PROTOCOLOS
TRADICIONAIS EM ERGOMETRIA, SUAS APLICAÇÕES PRÁTICAS VERSUS PROTOCOLO DE RAMPA
CEMAFE
– Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte – Escola Paulista de
Medicina – UNIFESP
The
choice of an exercise protocol is the key of the sucess in an ergometric test.
This choice is based upon an previous evaluation of the exercise tolerance of
the subjects. In the patients we have the purpose of obtain a symptom-limited
response in an range between six to fifteen minutes of test. All the protocols used to include an initial
light load that increases continuously, and an adequated duration of each stage
and recovery period. The standartization of the protocols in useful to compare
the results between different individuals and in a same subjects in different
tests.
With
the use of the spirometry many different protocols were developed with the
purpose of study healthy people. This purpose was responsible for the
development of specific protocols that fits with different individuals and
ergometers.
In
1981 Whipp et al. described the ramp protocol in with the work load is
individualized according to the physical fitness with continuous increment of
load. The authors that use this protocol consider that there is a better
relationship between VO2 and work load with the same precision of other
traditional protocol concerning to alterations in EKG and arterial blood
pressure.
We
present in this article a proposal of new protocols to the specific evaluation
of aerobic power based upon ten years of experience in the field.
Key
Words: exercise testing, tradicional protocol, ramp protocol, oxygen uptake,
anaerobic threshold.
INTRODUÇÃO
A base da eletrocardiografia de esforço, foi a descoberta de que o exercício físico produzia depressão do
segmento ST. Bousfield 1, em 1918, fez os primeiros registros de
alterações da repolarização ventricular, que ocorriam durante crises
espontâneas de angina. O primeiro trabalho abordando o teste ergométrico foi
publicado por Máster e Oppenheimer2, 1929, utilizando a escada de
dois degraus. O método foi usado para avaliação da “capacidade cardíaca”, pela
análise da freqüência cardíaca e pressão arterial. Nenhum valor, foi dado as
alterações eletrocardiográficas. A este trabalho é creditada a descrição de um
protocolo para teste de esforço.
As bases da moderna
eletrocardiografia de esforço foram estabelecidas nos anos cinquenta. Paul Wood3
enfatizaram a necessidade de que fosse exercitada a capacidade máxima de cada
indivíduo, resultando em freqüências cardíacas acima de 90% do previsto; seu
protocolo consistiu na subida de 84 degraus de escada próximo ao Hospital em
que trabalhava, com o registro imediato do eletrocardiograma.
Em 1954, Astrand e Ryming4 estabeleceram
as bases fisiológicas para o método, correlacionando o consumo de O2
(capacidade aeróbica) com a freqüência
cardíaca a níveis submáximos de exercício. O ano de 1956 pode ser considerado
um marco na evolução da ergometria pela introdução da esteira rolante e o
respectivo protocolo para utilização deste novo equipamento por Robert Bruce5.
Desde então os protocolos existentes visam alcançar
valores máximos de VO2 semelhantes, sendo sua escolha primeiramente
determinada pela tolerância ao esforço esperada para o paciente. Além disso, a
utilização inicial desses protocolos foi para o diagnóstico de doença arterial
coronariana obstrutiva. O objetivo de todos os protocolos é possibilitar uma
resposta sintoma-limitada no intervalo de 6 a 15 minutos de exercício 6.
Todos incluem uma carga inicial baixa com progressivo aumento a intervalos de
tempo regulares, adequada duração de cada estágio e também do período de
recuperação.
Com
o advento da ergoespirometria vários outros tipos de protocolos foram criados,
com finalidade de estudo de pacientes não coronarianos. Existem, portanto,
protocolos específicos conforme o tipo de ergômetro utilizado e o tipo de indivíduo exercitado.
A
padronização dos protocolos no teste ergométrico visa a comparação de
resultados entre indivíduos e num mesmo
indivíduo em testes subseqüentes.
Os
protocolos mais utilizados são progressivos, isto é, contínuos e com cargas de
trabalho crescentes em cada estágio. Estes, podem minimizar as diferenças
existentes nas capacidades funcionais individuais devido ao pouco tempo de
exercício (resistência ou endurance), tornando-se limitados para uso clínico.
Dessa
maneira, há a necessidade de aplicarmos os protocolos de acordo com a
capacidade física de quem se está exercitando e, também, com a proposição do
exame.
A
capacidade máxima de um indivíduo para realizar um trabalho aeróbio é definida
pelo máximo consumo de oxigênio (VO2max), dado pelo produto do
débito cardíaco e da diferença arteriovenosa, em testes exaustivos. Embora o VO2
max seja medido em litros/min, é usualmente expresso em quilogramas de massa
corpórea para facilitar a comparação entre indivíduos. A capacidade funcional,
quando medida diretamente, é expressa em equivalente metabólico (MET), sendo
que 1 MET representa o consumo de O2 em repouso e vale 3,5 ml.kg-1.min-1.
Fatores que variam o VO2 são, idade, sexo, estado funcional e a
presença de doença ou medicamentos que influem em seus componentes.
A
capacidade aeróbica declina 8 a 10% por década em indivíduos não atletas,
mediada pela diminuição da frequência cardíaca máxima e da diferença
arteriovenosa 7. Em indivíduos treinados a redução da intensidade de
treinamento ao longo dos anos também diminui a capacidade aeróbia. Além disso,
o VO2 max é 10 a 20% maior no sexo masculino, em parte devido a alta
concentração de hemoglobina, maior massa muscular e volume sistólico7.
A meta a ser atingida nos
testes funcionais é alcançar o VO2 pico, sendo mais efetivo que o VO2
max.
Pelo
fato de as atividades diárias não requerem esforços máximos, índices amplamente
utilizados associados a capacidade aeróbia submáxima são, o lactato sanguíneo e
o limiar anaeróbio que, quando caracterizados exclusivamente em função das
trocas respiratórias, recebe a denominação de limiar ventilatório8,
podendo ser definido como a intensidade de esforço, ou o consumo de oxigênio,
no qual a produção de ácido lático supera sua própria remoção, provocando
hiperventilação9 . Indivíduos não treinados apresentam, em geral,
limiar anaeróbio em torno de 50% a 70% do consumo máximo de oxigênio 10.
O limiar ventilatório pode ser determinado pelo valor de consumo de oxigênio
que precede: a) o aumento sistemático da fração expirada de oxigênio; b) o
ponto no qual um aumento do equivalente ventilatório de O2 (VE/VO2)
se dá sem o aumento do equivalente ventilatório de CO2 (VE/VCO2);
c) o ponto no qual um aumento da
pressão expiratória final de O2 (PET O2) ocorre sem
diminuição da pressão expiratória de CO2 (PET CO2)
e d) método do Slope, em que há uma falta de linearidade entre o VO2
e VCO29, 11
A
capacidade funcional pode ser medida diretamente pelo consumo de O2
(VO2 max) ou estimada pelo maior trabalho realizado em esteira
rolante ou bicicleta ergométrica. Por causa da complexidade do equipamento e a
necessidade de pessoal especializado para realizar o teste cardiopulmonar, este
ainda é pouco utilizado fora de grandes centros de pesquisas. Se a proposição
fundamental do exame é o diagnóstico de doença arterial coronária, pela
detecção de alterações eletrocardiográficas, a análise dos gases respiratórios
não necessita ser monitorada. Neste sentido, o VO2 max pode ser
obtido por meio de nomogramas. Deve-se lembrar, entretanto, que podem haver
diferenças entre o VO2 max obtido por medida direta e indireta. Por
esta razão, quando houver necessidade da aferição objetiva da capacidade
aeróbia, o VO2 max deverá ser obtido diretamente.
A
seleção de um protocolo apropriado para avaliação da capacidade funcional é de
fundamental importância12. Quando a capacidade aeróbia é estimada
pelo tempo de exercício ou pico de trabalho realizado, protocolos com grande
gasto energético estágio a estágio devem ser evitados devido a sua ineficiente
relação entre consumo de O2 e percentual de trabalho realizado. O
protocolo de Balke ou de Naughton, que utilizam incremento de 1 MET a cada
estágio com aumentos leves de elevação da inclinação e velocidade constante,
são preferencialmente utilizados para a estimativa indireta do VO213,
sendo também utilizados para pacientes com limitada tolerância ao exercício,
fase aguda do infarto do miocárdio e portadores de insuficiência cardíaca.
Em indivíduos sadios os protocolos de Ellestad e Bruce podem ser aplicados, sendo este último o
mais utilizado, existindo na literatura um grande número de trabalhos validando
tanto o enfoque diagnóstico como prognóstico em pacientes cardiopatas13.
Em indivíduos idosos, ou naqueles em que a capacidade física é limitada por
doença, o protocolo de Bruce pode ser modificado por 3 minutos sem inclinação.
Uma limitação inerente a estes protocolos é o grande aumento do VO2
entre cargas de trabalho sucessivas, com adicional custo energético durante a
corrida, quando comparado com caminhada somente.
Uma
maneira interessante que vêm sendo descrita há poucos anos para a realização de
testes visando uma determinação mais acurada da capacidade funcional é o
emprego dos chamados protocolos de rampa, nos quais o incremento de carga
ocorre continuamente. Em 1981, Whipp e colaboradores14 descreveram,
primeiramente, as respostas cardiopulmonares para esse tipo de protocolo, em
bicicleta, e, desde então, alguns equipamentos de trocas gasosas incluem esse
tipo de programa. Mais recentemente, esteiras também tem sido adaptadas para
realizar esses protocolos15, 16. Caracteristicamente, os protocolos
de rampa, em cicloergômetro ou em esteira, iniciam-se com um período de
aquecimento ou “preparação” que varia de 1 a 3 minutos, pedalando a 60 ciclos
por minuto ou caminhando confortavelmente e, a seguir, incrementa-se
progressiva e continuamente a carga (ciclo) ou a velocidade e/ou inclinação
(esteira) de acordo com a capacidade individual estimada para o paciente,
procurando atingir o consumo máximo de oxigênio num período de tempo
predeterminado de 10 minutos. A Figura 1 ilustra o desenvolvimento desses
protocolos para cicloergômetro segundo Wasserman11.

Figura 1:
Protocolos de rampa para cicloergômetro – 3 minutos iniciais sem carga e
incremento contínuo de cargas por 9 minutos: a) 5 watts, b) 25 watts e c) 50
watts.
Nos
protocolos de rampa, o aumento da carga de trabalho é contínuo de tal forma que
as condições do estado de equilíbrio não sejam atingidas sendo, uma limitação,
o requerimento da estimativa prévia da capacidade funcional individual, baseada
numa escala de atividade que, se mal delimitada, pode ocasionar um teste de
“endurance”, ou ainda, provocar a interrupção precoce da avaliação11.
Existem
várias equações, que consideram algumas variáveis, durante um exercício
isotônico de cargas crescentes, seja em esteira rolante ou bicicleta, que podem
ser utilizadas para o cálculo do VO2 predito. Segundo o American College of Sports Medicine17 , podemos aplicar as seguintes
fórmulas para esse cálculo:
Cálculo do VO2 estimado em esteira
A
equação para o cálculo da estimativa do VO2 em ml.kg.min-1
em esteira assume que o indivíduo esteja caminhando entre 2,0 e 4,0
milhas/hora, sem apoiar-se no corrimão, e que a esteira esteja calibrada.
Considera-se a presença de um componente horizontal, onde a velocidade é
calculada em metros/minuto e multiplicada pela constante 0,1 (ml de O2/kg/min),
somado a um componente vertical dado pelo produto da inclinação da esteira,
expressa em fração, pelo produto da velocidade em metros/minuto e pela
constante 1,8 (ml de O2/kg/min)
e ao VO2 de repouso (3,5 ml.kg.min-1 ). Dessa
forma encontramos:
VO2 (ml/Kg/min) = [(mph x 26,82) x 0,1] + [(inclinação/100) x
(26,82 x mph) x 1,8)] +3,5
ou simplificadamente:
VO2 (ml/Kg/min) = velocidade x [0,1+
(inclinação/100 x 1,8)] + 3,5
No
caso de corredores, normalmente quando as velocidades empregadas são iguais ou
maiores a 5,0 milhas/hora, usamos a mesma equação acima, porém, a constante a
ser multiplicada pela velocidade é 0,2 (componente horizontal) e pela
inclinação é 0,9 (componente vertical).
Cálculo do VO2 estimado em bicicleta
Para este tipo de
ergômetro, o VO2 é estimado usando o produto da resistência mecânica
(kiloponds) pela circunferência da roda, sendo a distância percorrida igual ao
número de revoluções (voltas) por minuto. Na maioria dos ergômetros essa
circunferência (distância) corresponde a 3 ou 6 metros por revolução. Uma vez
que não se considera o peso corporal na bicicleta, o VO2 é expresso
em ml/min, sendo a carga expressa em kilogrâmetros/min (kgm/min) ou em watts,
que corresponde a 6,1 kgm/min. Assim como no cálculo do VO2 em
esteira, aqui também somamos o gasto metabólico basal de 3,5 ml.kg-1.min-1,
portanto, a equação para o trabalho dispendido no cicloergômetro é a seguinte:
Myers e
colaboradores15, num trabalho muito bem elaborado e conduzido,
compararam protocolos de rampa realizados em cicloergômetro e esteira
(individualizados) com os protocolos tradicionais mais utilizados na clínica
(25 W e 50 W – ciclo, Bruce e Balke –
esteira) em 10 indivíduos portadores de insuficência cardíaca congestiva, 10
portadores de insuficiência coronária limitados por angina de esforço, 10
portadores de insuficiência coronária assintomáticos durante o exercício e 10
controles normais.
A análise destes resultados
revelou que a correlação entre VO2 predito e alcançado para uma
determinada carga de trabalho foi maior nos protocolos de rampa individualizados
e menor nos protocolos que apresentam maiores incrementos de carga (Bruce e 50
W), que também apresentam maior erro padrão estimado (em ml/kg/min), sugerindo
que o VO2 é superestimado para os testes que apresentam maiores incrementos de
trabalho e que nestes há maior discrepância do valor estimado de VO2
por carga de trabalho em relação aos testes de rampa individualizados. Em suma,
esses autores concluíram:
1)
Os protocolos em esteira resultam VO2 max 10% a 20% maiores
que em bicicleta. Entretanto, para o mesmo ergômetro, esteira ou bicicleta, não
há diferenças estatisticamente significativas entre as freqüências cardíacas
máximas, as respostas de pressão arterial ou consumo máximo de oxigênio obtidos
com os protocolos tradicionais e os de rampa7,18,-20.
2)
O protocolo de rampa em esteira evidencia a melhor relação entre VO2
e carga de trabalho, diminuindo os erros associados quando se estima o VO2
predito por carga 7,21,22 .
3)
Os protocolos com grandes incrementos de carga de trabalho entre
estágios (Bruce ou 50 W) apresentam a pior correlação entre VO2
predito e carga de trabalho.
4)
Na presença de doença cardíaca, pode-se melhorar a pequena relação entre
VO2 predito e carga de trabalho pela escolha do protocolo adequado23,24,25.
5)
Os protocolos de curta duração também aumentam a discrepância entre VO2
predito e carga de trabalho; porém, protocolos muito longos também não melhoram
essa relação, sendo o tempo ideal de duração em torno de 10 minutos 7,23.26.27,28.
6)
Na ausência de equipamento para medida direta do consumo de oxigênio
preconiza-se a realização de protocolos com estágios de curta duração e
pequenos aumentos de carga, ou protocolos de rampa, para maior acurácia na
determinação do VO2 predito7,16.
Em nosso meio, na
Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina, Neder e
colaboradores26 realizaram um estudo cujo objetivo principal foi
estabelecer uma equação preditiva para consumo de oxigênio durante teste
incremental máximo em cicloergômetro. Foram selecionados, aleatoriamente, 120
casos de pessoas sedentárias, 60 homens e 60 mulheres, com idade variando entre
20 e 80 anos de um total inicial de 8226 indivíduos. Os testes foram realizados
com protocolo do tipo “rampa”, consistindo de uma fase inicial de 2 minutos em
repouso, seguidos por 3 minutos de trabalho; a 60 rotações por minuto sem carga
(carga zero), seguidos de incrementos lineares de carga numa “rampa” de 10-25
W.min-1 para mulheres e 15-30 W.min-1 para homens, de tal
forma, que a duração do teste fosse superior a 8 e inferior a 12 minutos. É
importante ressaltar que o objetivo principal desse estudo foi tentar
estabelecer valores estimados de VO2 não superestimados, não só pela
seleção rigorosa da amostra (escolhida ao acaso) como também pelo tipo de
protocolo utilizado (rampa) 7,16
Outros
autores7,16,29 também preconizam que as vantagens do uso do
protocolo de rampa são a aplicação constante da carga de trabalho, sem grandes
incrementos, que implica em diminuição do tempo de exercício, e a acurada
determinação dos parâmetros aeróbios. Não há dados definidos quanto a melhora
da acurácia em relação às alterações hemodinâmicas e eletrocardiográficas com a
utilização deste tipo de protocolo 15.
Entretanto,
devido a respostas similares quanto a estas variáveis em pacientes que também
fizeram protocolo de Balke13, os dados poderiam ser considerados
semelhantes. O que realmente acontece é que neste modo de estudo há uma melhor
delineação das mudanças do limiar anaeróbio de outras condições simuladas pela
hiperventilação15.
PROTOCOLOS PARA ATLETAS
Se, em nosso meio, fosse realizada uma pesquisa semelhante à empreendida
por Stuart e Ellestad28 em laboratórios de exercício da América do
Norte, possivelmente seria obtida a informação que os protocolos mais
utilizados, independentemente da finalidade específica, são Bruce e Ellestad em
esteira e Astrand em bicicleta, inclusive para a avaliação de atletas. Myers29
admitem que os protocolos de Bruce30, Ellestad31 e
Astrand32 podem ser usados para a realização de testes em atletas,
preconizam porém, protocolos individualizados, com tempo de duração entre 8 e
12 minutos e aumentos de carga de trabalho adaptados de acordo com o nível de
condicionamento pessoal, e que treinamento específico deve ser considerado
porque todo atleta apresenta melhor performance quando testado realizando um
exercício ao qual está acostumado. Para corredores, os protocolos devem ser
individualizados, iniciando-se com um curto período de caminhada; seguido por
aumento gradual para um ritmo de corrida habitual, em torno do terceiro ou
quarto minuto, e, então, por incrementos de 2,5% ou 5,0% a cada 2 minutos até a
exaustão, para que, desta maneira, um teste se desenvolva dentro do período de
tempo de 12 minutos; freqüentemente atingindo-se inclinações superiores a 15%,
o que acarreta grande desconforto. Segundo os autores, esses protocolos são
excelentes para a determinação do consumo máximo de oxigênio (VO2 max),
mas apresentam dificuldades para se obter traçados eletrocardiográficos de boa
qualidade e correta aferição da pressão arterial em função das velocidades
atingidas.
Também
partilhamos a idéia que a escolha de protocolo deve ser realizada de acordo com
a finalidade específica de cada caso29, respeitando as
características individuais do atleta e, se possível, o gesto esportivo.
Nos
últimos sete anos, em nosso serviço no Centro de Medicina da Atividade Física e
do Esporte da UNIFESP – EPM, em função de atendermos uma população voltada para
algum tipo de atividade desportiva ou com finalidades específicas, e também por
trabalharmos com equipamentos que permitem a medida direta das trocas gasosas
durante o exercício, desenvolvemos protocolos individualizados, em esteira
rolante, que incluem um período de
preparação no qual se caminha e, a seguir, um primeiro estágio com duração de 2
minutos caminhando mais acelerado em relação à preparação inicial ou
“trotando”, seguido de incrementos na velocidade de 1,0 km.h-1 a
cada minuto para atingir a velocidade máxima preconizada em 10 minutos e, se
necessário, dar prosseguimento ao protocolo com inclinação de 2,5% ou 5,0% a
cada minuto apenas nos 2 ou 3 minutos finais da atividade, sem novos
incrementos de velocidade.
Optamos
por esse tipo de protocolo pois, a nosso ver, preenche a maioria dos quesitos
considerados adequados na execução de um teste ergométrico, ou seja, o tempo de
duração do exame não é inferior a oito e nem superior a 12 minutos, os aumentos
de carga (aproximadamente 1 MET por estágio) são constantes e a cada minuto,
isto é, pequenos incrementos de carga ocorrem em curto espaço de tempo o que,
sem dúvida, facilita na obtenção dos índices de limitação funcional, limiar
anaeróbio ventilatório e consumo máximo de oxigênio11,29 e,
principalmente, por conseguirmos informar e orientar o indivíduo praticante, ou
o seu treinador, quanto à intensidade ideal da prática das atividades, seja
caminhada ou corrida, dentro dos padrões aeróbios e com o máximo rendimento,
fornecendo ou “traduzindo” os índices funcionais em termos de frequência
cardíaca e velocidade de treinamento aeróbio, além de informações sobre o gasto
calórico medido indiretamente durante a atividade.
Na
prática, desenvolvemos apenas um protocolo com três níveis básicos de
intensidade, que é aplicado de acordo com a avaliação da aptidão individual e
do padrão físico do usuário. Essa avaliação, realizada por meio de um simples
questionamento sobre as modalidades e a intensidade e frequência das atividades
física realizadas, possibilita a escolha do protocolo mais adequado para aquele
momento, dentro da finalidade desejada. Dessa forma, os protocolos denominados:
sedentário (3/12 km.h-1), condicionado (5/14 km.h-1) e
atleta (7/16 km.h-1) são aplicados, podendo ser discretamente
alterados quanto à velocidade inicial e final, e também quanto ao percentual e
ao momento adequado para início da inclinação, na dependência do comportamento
apresentado durante o exame.

A Figura 2
esquematiza os protocolos apresentados.
Figura 2. Esquematização dos protocolos: sedentários, 3/12 km/h-1; condicionados 5/14 km.h-1; atletas 7/16 km/h-1.
Tabela 1:
Protocolo realizado, número de indivíduos e idade (em anos), peso (em
quilogramas) e altura (em metros e centímetros) em homens (n = 841) (média e
desvio padrão).
|
Protocolo |
N |
Idade (anos) |
Peso (kg) |
Altura (m) |
|
3
– 12 |
203 |
40,53
± 12,56 |
82,99
± 15,92 |
1,75
± 0,07 |
|
5
- 14 |
336 |
34,32
± 11,53 |
75,89
± 10,89 |
1,76
± 0,07 |
|
7
– 16 |
302 |
31,55
± 10,41 |
71,79
± 9,60 |
1,76
± 0,07 |
Tabela 2. Protocolo realizado, número de indivíduos e
consumo máximo de oxigênio em ml. kg-1. min-1 (VO2 max),
razão de trocas gasosas (R max) no VO2 max, e tempo de exercício (em
minutos e segundos) em homens (n = 841) (média e desvio padrão).
|
Protocolo |
N |
VO2 max mL/kg/min atingido |
R max. |
Tempo de exercçicio min/seg |
|
3
– 12 |
203 |
36,17
± 6,52 |
1,12
± 0,09 |
9:00
± 1:51 |
|
5
- 14 |
336 |
49,71
± 8,11 |
1,11
± 0,08 |
11:28
± 1:38 |
|
7
– 16 |
302 |
56,64
± 7,92 |
1,11
± 0,08 |
11:05
± 1:34 |
Tabela 3.
Protocolo realizado, número de indivíduos e frequência cardíaca máxima atingida
(em batimentos por minuto), frequência máxima predita para a idade (em
batimentos por minuto) e percentual de frequência cardíaca (FC) atingida em
relação à predita em homens (n = 841) (média e desvio padrão).
|
Protocolo |
N |
FC max atingida (bpm) |
FC max predita (bpm) |
% FC max atingida em relação a predita |
|
3
– 12 |
203 |
175,87
± 15,04 |
179,47
± 12,56 |
98,08
± 6,49 |
|
5
- 14 |
336 |
184,38
± 12,10 |
185,68
± 11,53 |
99,39
± 4,67 |
|
7
– 16 |
302 |
185,60
± 11,11 |
188,45
± 10,41 |
98,58
± 4,88 |
Tabela 4. Protocolo realizado,
número de indivíduos e idade (em anos), peso (em quilogramas) e altura (em
metros e centímetros) em mulheres (n = 297) (média e desvio padrão).
|
Protocolo |
N |
Idade (anos) |
Peso (kg) |
Altura (m) |
|
3
– 12 |
176 |
39,00
± 12,54 |
63,27
± 11,84 |
1,62
± 0,07 |
|
5
- 14 |
81 |
33,53
± 08,61 |
56,74
± 06,19 |
1,63
± 0,06 |
|
7
– 16 |
40 |
31,56
± 10,70 |
54,74
± 06,93 |
1,60
± 0,07 |
Tabela 5.
Protocolo realizado, número de indivíduos e consumo máximo de oxigênio (em ml.kg-1 .min-1) (VO2
max), razão de trocas gasosas (R max) VO2 max e tempo de
exercício (em minutos e segundos), em mulheres (n = 297) (média e desvio
padrão).
|
Protocolo |
N |
VO2 max mL/kg/min |
R max. |
Tempo de exercício min/seg |
|
3
– 12 |
176 |
31,36
± 6,55 |
1,06
± 0,07 |
08:17
± 1:44 |
|
5
– 14 |
81 |
43,46
± 6,42 |
1,07
± 0,06 |
11:16
± 1:32 |
|
7
– 16 |
40 |
50,29
± 6,87 |
1,08
± 0,09 |
09:55
± 1:47 |
Tabela 6.
Protocolo realizado, número de indivíduos e frequência cardíaca máxima atingida
(em batimentos por minuto), frequência máxima predita para a idade (em
batimentos por minuto) e percentual de frequência cardíaca (FC) atingida em
relação à predita em mulheres (n = 297) (média e desvio padrão).
|
Protocolo |
N |
FC max atingida (bpm) |
FC max predita (bpm) |
% FC max atingida em relação a predita |
|
3–
12 |
176 |
177,87
± 13,04 |
181,00 ± 12,54 |
98,40
± 5,70 |
|
5
- 14 |
81 |
184,33
± 09,79 |
186,47 ± 08,61 |
98,92
± 4,28 |
|
7
– 16 |
40 |
183,51
± 09,23 |
188,44 ± 10,70 |
97,55
± 4,97 |
A
análise desses resultados quanto ao tempo de duração do exercício revela que os
valores médios obtidos para os três protocolos em ambos os sexos (em torno de
10 minutos) encontram-se de acordo com os valores preconizados na literatura
como tempo adequado de exercício para o desenvolvimento de um teste11,29.
Quanto à frequência cardíaca, considerando-se como frequência cardíaca máxima o
valor estabelecido por Karvonen33 e que um teste é máximo quando se
atinge patamar maior ou igual que 95% desse valor, também consideramos ter
atingido esse objetivo pois, os valores médios obtidos preenchem esse critério.
Finalmente,
os valores médios do consumo de oxigênio atingido podem ser validados como
consumo máximo de oxigênio (VO2 max) pois, além do valor médio do
coeficiente de trocas gasosas (R) ser igual ou superior a 1,10, houve relato
absoluto de cansaço intenso ou exaustão ao final do teste, frequência cardíaca
máxima atingida e platö de VO2.
De
acordo com a literatura11,29, para a obtenção de melhores dados para
interpretação das respostas fisiológicas e determinação do VO2 max
ou VO2 pico num teste de esforço, os incrementos de carga devem ser
uniformes em magnitude e duração, num período não inferior a oito e nem
superior a doze minutos, características mais facilmente definidas quando se
aplica um protocolo individualizado do tipo rampa.
Quando
efetivamos um teste cardiopulmonar com a finalidade específica de determinar a
potência aeróbia e definir os índices de limitação funcional, devemos
individualizar a avaliação e podemos empregar os protocolos ilustrados na
Figura 2 (sedentário, corredor e atleta), pois, embora não sejam, por definição,
protocolos de rampa, preenchem critérios básicos na forma da aplicação e que
permitem a obtenção de informações fidedignas sobre a capacidade funcional, de
acordo com preceitos pré-estabelecidos e validados na literatura11, 29.
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