indicam e pelos que ocultam, ou buscam ocultar.

O debate sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) precisa ser interpretado sob essa chave: certamente não é o primeiro momento em que ele sai do campo dos legisladores educacionais e alcança a sociedade, bem como não é algo que possa ser simplificado na questão sobre “o que” ensinar. Em torno dele se revelam tanto posições quanto projetos sociais e, portanto, políticos, os quais importa conhecer antes que se transformem em “letra da lei”.

Significativo em relação ao tema é que a busca pela expressão “base nacional comum” no Google resulte, em primeiro lugar, no “anúncio” do Movimento pela Base Nacional Curricular Comum, patrocinado pela Fundação Lemann, que promete: “A Base Nacional Comum – Pense na educação que você quer. Agora vem com a gente realizar.” O que parece ser a concretização de um sonho é uma promessa inalcançável, que busca esconder que só é possível criar uma educação única sob regimes ditatoriais, ainda que a contestação sempre se faça presente.

O surgimento da primeira versão da BNCC para debate, em fins de 2015, já se fez em meio a críticas. É possível identificar duas modalidades nesse debate, ambas complementares: uma questiona sua necessidade, outra questiona os conteúdos apresentados e sugere modificações. Sob este último aspecto, a própria “consulta pública” aberta no site do MEC apresenta números impressionantes: foram 12.226.510 de contribuições feitas à primeira versão do documento.

Uma das principais vozes que articulam o movimento de resistência à base curricular é a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), a qual contesta sua pertinência e a forma apressada como foi apresentada ao debate. Uma das professoras envolvidas na discussão, Inês Barbosa de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Currículo, participou de uma mesa sobre o tema na Unifesp em 18 de novembro de 2015, ocasião em que apresentou alguns dos argumentos do grupo, como a crítica à elaboração de uma base nacional, quando estão em vigor as Diretrizes Curriculares Nacionais; o problema da unificação nacional do currículo justamente no momento em que se ressalta a importância da diversidade; e a forma como a criação do documento favorece avaliações padronizadas, que controlam e dirigem o sistema de ensino a partir dos órgãos centrais.

Tal como em outras oportunidades em que o currículo ocupou o centro do debate educacional, as bases propostas para a disciplina de História foram as que ganharam mais visibilidade. Em torno dos conteúdos mobilizaram-se a imprensa, os profissionais da área, os movimentos organizados etc. Poucos se ativeram às questões pedagógicas ou de aprendizagem: a polêmica se concentrou nos temas propostos, sobretudo nas inovações. De modo geral, a primeira versão rompia com os currículos anteriores e propunha, no ensino fundamental, um eixo em torno da História do Brasil, a partir do qual outros povos e civilizações seriam introduzidos. No ensino médio, o destaque foi para o mundo africano, o ameríndio e o afro-brasileiro, nos dois primeiros anos, e para o mundo europeu e o asiático, no último.

A ausência de conteúdos explicitamente vinculados à Antiguidade greco-romana foi uma das primeiras a serem sentidas, e as respectivas associações de profissionais da área se manifestaram. O deslocamento do eixo da Europa foi outro ponto bastante questionado. O próprio ministro da Educação responsável pela primeira versão, Renato Janine Ribeiro, ao ser demitido do cargo, escreveu em sua conta pessoal no Facebook: “Não havia, na proposta, uma história do mundo. Quando muito, no ensino médio, uma visão brasilcêntrica das relações com outros continentes.” O fato é que a versão inicial, muito contestada em público, mas pouco nos números apresentados pela consulta pública (na qual as críticas à área não chegaram a 10%), foi substituída por uma nova, na qual se recolocam a Antiguidade, o mundo europeu, a descoberta da América e outros temas consagrados pela tradição, o que serviu para apaziguar parte do coro dos descontentes.

Já o que os professores e os alunos, no cotidiano das milhares de escolas do Brasil, farão com esses documentos curriculares é outra história, que certamente será um tema muito importante a ser pesquisado pelos interessados.

* O referido documento e outros sobre o tema podem ser encontrados no portal da Unifesp, entre as notícias publicadas pelo DCI.

Publicado em Edição 07
Revolta popular ocorrida na Região Norte do Brasil no século XIX será discutida pelo pesquisador da University of St Andrews, Mark Harris

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Pesquisador da EFLCH/Unifesp analisa a série para identificar o discurso da editora sobre os atendados do 11/9 e seus desdobramentos

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Quarta, 25 Mai 2016 09:34

Contágio, miasmas e microrganismos

Uma visão retrospectiva das principais concepções sobre a origem das doenças transmissíveis até o estabelecimento da teoria microbiana em meados do século XIX

Celina M. Brunieri

Agradecemos a Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, professora doutora do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, pelas sugestões e críticas apresentadas, as quais foram essenciais à elaboração deste artigo. A referida docente é especialista em História da Ciência e doutora em Ciências Biológicas na área de Genética pela Universidade Estadual de Campinas, tendo cumprido programa de estudos (doutorado sandwich) no Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Obteve ainda o título de pós-doutorado no Grupo de História e Teoria da Ciência, vinculado à Unicamp.

Quadro O Triunfo da Morte, onde são retratados esqueletos e corpos, em dezenas de tipos de morte

O Triunfo da Morte (cerca de 1562). Pieter Bruegel, o Velho

No início deste ano, o Instituto Butantan implantou a fase III dos testes clínicos relativos à avaliação da eficácia da vacina contra a dengue, que utiliza vírus geneticamente modificados e é produzida em parceria com o National Institutes of Health (NIH). Essa notícia – divulgada pelos meios de comunicação – não causou surpresa porque nos habituamos a conviver com as conquistas da ciência atual – no caso, a produção de imunobiológicos. Todavia, a construção da ciência e de seu corpo teórico foi um processo gradativo, que demandou a contribuição de vários agentes e a constante superação de desafios. É útil relembrar que, de forma empírica, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) obteve êxito na imunização contra a varíola, mediante o emprego de um método semelhante ao da variolização, porém mais seguro: inoculou em indivíduos a secreção de pústulas que surgiam nos portadores da “varíola das vacas” (cowpox), pois esta doença, quando adquirida pelos ordenhadores, tornava-os resistentes à varíola humana. 

Na história da Medicina sucederam-se várias explicações sobre a causa das doenças transmissíveis até a identificação dos microrganismos como agentes patogênicos, o que ocorreu na segunda metade do século 19. A partir daí, pôde-se estabelecer a teoria microbiana, fundamentada em evidências empíricas. Para a elaboração desse amplo painel consultamos, entre outras fontes, as obras: Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis, de Roberto de Andrade Martins e colaboradores, e Divided legacy: a history of the schism in medical thought, de Harris L. Coulter.

Antiguidade

Os antigos povos da Mesopotâmia acreditavam que os deuses infligiam doenças aos homens quando estes transgrediam as regras morais ou descumpriam as obrigações religiosas. Embora predominasse o caráter religioso na Medicina praticada por esses povos, reconhecia-se que várias doenças tinham causas naturais, para as quais se empregavam medicamentos extraídos de plantas. 

A Medicina religiosa indiana considerava que as orações e práticas mágicas tinham o poder de expulsar entidades vivas e invisíveis, que penetravam nos corpos, provocando o adoecimento. Eram também comuns os rituais de purificação, que deveriam ser cumpridos caso fossem cometidas ofensas contra os deuses ou ocorresse o contato com matérias impuras, como os corpos cadavéricos.

Grécia

No início, a Medicina na Grécia Antiga era uma mescla de concepções mágicas e religiosas e de receitas práticas para o tratamento das doenças. Em geral, atribuíam-se aos deuses tanto a origem quanto a cura de doenças que atingiam muitos indivíduos ao mesmo tempo, como as epidemias. 

Por volta do século 6º a. C., o mundo grego passou por profundas transformações, que se estenderam também à Medicina. Houve um enfraquecimento das crenças mitológicas – não abandonadas completamente –, buscando-se explicar as enfermidades com base no raciocínio humano. Nessa época, alguns médicos sugeriram que a saúde seria o resultado do equilíbrio entre determinados poderes do corpo (úmido, seco, frio, quente, amargo e doce) e que a doença seria o resultado do excesso ou da desarmonia entre eles. Concepções semelhantes apareceram nos tratados que constituem a Coleção Hipocrática, cuja autoria é apenas parcialmente atribuída a Hipócrates (460-370 a. C.). Em alguns desses tratados, a saúde é relacionada à proporção correta entre os quatro tipos de humor ou líquido que constituíam o corpo humano: o sangue, a fleuma (fluidos transparentes), a bílis amarela e a bílis negra.

Hipócrates adotava uma conduta empírica em relação às doenças e, de modo geral, não procurava explicar suas causas. Baseava-se na observação e registro dos sintomas, na previsão dos estágios evolutivos e na prescrição de tratamento – este incluía um regime alimentar adequado, atividade física e uso de medicamentos ou tratamentos que eliminassem os humores em excesso, como os diuréticos e laxativos.

Aristóteles (384-322 a. C.), filósofo da Antiguidade que não deixou obras específicas sobre Medicina, contribuiu com suas reflexões para que a doutrina existente nessa área fosse organizada em um sistema racional. Contrariamente à posição hipocrática, a filosofia de Aristóteles recomendava o estudo das causas dos fenômenos e a obtenção de um conhecimento seguro do mundo material, o que foi aplicado à Medicina racionalista grega.

Em todos os momentos históricos descritos, não havia a noção de que a doença pudesse transferir-se de uma pessoa a outra. Prevalecia a crença de que o odor fétido do ar, o tipo de alimentação e as condições climáticas poderiam afetar o equilíbrio dos humores e, assim, provocar as doenças.

Roma

Durante o Império Romano, os médicos romanos apropriaram-se de grande parte do conhecimento produzido pelos gregos, embora tivessem oferecido contribuições originais como o interesse pela transmissão das doenças e o estudo dos venenos. Nessa época, aceitava-se que a saúde e a doença dependiam das condições climáticas e da alimentação como no mundo grego. As epidemias, porém, eram atribuídas aos fenômenos celestes – os quais, segundo a concepção vigente, estavam relacionados às condições climáticas - e à passagem dos cometas. 

Galeno de Pérgamo (129 - c. 200 d. C.), médico da corte imperial e autor de extensa obra, adotou a ideia dos humores, presente nas obras da Coleção Hipocrática. Introduziu a concepção dos temperamentos, que estariam ligados à predominância de um tipo de humor, o que afetaria os aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. 

Motivadas pela crença de que o ar dos pântanos e o mau odor de lugares fechados podiam produzir doenças, as autoridades romanas instalaram sistemas de coleta de esgotos e de fornecimento de água à população, por meio de aquedutos. Tais medidas, juntamente com os banhos públicos, tiveram impacto positivo sobre a saúde pública.

Idade Média

Litografia, que mostra uma carroça com corpos em meio a uma cidade / Accusing the anointers in the great plague of Milan in 1630; a scene from Manzoni's 'I promessi sposi'. Lithograph by G. Gallina after A. Manzoni

As epidemias de peste ceifavam milhares de vidas e causavam pavor nas populações. Como não havia tratamento para a doença, adotavam-se medidas – pouco eficazes – como a aspersão de perfumes no ambiente, a restrição no contato com os enfermos e a quarentena. Somente em 1894 foi descoberto o bacilo da peste (Yersinia pestis), inoculado por meio da picada de pulga

Com a queda do Império Romano, ressurgiu a crença de que as doenças resultariam da punição divina, da intervenção demoníaca ou da manipulação de poderes ocultos por bruxas e feiticeiros. A incidência da lepra ou hanseníase – cuja transmissão por contágio era intuitivamente admitida – aumentou nos séculos 12 e 13. Excluídos do convívio social, os leprosos eram vistos com medo e desconfiança, pois as deformidades físicas eram, segundo a concepção vigente, sinais exteriores da corrupção das almas.

As epidemias de peste causavam horror e pânico nas populações, que reconheciam seu caráter contagioso. Irrompiam em surtos periódicos e eram atribuídas às conjunções planetárias e a outros fatores. De 1347 a 1351, a peste negra (ou bubônica) – cujo nome está relacionado às manchas negras que surgiam na pele, resultantes do sangramento subcutâneo – vitimou um terço da população da Europa. A extensão desse flagelo só foi comparável ao que ocorreu no período de 542 a 750, quando a doença atingiu os países do entorno da bacia do Mediterrâneo, dizimando cerca de 40% de seus habitantes. 

Como hoje se sabe, a peste é principalmente transmitida pela pulga, que se abriga na pelagem dos ratos e pode transferir-se para o homem. Descrita nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica é combatida pelo uso de antibióticos. As precárias condições de higiene existentes nas cidades medievais favoreciam a proliferação de roedores, que – transportados por navios – alcançavam os portos de outras cidades.

Período renascentista

No século 16, Andreas Vesalius (1514-1564) realizou estudos de anatomia humana com base na dissecação de corpos, contrapondo-se às descrições de Galeno. William Harvey (1578-1657) propôs o modelo circular e contínuo para a circulação sanguínea.

O termo contágio foi empregado pelo médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553), que formulou uma nova tese sobre a transmissão de doenças. Os agentes de enfermidades como a lepra, peste bubônica e varíola seriam germes vivos ou sementes, que poderiam contaminar pessoas saudáveis. Invisíveis a olho nu, penetrariam nos corpos e neles se reproduziriam. Haveria três formas de contágio: pelo ar, contato direto entre pessoas e meios materiais que transportariam os germes.

Século 17

A invenção do microscópio permitiu desvendar o universo dos seres invisíveis por sua dimensão reduzida, os quais não eram ainda identificados como agentes de enfermidades. Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante e naturalista holandês, que – à época – foi um dos construtores desses aparelhos, registrou suas observações e descreveu com precisão os “animálculos” que se moviam em meio aquoso.

Thomas Sydenham (1624-1689) estudou as enfermidades epidêmicas provenientes dos pântanos, designadas por “febres”, associando-as a diferentes partículas infecciosas. Por sua vez, Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) designou por miasmas as emanações dessas áreas alagadiças, as quais eram resultantes da putrefação de matéria orgânica. Tais emanações poderiam produzir diferentes tipos de doenças, ressalvando-se o caso da malária ("mau ar"), que seria causada por pequenos animais que penetrariam no corpo e passariam à corrente sanguínea.

Século 18

A causa das doenças era, então, atribuída aos miasmas – relacionados a qualquer matéria orgânica em decomposição – e aos odores fétidos que exalavam. As medidas de higiene adotadas nas residências justificavam-se pela necessidade de afastar o mau odor gerado por resíduos e dejetos.

Século 19

No início desse século, admitia-se que o contágio ocorria por meio de um “veneno” – também chamado “vírus” – e sempre de uma pessoa a outra. A possibilidade de transmissão de doença pela água – como no caso da cólera – ou por vetores não era cogitada.

Entre 1835 e 1855, vários estudiosos – como Agostino Bassi, Antoine Donné e Félix Pouchet – associaram o aparecimento de doenças a seres microscópicos ou parasitas, gerando conhecimentos ainda isolados, que prefiguravam uma teoria microbiana das doenças, capaz de explicar e prever os fenômenos. Registre-se, entretanto, que o termo micróbio não era ainda utilizado. 

Na década de 1860, as principais contribuições para o estabelecimento dessa teoria originaram-se das investigações sobre o antraz e a pebrina. Casimir Davaine (1812-1882) – que, em parceria com Pierre Rayer (1793-1867), descobrira corpúsculos filiformes no sangue de carneiros mortos pelo antraz – efetuara testes de transmissão da doença por inoculação de sangue contaminado em animais sadios. Os novos experimentos forneceram provas conclusivas, embora não aceitas de forma unânime, de que os corpúsculos ou bactérias eram a causa e não o produto da doença. 

O estudo da pebrina – doença que dizimava as criações do bicho-da-seda – foi desenvolvido paralelamente por Louis Pasteur (vide box) e Antoine Béchamp (1816-1908). Coube a este último elucidar a questão relativa ao corpúsculo que causava a infecção das lagartas: tratava-se, na verdade, de um microrganismo parasita e não de um grânulo tóxico. 

A consolidação da teoria microbiana ocorreu na década de 1870 com os trabalhos de Robert Koch (vide box), nos quais foram estabelecidas as regras para a determinação do papel de um microrganismo como agente específico de uma doença, após sua correta identificação e crescimento em meio de cultura. 

Diante do exposto, pôde-se perceber que – até a concepção dessa teoria – houve um longo percurso histórico de mais de 20 séculos, durante os quais a origem das doenças foi associada ao desequilíbrio dos humores, às condições atmosféricas e à má qualidade do ar.

Louis Pasteur (1822-1895)

Desenho de Louis Pasteur em um laboratório

Pasteur solucionou problemas oriundos da fermentação do leite e do vinho e foi o responsável pela elaboração da vacina humana contra a raiva, a primeira produzida em laboratório. Com doações particulares, criou em 1888 o Instituto Pasteur, que formou gerações de cientistas e hoje se dedica ao estudo de doenças infecciosas

Em 1847 doutorou-se em Física e Química pela Escola Normal Superior de Paris e, em 1854, foi nomeado decano da Faculdade de Ciências de Lille. Integrou os colegiados da Academia de Ciências e da Academia de Medicina, em Paris.

Seus primeiros trabalhos, na área de cristalografia, focalizaram o dimorfismo e as propriedades ópticas dos cristais do ácido tartárico. Os estudos que efetuou sobre a fermentação láctica, alcoólica e butírica mostraram que esse processo resultava da ação de microrganismos sobre a composição química do meio, com a formação de novas moléculas. Solucionou a questão relativa à acidificação do vinho, propondo o aquecimento do líquido à temperatura de 55ºC, medida esta que originou o método de pasteurização.

Pasteur desenvolveu vários experimentos que traziam evidências favoráveis à existência de microrganismos em determinadas regiões da atmosfera (panspermia limitada), os quais contaminavam líquidos nutrientes, previamente fervidos. Travou uma célebre polêmica com Félix Pouchet (1800-1872), médico e naturalista, cujos testes experimentais corroboravam a geração espontânea de seres microscópicos, a partir da matéria orgânica em decomposição. A disputa foi arbitrada pela Academia de Ciências, que se inclinou para o lado de Pasteur.

Com base no amplo espectro de pesquisas que desenvolveu para identificação de patógenos que atuam sobre o organismo do homem e de alguns animais superiores, Pasteur sustentou que a causa das doenças infecciosas eram microrganismos, que deveriam ser combatidos por medidas profiláticas.

Embora, na época, os mecanismos de imunização não fossem bem conhecidos, Pasteur guiou-se por suas hipóteses e produziu vacinas contra a cólera de galinhas e o antraz em carneiros, atenuando a virulência dos agentes etiológicos. Utilizando-se da medula espinal extraída de coelhos infectados, desenvolveu a vacina humana contra a raiva, cuja eficácia e segurança foram gradativamente aprimoradas.

Robert Koch (1843-1910)

Imagem em preto e branco de Robert Kock

Para o estudo dos microrganismos, Koch testou novos meios de cultura, utilizou corantes que permitiam distinguir as estruturas internas e aperfeiçoou técnicas de fotografia microscópica

De 1862 a 1866, estudou Medicina na Universidade de Göttingen, tendo sido aluno de Jacob Henle, patologista e anatomista. Trabalhou como assistente no Hospital Geral de Hamburgo, foi médico voluntário na guerra franco-prussiana e assumiu o cargo de médico distrital em Wollstein (Alemanha). Em 1876 publicou um estudo sobre os experimentos com o antraz, no qual foram descritos os postulados que deveriam ser atendidos para a validação da pesquisa bacteriológica.

Mediante testes sucessivos de inoculação sanguínea, Koch confirmou a transmissão do antraz entre camundongos e a presença de corpúsculos filiformes no sangue dos roedores mortos. Decidiu isolá-los do organismo doente, inserindo-os em diversos meios de cultura. A observação das lâminas ao microscópio revelou que eram microrganismos que podiam reproduzir-se. Por fim, verificou que induziam a doença em animais saudáveis.

Em 1878 mostrou que as infecções sépticas tinham origem bacteriana, relatando os achados em uma monografia. Em 1882 identificou – por meio de corante especial – o bacilo causador da tuberculose, cuja transmissão fora verificada por Julios Cohnheim (1839-1884). Utilizou soro de sangue bovino coagulado como meio de cultivo e inoculou vários animais, que adoeceram. Elaborou a tuberculina, a partir da cultura do bacilo em caldo glicerinado, que não demonstrou eficácia na cura da doença.

Em 1885 foi nomeado professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim e, em 1891, tornou-se diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, criado na mesma cidade para o prosseguimento de seus trabalhos. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã e, em 1905, recebeu o prêmio Nobel de Medicina.

Livros e artigos relacionados:

COULTER, Harris L. Divided legacy: a history of the schism in medical thought. Washington, D.C.: Wehawken Book Co., 1977. 3 v.

CZERESNIA, Dina. Do contágio à transmissão: ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1997. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/knm4c/pdf/czeresnia-9788575412565.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2015.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FERNANDES, Antonio Tadeu (Ed.). Infecção hospitalar e suas interfaces na área da saúde. São Paulo: Atheneu, 2000.

FREITAS, Celso Arcoverde de. Peste. In: VERONESI, Ricardo; FOCACCIA, Roberto (Ed.). Tratado de infectologia. São Paulo: Atheneu, 1996.

HEMPEL, Carl G. Filosofia da ciência natural. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. (Curso moderno de filosofia).

HOUAISS, Antônio (Ed.). Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1992.

MARTINS, Roberto de Andrade. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. Colaboração: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, Maria Cristina Ferraz de Toledo e Renata Rivera Ferreira. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1997. (Col. Polêmica).

MORGENBESSER, Sidney (Org.). Filosofia da ciência. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1979.

OLIVEIRA, J. Cândido de. Em louvor de Koch: a propósito da descoberta do bacilo da tuberculose. Acta Médica Portuguesa, Lisboa, v. 4, n. 3, p. 195-199, 1983. Disponível em: <http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/3789/3047>.Acesso em: 3 fev. 2016.

PINTO, Paulo G. Hilu da Rocha. O estigma do pecado: a lepra durante a Idade Média. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 1995. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v5n1/07.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

PORTER, Roy. Cambridge: história ilustrada da medicina. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

ROBERT Koch - Biographical. Nobel Lectures, Physiology or Medicine 1901-1921. Amsterdã: Elsevier, 1967. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1905/koch-bio.html>. Acesso em: 12 mar. 2016.

ROONEY, Anne. A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. São Paulo: M. Books do Brasil, 2013.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. História da ciência. Os grandes erros da ciência. São Paulo: Segmento-Duetto/ Ediouro, [s.d.]. Edição especial nº 6.

TERENZI, Hernán. Golpe fatal na geração espontânea. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 39, n. 234, jan.-fev. 2007. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/banco-de-imagens/lg/protected/ch/234/memoria.pdf/at_download/file>. Acesso em: 15 fev. 2016.

VERGARA, Moema de Rezende. Os cadernos de laboratório de Pasteur: uma reflexão sobre o público e o particular nas biografias de cientistas. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 445-448, maio-ago. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v11n2/14.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2016.

Publicado em Edição 06
Segunda, 11 Novembro 2013 16:14

O Brasil no contexto do mundo

Pesquisa investiga a adequação do conceito de “longo século XIX” à história do país, cercado pelo escravismo apenas abolido em 1888

Bianca Benfatti

Fotografia de homens negros escravizados - um grupo de dezenas de pessoas, eles estão muito magros

Diáspora africana: entre 1808 (chegada da família real ao Brasil) e 1850 entraram mais escravos do que nos 200 anos de colonização

O “longo século XIX” descreve um período inaugurado com os processos característicos do final dos setecentos, sobretudo a Revolução Francesa (1789), e que terão o seu momento de condensação máxima na Primeira Guerra Mundial, terminando em 1918. Se pudéssemos agrupar um conjunto de palavras-chave para descrever os grandes eventos associados ao período, bem como os debates e conceitos a eles associados, seriam algo como: “monarquia constitucional”, “república”, “escravidão”, “liberdade”, “cidadania”, “progresso”, “revolução”, “democracia”, “liberalismo”, “independência”. 

Como o Brasil se insere nesse contexto? Configurou-se, em nosso país, a unidade política, social, econômica e ideológica iluminada pelo conceito de “longo século XIX”? Essa é a questão enfrentada pela coordenadora do programa de pós-graduação em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp, em Guarulhos, Wilma Costa, responsável pela pesquisa temática “Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX”. A pesquisa é desenvolvida em conjunto com pesquisadores das faculdades de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O projeto está em fase de desenvolvimento e deverá ser apresentado à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) até o final do semestre. 

Uma das grandes novidades da pesquisa, segundo Wilma, é a tentativa de analisar o Brasil, não voltado para si mesmo, mas inserido no grande contexto mundial do século XIX. Com esse objetivo no horizonte, o projeto tentará integrar vários campos da história (história política, social, econômica, da medicina, do direito e da educação). Isso determina o seu caráter múltiplo e interdisciplinar. A proposta faz um recorte temporal delimitado por duas crises do sistema: a primeira ocorreu entre 1763 e 1826, causada pelas independências ibero-americanas, portanto a crise do Antigo Regime e do colonialismo, e, a segunda (1870 a 1918), acometida pela revolução industrial, seguido das inovações tecnológicas, do imperialismo e da Primeira Guerra. Ambas provocaram mudanças profundas na economia-mundo, possibilitando a construção de uma ordem capitalista internacional. 

Wilma relatou que o projeto em questão é novo, porém a ideia possui uma história anterior. “Algumas pessoas que participam de nosso grupo já faziam parte do projeto temático realizado na USP, entre 2004 e 2009, intitulado Brasil a Formação do Estado e da Nação ”, disse. A revista eletrônica Almanack foi criada a partir desse grupo de professores, dando continuidade ao projeto original, mas, ao mesmo tempo, ampliando-o. 

O que se destaca na periodização escolhida é uma questão que perpassa o século XIX nas suas duas pontas: a construção do Estado-nação. “O essencial é pensar como o Brasil se encaixa nesse processo, na formação das nações latino-americanas como territórios, construções de sistemas de poder, de unificação”, completou a professora. O objetivo é demonstrar que as Américas, assim como a Europa, também se constituíram nos conflitos, incluindo a guerra civil nos Estados Unidos, a guerra no Pacífico e a do Paraguai. O projeto foi dividido em três eixos principais: espacialidade e mobilidade; controle e conflito; cultura escrita, expansão e diversificação dos campos. 

Fotogragia antiga, dois meninos pobres vendedores de jornais

Vendedores de jornais no Rio de Janeiro, em 1899

O primeiro deles abrange a formação das fronteiras no século XIX, tanto as “visíveis e conflitáveis (nas bacias do Prata e a Amazônica), quanto as “invisíveis”, estendidas até a África, movimentadas pelas navegações e pelos fluxos de mercado. “Ao mesmo tempo que estão formando os espaços, a mobilidade das populações é crescente, portanto há uma espécie de contraste entre fronteiras que se estabelecem e se solidificam com expulsão e atração de grandes contingentes populacionais”, observa Wilma. Compreende desde a chamada diáspora africana – o aumento do tráfico de escravos para o Brasil, após 1808, com a chegada da Família Real, até 1850; das classes dominantes – uma corte inteira que se muda; e, por fim, a imigração de alemães, italianos, mais tarde de asiáticos, causados pelas unificações (organizações dos territórios, que significou a desorganização dos povos dessa região). 

O segundo tema irá refletir sobre as consequências da formação das nações e com isso a criação de imigrantes e migrados, exigindo a construção de leis, de normas e fronteiras, significando a obtenção de passaportes, documentos de identidade, formas de regular a vida e a mobilidade das pessoas. Simultaneamente esse processo é gerador de conflitos, pois na tentativa de realizar um código civil, houve sempre uma tensão entre as necessidades reguladoras do Estado, censo, matrícula e os povos. O maior temor por parte dos posseiros era de perder suas terras para os próprios senhores, que não queriam regulamentar suas posses ou dos pequenos proprietários que tinham medo que uma lei resultesse na sua expulsão. “Portanto, havia um grande medo quando se falava em ter censo ou matrícula nos sertões”, afirma Wilma. 

Já o terceiro tópico trata de pensar como esse contexto influenciou a organização dos saberes e das ciências, que naquele momento estavam se configurando no plano internacional. Sociologia, Economia e a Antropologia estavam sendo concebidas pelo mundo. Porém esse processo ocorreu de maneiras diferentes em cada lugar. No Brasil, conforme relatou Wilma, a Economia e a Sociologia originaram-se do Direito; a Engenharia, das Forças Armadas; e, a Antropologia, da Medicina. “Analisar como essa historicidade do Brasil determina de alguma forma que, embora conectada com a ciência que está sendo produzida no mundo, se arranja aqui de uma forma específica”, conclui. 

O grupo quer transformar a pesquisa em portal, onde será colocada a sua produção integral, incluindo mapas históricos, cronologias e publicações de época. Além disso, pretendem elaborar um site com notícias da imprensa do período, com jornais do século XIX, e criar uma interface para a utilização nas escolas pelos professores. “A ideia é publicar a maior parte do trabalho na forma de e-books, também de livre aquisição”, explica a coordenadora. “A EFLCH é um campus novo e que pela primeira vez está sediando um projeto dessa envergadura”, completou Wilma.

Pesquisa:
Um tempo entre crises: o Brasil no longo século XIX
Coordenação: Wilma Costa

Publicado em Edição 01