Baruzzi pelo olhar do índio

baruzzi xingu

Tribo do Xingu presta homenagem ao Prof. Baruzzi

Por Rosangela Demetrio

 “O Baruzzi é nosso pai. Ele e o Orlando. Nós estamos aqui hoje por causa deles. Antigamente, a gente ia acabar. Muita doença, sarampo. Muita gente morreu. Depois quando o Orlando trouxe o Baruzzi, ele trouxe as equipes e as vacinas. Hoje, você pode ver quantas crianças estão correndo por aí na aldeia. A gente cresceu na mão de vocês, da Escola Paulista, na mão do Baruzzi.”

A fala acima é do Takuman, um importante pajé Kamaiurá do Alto Xingu, e reflete o pensamento de todas as etnias presentes no Kwaryp em homenagem ao Professor Baruzzi, realizado na aldeia Kamaiurá, no Parque Indígena do Xingu, nos dias 5 e 6 de agosto passado. Demonstra também a importância conquistada por um homem branco, médico e professor que, por 50 anos, representou a esperança para aqueles povos.
“Somente dois caraíbas (como somos chamados pelos Kamaiurá) foram homenageados com a realização de um Kwaryp: os dois grandes amigos Orlando Villas Boas e Baruzzi”, relata Douglas Rodrigues, chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente/Projeto Xingu.
"Ver a homenagem dos índios ao meu pai, foi algo muito especial para nossa família. Nossos filhos, meus e de meus irmãos, ficaram surpresos de ver o carinho, a importância e a deferência com que os índios se referiam a meu pai e à marca que ele deixou entre eles. Os depoimentos e as histórias contadas por eles nos emocionaram e ver escrito nas costas do índio Mutuá "OBRIGADO BARUZZI," durante o ritual de dança, foi muito tocante para nós.
A cerimônia cheia de simbolismo, cantos e choros deu significado às nossas saudades e tristeza, e também conforto, pois no dia seguinte, de acordo com o ritual, a alma sai do tronco e segue seu caminho e não se chora mais. Agora está em paz!
Pudemos sentir que o Xingu e o convívio com os índios é de fato, apaixonante. Muitos depoimentos dos "brancos", Prof. Acary, Douglas, Prof. Belfort, Prof. Paulo Pontes entre outros, mostraram a marca do Projeto Xingu em suas vidas, foi lindo ouví-los e sentir um pouco da presença do meu pai em suas histórias.
Dá para entender hoje porque meu pai se dedicou de corpo e alma a este trabalho e o tornou a sua missão de vida. E até sua morte foi conduzida pelos espíritos índios, pajelança realizada no hospital e a morte na mesma noite.
Nós, filhos, só temos a agradecer por todo exemplo de dedicação e amor. OBRIGADA PAI", descreve a filha, Márcia Baruzzi.

 

Entenda a Cerimônia do Kwaryp


Kwaryp é uma cerimônia em homenagem aos mortos, realizada pelos povos indígenas da região do Alto Xingu, no Parque Indígena do Xingu, estado do Mato Grosso. Na realidade, é a etapa final de uma sequência de ritos iniciados após o falecimento da pessoa e marca o término do luto dos parentes. É também o nome da árvore da qual são feitos os troncos, que devidamente ornamentados, relembram o ato primordial de criação da humanidade, obra da divindade Mavitsinin. Num sentido ampliado, na narrativa do primeiro Kwaryp, era intenção de Mavutsinin devolver a vida aos
mortos. Para isso, ornamentou os troncos da árvore Kwaryp, fincou-os no meio da aldeia. Após muitas horas de canto, ele ordenou que todos os moradores da aldeia entrassem em suas casas e, permanecendo junto aos troncos, pôde observar sua transformação, ganhando a forma humana. Quando a transformação se completou Mavutsinin convidou a todos, exceto os que tivessem mantido relações sexuais na noite anterior, para ver o acontecido. Então, um homem que havia mantido relações com sua esposa na noite anterior, não resistindo à curiosidade, acabou saindo de casa, e imediatamente os ressuscitados voltaram a transformar-se em troncos. Por causa dessa transgressão, os mortos não mais ganham nova vida. Apenas são homenageados e lembrados durante o ritual.
Há entre os Kamaiurá, diferentes níveis de distinção social. O mais conhecido é a divisão entre os homens Morerekwat e as mulheres Nuitu – descendentes de famílias de chefes e as pessoas comuns, chamadas de Kamara. Por ocasião da morte apenas os Morerekwat e Nuitu tem direito à realização do Kwaryp. Os demais podem aproveitar a festa para homenagear seus mortos, mas sem o falecimento de um Morerekwat ou Nuitu não ocorre a cerimônia do Kwaryp (Carmen Junqueira, Vaneska Taciana Vitti, 2009).
Conheça mais detalhes sobre o Kwaryp, acessando o link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000100010


O Projeto Xingu


O Projeto Xingu teve sua origem por conta de um feliz encontro entre um dos maiores indigenistas do país, Orlando Villas Bôas e um professor de medicina com espírito aventureiro e com uma incrível capacidade de trabalho, o Prof. Baruzzi.
Eram os idos de 1964 quando os dois se conheceram e em 1965 nascia o primeiro convênio entre a EPM, na pessoa do Professor Walter Leser, chefe do recém-criado Departamento de Medicina Preventiva, e o Parque do Xingu, representado por Orlando Villas Bôas.
Um feliz encontro de ideias e de amor aos povos da floresta.
Diziam cada um de seu lugar:
“Nós chegamos a ver índios morrendo de coqueluche e gripe...Certa feita o sarampo matou 114 índios em 30 dias... a própria FAB acudiu com médico e tudo, mas não se conseguiu diminuir a mortandade fantástica... Diante disso, estávamos cientes da necessidade de estruturar um serviço de saúde e assistência que desse amparo efetivo a essas comunidades...”(Orlando Villas Bôas).
“O grande desafio não é simplesmente implantar no Parque um modelo de assistência à saúde calcado na medicina ocidental... O real desafio é trazer benefícios à saúde do índio sem causar danos irreversíveis à sua cultura, sem destruir suas crenças e sua medicina tradicional...” (Roberto Baruzzi).
O primeiro convênio era um pacto de intenções. Cabia à EPM, por meio do Projeto Xingu, enviar equipes periodicamente para o Parque do Xingu para imunização e ações de controle das principais doenças endêmicas, como a malária e a tuberculose. Para tanto, todos os índios foram sendo cadastrados em fichas médicas individuais, que agrupadas por famílias, casas e aldeias constituem um grande acervo de informações, facilitando o desenvolvimento de pesquisas epidemiológicas e demográficas e as ações de prevenção e promoção de saúde desenvolvidas nas aldeias.
O Prof. Baruzzi sempre dizia da importância da participação de alunos de graduação nas atividades do Projeto Xingu, uma atividade de extensão por natureza. “Os alunos são a garantia de continuidade do Projeto Xingu. Posteriormente, como médicos do Hospital São Paulo, terão maior sensibilidade para tratar dos pacientes indígenas que aqui chegam para tratamento”, dizia ele.
Ao longo dos anos, o Projeto Xingu foi ampliando suas atividades, especialmente na área da formação de pessoas para o trabalho com a saúde dos povos indígenas e para a formação dos próprios índios como agentes de saúde e auxiliares de enfermagem.
Acreditar no protagonismo e na capacidade dos indígenas foi o maior ensinamento do Prof. Baruzzi. “Embora fosse professor, inicialmente na Clínica Médica e posteriormente na Epidemiologia, minha trajetória, na EPM, acabou sendo o Projeto Xingu…”(Baruzzi, 2005).
Fotos: Hélio Carlos Mello

Pró-Reitorias

Unidades universitárias

Campi

Links de interesse