Festival tem o objetivo de tornar acessível o saber científico

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O Researcher Connect foi financiado pelo Newton Fund e pela Fapesp 

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Congresso reuniu mais de 1.600 participantes de 46 países, maior participação da história do evento

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Evento de abertura contou com cerca de 800 participantes de diversos países, além da presença de autoridades locais, nacionais e de órgãos internacionais

 

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Quinta, 01 Setembro 2016 08:31

ICT/Unifesp assina convênio com o IPT/SP

O trabalho envolverá alunos da universidade e profissionais do Núcleo de Bionanomanufatura do Instituto de Pesquisas Tecnológicas

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Segunda, 29 Agosto 2016 13:49

Convite para a abertura do ICSEMIS 2016

Dia 31 de agosto, às 18h, no Mendes Convention Center - Auditório Saturno - Avenida Francisco Glicério, nº 206, Santos/SP

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Estudo desenvolvido por grupo de pesquisadores da Unifesp será apresentado durante Congresso Internacional de Ciências e Medicina do Esporte

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Quarta, 25 Maio 2016 15:02

Na ciência, é preciso ser anarquista

Denunciado como subversivo durante a ditadura militar, o hematologista Michel Rabinovitch estuda há 70 anos, entre outros temas, células cancerígenas e, atualmente, foca sua atenção em moléculas com efeito antitumoral. Sempre bem-humorado, afirma: “se você não brincar, não descobre ciência”

Ana Cristina Cocolo

Fotografia de Michel Rabinovich, ele olha para a câmera, tem cabelos brancos e usa uma camisa xadrez

Infância feliz

Michel Rabinovitch não se arrepende de não ter seguido a profissão do pai russo, Betzabel Rabinovitch, engenheiro civil, do qual fala com orgulho sobre a vinda da Suíça, onde se formou, para o Brasil em 1923, e dos prédios que ainda existem no sul do país e em São Paulo construídos pela empresa de engenharia Monteiro, Heinsfurter e Rabinovitch, da qual o pai era sócio. “Um dos prédios mais antigos da Santa Casa de Misericórdia foi construído por eles”, conta.

Foi em São Paulo, que Betzabel conheceu a ucraniana Anita Zlatopolsky. Da união, nasceram três filhos: Kelly Cecília (falecida em 2015) e os gêmeos Michel e Gregório Benjamin.

Rabinovitch lembra das brincadeiras na casa onde morava e do suntuoso palacete dos tios Jacob e Eugenia Zlatopolsky (irmã da sua mãe), ambos localizados na rua Piauí, em Higienópolis; das aulas no Colégio Rio Branco e das viagens ao litoral do Guarujá, pela Estrada Velha de Santos.

Os tios maternos também eram donos de uma tipografia, no bairro do Brás, e de uma papelaria na Rua São Bento, junto da Praça do Patriarca, no centro da cidade. No entanto, a morte de Jacob e o encolhimento econômico do país, em 1932, obrigou a tia a mudar-se para um bairro mais humilde, no centro da cidade, onde montou um ateliê de costura.

Com a morte do pai, em 1940, e da mãe, em 1941, Rabinovich e os irmãos foram morar com Eugenia Zlatopolsky, da qual ele fala com admiração. “Ela foi maravilhosa conosco. Mulher forte, inteligente e culta. Morreu com mais de 90 anos. Lia e falava seis idiomas, sem nunca ter pisado em uma universidade”.

Cinco fotos da infância de Michel

As várias fases da infância do pesquisador em São Paulo

A escolha pela área de Hematologia não surgiu por acaso na vida do médico e pesquisador Michel Pinkus Rabinovitch, 90 anos. Aos 15 anos, quando estava se preparando para ingressar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), no curso de Engenharia Civil, profissão do falecido pai Betzabel, mudou radicalmente a área escolhida ao perder a mãe Anita, então com 46 anos, para uma leucemia aguda. Entre o diagnóstico e sua morte foram apenas três semanas. Um ano antes, o pai, de 47 anos, havia morrido em decorrência de um tumor no rim.

Um dos seus primeiros artigos científicos, uma revisão da literatura, trata justamente dos aspectos citoquímicos da célula leucêmica. Depois, inúmeros outros vieram em sequência, como resultado de uma dedicação de mais de 70 anos à Ciência, iniciada em 1946 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Eu já sabia que queria ser pesquisador. Cabulava as aulas de clínica para trabalhar no laboratório e, ainda no quarto ano da graduação, publiquei meu primeiro trabalho”, conta ele, que se especializou na área de Ciências Biomédicas e teve como guru o eternizado amigo Michel Abujamra. “Nunca fiz um parto em toda a minha vida, pois sabia que não era a área clínica que eu queria seguir”. 

Antes de entrar em Medicina, Rabinovitch encarou o curso preparatório, chamado de pré-médico, que ocorria no quarto andar do prédio da FMUSP. Lá, tinha aulas de Matemática, Português, Biologia, Botânica, Latim, entre outras. Na época, também fazia algumas traduções do inglês para o jornal Crônicas Israelitas, órgão informativo da Congregação Israelita Paulista.

Logo no início do curso médico, conheceu o professor José Oria, um dos precursores da Hematologia Morfológica, médico interessado em música e literatura no Brasil, que lhe abriu as portas do Laboratório de Histologia e Embriologia da FMUSP. No quinto ano da graduação já dava aulas de laboratório para alunos do segundo.

Em 1949, o pesquisador concluiu o curso médico e dois anos depois o doutorado. No ano seguinte, casou-se com Íria Mariani, técnica de laboratório de Hematologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. A docência em Histologia e Embriologia aconteceu em 1953, mesmo ano em que se separou de Íria e partiu para os Estados Unidos como bolsista da Fundação Rockefeller por dois anos. Nesse período passou pelo Departamento de Anatomia da Universidade de Chicago, fez um curso no Marine Biological Laboratory (Woods Hole) e trabalhou junto com Walter Plaut – no Laboratório do respeitável professor, biólogo celular e humanista Daniel Mazia –, no Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Antes de voltar para o Brasil no começo de 1955, Rabinovitch visitou o Instituto Rockefeller, em Nova Iorque, e, lá, demonstrou que havia nucléolos nas células hepáticas, contrariando a opinião de Alfred Mirsky, importante membro do instituto. “Esse episódio me ajudou a ser aceito na instituição em 1964, quando tive que sair do país devido ao regime militar. Mirsky não havia me esquecido”, lembra.

Em 1959, foi nomeado professor adjunto de Histologia e Embriologia da FMUSP, onde permaneceu trabalhando por 15 anos, e ajudou a despertar ainda mais o gosto da pesquisa em estudantes que, anos mais tarde, tiveram seus nomes reconhecidos dentro e fora do país, como é o caso de Ricardo Renzo Brentani – um dos principais nomes no mundo em pesquisas sobre câncer –, Thomas Maack – importante pesquisador na área de rime peptídeos, com mais de 100 artigos publicados e cerca de 7 mil citações na literatura científica –, Sergio Ryuzo Dohi, Jacob Kipnis, Nelson Fausto, Azzo Widman, Bernardo Liberman, José Gonzales, Sergio Henrique Ferreira, José F. Terzian, Mauricio Rocha e Silva Filho e Waltraut Helene Lay. “Posso dizer que esses 12 pesquisadores foram meus filhos e tenho muito orgulho disso”. Nessa época, Rabinovitch também colaborou com Itamar Vugman, antes dele ir para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP). 

Uma de suas descobertas ocorreu em 1961, dentro do Departamento de Zoologia da Universidade da Califórnia, Campus São Francisco, nos EUA. Lá, desvendou um simbionte responsável pela incorporação de precursores radioativos no DNA do citoplasma da Amoeba proteus; simbionte jocosamente conhecido no laboratório como “rabinossoma”, em referência ao seu apelido “Rabino” que os colegas utilizam na FMUSP.

Ameaçado pelo regime militar em 1964, Rabinovitch não chegou a ocupar a cadeira de professor de Biologia na Universidade de Brasília (UnB), para a qual se candidatou e foi nomeado no dia 1º de abril de 1964. Deixou o Brasil por 33 anos, passando pelos Estados Unidos e pela França, países que o acolheram e nos quais contribuiu com importantes pesquisas em várias instituições. Nelas, também, treinou vários brasileiros. “No mesmo dia em que fui convidado pela UnB, em 1º de abril, começou a ditadura. Foi uma coincidência incrível. Devo minha carreira internacional aos militares”, afirma ele, que atuava muito pouco politicamente. “Nunca fui comunista. Sou anarquista da subespécie pacifista. No entanto, tive alunos ativos, trotskistas, comunistas, e fui acusado de ser mentor desses estudantes pelo professor Geraldo de Campos Freire, que era o principal repressor dentro da FMUSP”. 

Ele conta que chegou a questionar Freire do que estava sendo acusado. “O professor me respondeu que minha consciência devia saber”.

Foto em preto e branco mostra Michel Rabinovitch ao lado dos pesquisadores, dois homens e uma mulher

Aos 30 anos, como professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), recebe pesquisadores poloneses (centro) no campus

Denunciado por Luiz Carlos Uchôa Junqueira, como perigoso, à agência federal de investigação estadunidense, FBI (Federal Bureau of Investigation) e à polícia brasileira, o médico conta que vários de seus colegas foram presos, como Thomas Maack e Luiz Hildebrando Pereira da Silva. “Fui levado de Ribeirão Preto para São Paulo no fusca do amigo Mauricio Rocha e Silva Filho, para refugiar-me na casa do meu primo José Mindlin por cerca de uma semana”, lembra. “Foi nesse período que recebi uma proposta de emprego, por parte do Walter Plaut, em Madison, capital do Estado de Wisconsin. Mas, optei pela Universidade de Rockefeller, onde dois pesquisadores, James Gerald Hirsch e Zanvil A. Cohn (ambos falecidos), desenvolviam uma importante linha de estudo de pinocitose e lisossomas”. Os lisossomas são organelas celulares responsáveis pela digestão de partículas externas e pela renovação de estruturas celulares. 

Lá, Rabinovitch trabalhou com Hirsch e Cohn. A recepção fraterna do professor pelos pesquisadores e a parceria de cinco anos selou uma amizade que continuou por décadas. Rolin D. Hotchkiss (falecido em 2004) é outro grande amigo que o pesquisador fez em Rockefeller.

Em 1968, Rabinovitch casou-se com a suíça Odile Levrat, então técnica de laboratório da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, onde o pesquisador trabalhou até 1969, como associado de pesquisa no Laboratório de Fisiologia Celular e Imunologia. Assumiu, ainda em 1969, o cargo de professor associado de Biologia Celular da Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque, passando a titular quatro anos depois. Lá teve a oportunidade de reencontrar Victor e Ruth Nussenzweig e seus filhos, companheiros e amigos para sempre. 

Fotografia em preto e branco de Michel com suas filhas pequenas

Com as filhas, Miriam e Caroline (amparada com as mãos), durante sua estada nos EUA, há 43 anos

Da relação com Odile, que durou oito anos, teve duas filhas estadunidenses: Miriam, que se mudou para Paris e mais tarde casou-se com o francês Serge Hascoet, e Caroline, que continuou no Brooklyn (Nova Iorque), ambas formadas em Literatura. Miriam, que faleceu no ano retrasado, aos 46 anos, tem uma filha, Eleanor, da qual o avô fala com muito orgulho, apesar de vê-la pouco, devido à distância. Caroline, 46 anos, é uma escritora reconhecida no seu país de origem. 

Desgostoso com os acontecimentos no Brasil e com família formada no exterior, Rabinovitch não voltou, em 1979, quando foi promulgada a lei da anistia, pelo presidente João Batista Figueiredo. “O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, me deixou tão revoltado que não tive dúvida. Entreguei meu passaporte no consulado brasileiro, em Nova Iorque, e fiquei dois anos sem nacionalidade, não podendo sair dos EUA, até conseguir me tornar um cidadão americano”, conta ele, que chegou a ser questionado pelo FBI se tinha escrito algum artigo no jornal O Bisturi, publicação do Centro Acadêmico da FMUSP. “Quando voltei ao Brasil, em 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso me devolveu a cidadania brasileira e o reitor da USP, José Goldemberg, me aposentou. Hoje, tenho orgulho de ser professor emérito de lá”. 

Em 1980, o pesquisador passou pela Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, onde trabalhou com Leishmania junto a Jean Pierre Debet, e manteve bastante contato com o amigo Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Apesar de diversos colegas o chamarem para voltar a atuar no Brasil, um convite para trabalhar como mestre de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), no Instituto Pasteur, em Paris, quatro anos depois, marcou uma nova fase na vida do pesquisador. Na instituição, passou a chefiar o laboratório da unidade de Imunoparasitologia, onde se aposentou em 1994. 

Desde 1997, Rabinovitch é professor colaborador na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), onde recebeu um laboratório e foi orientador de diversos alunos da pós-graduação. Sua última orientação ocorreu em 2007. Hoje, o pesquisador, que continua acolhido na instituição, dedica seu tempo à revisão de trabalhos científicos sobre várias drogas não convencionais (disponíveis no mercado) com efeitos antitumorais, como Metfornima, Propranolol, Resveratrol, entre outras.

É preciso fortalecer as cadeiras de Oncologia Experimental no país

Fotografia atual de Michel, ele está olhando em um microscópio

Apesar de aposentado, Rabinovitch não cessou as pesquisas

Michel Rabinovitch está debruçado no estudo de drogas antitumorais reposicionadas, ditas não convencionais, entre as quais várias aprovadas no tratamento de outras condições e doenças, como a aspirina, o propranolol, a metformina, o resveratrol e a cloroquina. 

”Há uma série de moléculas. Tenho uma lista de cerca de 90 delas com atividade antitumoral comprovada em animais, mas que infelizmente não despertaram o interesse de investidores e indústrias farmacêuticas, por não terem sido canonizadas pelo Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, e continuam ignoradas nos tratados recentes de quimioterapia do câncer”, afirma. “Estas drogas não convencionais, que não fazem parte do armamento oncológico oficial, podem cooperar com os quimioterápicos convencionais, aumentando a atividade desses medicamentos, sem onerar a toxicidade ao paciente”. 

De acordo com ele, em todo o mundo dito livre, os custos para o tratamento de câncer pelas moléculas convencionais são muito altos e o desenvolvimento e aprovação de novas drogas pelo FDA pode custar centenas de milhões de dólares e levar até 17 anos para elas entrarem no mercado. Rabinovitch espera, no entanto, despertar o interesse de outros pesquisadores para levar adiante a proposta de associar drogas auxiliares da quimioterapia, duas a duas ou três a três, em estudos pré-clínicos, avaliando seus efeitos em culturas celulares em embriões normais de galinha ou enxertados com tumores humanos”, explica. “A julgar pela literatura, as drogas auxiliares foram geralmente utilizadas uma a uma, raramente em combinações de duas e quase nunca em combinações de três”.

Algumas das drogas não convencionais, com atividade antitumoral, que recebem mais atenção do pesquisador

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina

3.152

Cloroquina

971

Metformina

2.460

Propranolol

1.057

Resveratrol

1.685

Dicloroacetato

151

 

Em contraste, referências às combinações de duas moléculas adjuvantes no tratamento de câncer são extremamente raras (citados os dados de seis fármacos, mas, de acordo com o pesquisador, há muitos outros disponíveis)

Droga

Nº de Referências Bibliográficas

Aspirina / cloroquina

4

Aspirina / metformina

37

Aspirina / propranolol

8

Aspirina / resveratrol

11

Cloroquina / resveratrol

4

Cloroquina / Dicloroacetato

1

Metformina / cloroquina

10

Metformina / resveratrol

13

Metformina / Dicloroacetato

4

Propranolol / cloroquina

1

Fonte: Michel Rabinovitch

Para o pesquisador, esse protocolo, com as drogas auxiliares sós ou combinadas às drogas convencionais, além de gerar economia aos cofres públicos, abre a possibilidade de reduzir as doses de drogas tóxicas comumente utilizadas para o tratamento do câncer. 

Rabinovitch pretende concluir essa análise e submeter um artigo para publicação. “O Brasil precisa ser mais participativo, não somente em Oncologia Clínica, mas também na Experimental”, diz. “É preciso fortalecer cadeiras de Oncologia Experimental nas universidades de Ciências Básicas e investir não apenas em novas drogas, mas também em combinações de drogas já existentes (o que talvez dê menos prestígio, mas seja útil), com ação comprovada em animais, para podermos baratear os medicamentos contra câncer e torná-los mais acessíveis”.

 

Publicado em Edição 06
Quarta, 25 Maio 2016 09:34

Contágio, miasmas e microrganismos

Uma visão retrospectiva das principais concepções sobre a origem das doenças transmissíveis até o estabelecimento da teoria microbiana em meados do século XIX

Celina M. Brunieri

Agradecemos a Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, professora doutora do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, pelas sugestões e críticas apresentadas, as quais foram essenciais à elaboração deste artigo. A referida docente é especialista em História da Ciência e doutora em Ciências Biológicas na área de Genética pela Universidade Estadual de Campinas, tendo cumprido programa de estudos (doutorado sandwich) no Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Obteve ainda o título de pós-doutorado no Grupo de História e Teoria da Ciência, vinculado à Unicamp.

Quadro O Triunfo da Morte, onde são retratados esqueletos e corpos, em dezenas de tipos de morte

O Triunfo da Morte (cerca de 1562). Pieter Bruegel, o Velho

No início deste ano, o Instituto Butantan implantou a fase III dos testes clínicos relativos à avaliação da eficácia da vacina contra a dengue, que utiliza vírus geneticamente modificados e é produzida em parceria com o National Institutes of Health (NIH). Essa notícia – divulgada pelos meios de comunicação – não causou surpresa porque nos habituamos a conviver com as conquistas da ciência atual – no caso, a produção de imunobiológicos. Todavia, a construção da ciência e de seu corpo teórico foi um processo gradativo, que demandou a contribuição de vários agentes e a constante superação de desafios. É útil relembrar que, de forma empírica, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) obteve êxito na imunização contra a varíola, mediante o emprego de um método semelhante ao da variolização, porém mais seguro: inoculou em indivíduos a secreção de pústulas que surgiam nos portadores da “varíola das vacas” (cowpox), pois esta doença, quando adquirida pelos ordenhadores, tornava-os resistentes à varíola humana. 

Na história da Medicina sucederam-se várias explicações sobre a causa das doenças transmissíveis até a identificação dos microrganismos como agentes patogênicos, o que ocorreu na segunda metade do século 19. A partir daí, pôde-se estabelecer a teoria microbiana, fundamentada em evidências empíricas. Para a elaboração desse amplo painel consultamos, entre outras fontes, as obras: Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis, de Roberto de Andrade Martins e colaboradores, e Divided legacy: a history of the schism in medical thought, de Harris L. Coulter.

Antiguidade

Os antigos povos da Mesopotâmia acreditavam que os deuses infligiam doenças aos homens quando estes transgrediam as regras morais ou descumpriam as obrigações religiosas. Embora predominasse o caráter religioso na Medicina praticada por esses povos, reconhecia-se que várias doenças tinham causas naturais, para as quais se empregavam medicamentos extraídos de plantas. 

A Medicina religiosa indiana considerava que as orações e práticas mágicas tinham o poder de expulsar entidades vivas e invisíveis, que penetravam nos corpos, provocando o adoecimento. Eram também comuns os rituais de purificação, que deveriam ser cumpridos caso fossem cometidas ofensas contra os deuses ou ocorresse o contato com matérias impuras, como os corpos cadavéricos.

Grécia

No início, a Medicina na Grécia Antiga era uma mescla de concepções mágicas e religiosas e de receitas práticas para o tratamento das doenças. Em geral, atribuíam-se aos deuses tanto a origem quanto a cura de doenças que atingiam muitos indivíduos ao mesmo tempo, como as epidemias. 

Por volta do século 6º a. C., o mundo grego passou por profundas transformações, que se estenderam também à Medicina. Houve um enfraquecimento das crenças mitológicas – não abandonadas completamente –, buscando-se explicar as enfermidades com base no raciocínio humano. Nessa época, alguns médicos sugeriram que a saúde seria o resultado do equilíbrio entre determinados poderes do corpo (úmido, seco, frio, quente, amargo e doce) e que a doença seria o resultado do excesso ou da desarmonia entre eles. Concepções semelhantes apareceram nos tratados que constituem a Coleção Hipocrática, cuja autoria é apenas parcialmente atribuída a Hipócrates (460-370 a. C.). Em alguns desses tratados, a saúde é relacionada à proporção correta entre os quatro tipos de humor ou líquido que constituíam o corpo humano: o sangue, a fleuma (fluidos transparentes), a bílis amarela e a bílis negra.

Hipócrates adotava uma conduta empírica em relação às doenças e, de modo geral, não procurava explicar suas causas. Baseava-se na observação e registro dos sintomas, na previsão dos estágios evolutivos e na prescrição de tratamento – este incluía um regime alimentar adequado, atividade física e uso de medicamentos ou tratamentos que eliminassem os humores em excesso, como os diuréticos e laxativos.

Aristóteles (384-322 a. C.), filósofo da Antiguidade que não deixou obras específicas sobre Medicina, contribuiu com suas reflexões para que a doutrina existente nessa área fosse organizada em um sistema racional. Contrariamente à posição hipocrática, a filosofia de Aristóteles recomendava o estudo das causas dos fenômenos e a obtenção de um conhecimento seguro do mundo material, o que foi aplicado à Medicina racionalista grega.

Em todos os momentos históricos descritos, não havia a noção de que a doença pudesse transferir-se de uma pessoa a outra. Prevalecia a crença de que o odor fétido do ar, o tipo de alimentação e as condições climáticas poderiam afetar o equilíbrio dos humores e, assim, provocar as doenças.

Roma

Durante o Império Romano, os médicos romanos apropriaram-se de grande parte do conhecimento produzido pelos gregos, embora tivessem oferecido contribuições originais como o interesse pela transmissão das doenças e o estudo dos venenos. Nessa época, aceitava-se que a saúde e a doença dependiam das condições climáticas e da alimentação como no mundo grego. As epidemias, porém, eram atribuídas aos fenômenos celestes – os quais, segundo a concepção vigente, estavam relacionados às condições climáticas - e à passagem dos cometas. 

Galeno de Pérgamo (129 - c. 200 d. C.), médico da corte imperial e autor de extensa obra, adotou a ideia dos humores, presente nas obras da Coleção Hipocrática. Introduziu a concepção dos temperamentos, que estariam ligados à predominância de um tipo de humor, o que afetaria os aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. 

Motivadas pela crença de que o ar dos pântanos e o mau odor de lugares fechados podiam produzir doenças, as autoridades romanas instalaram sistemas de coleta de esgotos e de fornecimento de água à população, por meio de aquedutos. Tais medidas, juntamente com os banhos públicos, tiveram impacto positivo sobre a saúde pública.

Idade Média

Litografia, que mostra uma carroça com corpos em meio a uma cidade / Accusing the anointers in the great plague of Milan in 1630; a scene from Manzoni's 'I promessi sposi'. Lithograph by G. Gallina after A. Manzoni

As epidemias de peste ceifavam milhares de vidas e causavam pavor nas populações. Como não havia tratamento para a doença, adotavam-se medidas – pouco eficazes – como a aspersão de perfumes no ambiente, a restrição no contato com os enfermos e a quarentena. Somente em 1894 foi descoberto o bacilo da peste (Yersinia pestis), inoculado por meio da picada de pulga

Com a queda do Império Romano, ressurgiu a crença de que as doenças resultariam da punição divina, da intervenção demoníaca ou da manipulação de poderes ocultos por bruxas e feiticeiros. A incidência da lepra ou hanseníase – cuja transmissão por contágio era intuitivamente admitida – aumentou nos séculos 12 e 13. Excluídos do convívio social, os leprosos eram vistos com medo e desconfiança, pois as deformidades físicas eram, segundo a concepção vigente, sinais exteriores da corrupção das almas.

As epidemias de peste causavam horror e pânico nas populações, que reconheciam seu caráter contagioso. Irrompiam em surtos periódicos e eram atribuídas às conjunções planetárias e a outros fatores. De 1347 a 1351, a peste negra (ou bubônica) – cujo nome está relacionado às manchas negras que surgiam na pele, resultantes do sangramento subcutâneo – vitimou um terço da população da Europa. A extensão desse flagelo só foi comparável ao que ocorreu no período de 542 a 750, quando a doença atingiu os países do entorno da bacia do Mediterrâneo, dizimando cerca de 40% de seus habitantes. 

Como hoje se sabe, a peste é principalmente transmitida pela pulga, que se abriga na pelagem dos ratos e pode transferir-se para o homem. Descrita nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica é combatida pelo uso de antibióticos. As precárias condições de higiene existentes nas cidades medievais favoreciam a proliferação de roedores, que – transportados por navios – alcançavam os portos de outras cidades.

Período renascentista

No século 16, Andreas Vesalius (1514-1564) realizou estudos de anatomia humana com base na dissecação de corpos, contrapondo-se às descrições de Galeno. William Harvey (1578-1657) propôs o modelo circular e contínuo para a circulação sanguínea.

O termo contágio foi empregado pelo médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553), que formulou uma nova tese sobre a transmissão de doenças. Os agentes de enfermidades como a lepra, peste bubônica e varíola seriam germes vivos ou sementes, que poderiam contaminar pessoas saudáveis. Invisíveis a olho nu, penetrariam nos corpos e neles se reproduziriam. Haveria três formas de contágio: pelo ar, contato direto entre pessoas e meios materiais que transportariam os germes.

Século 17

A invenção do microscópio permitiu desvendar o universo dos seres invisíveis por sua dimensão reduzida, os quais não eram ainda identificados como agentes de enfermidades. Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante e naturalista holandês, que – à época – foi um dos construtores desses aparelhos, registrou suas observações e descreveu com precisão os “animálculos” que se moviam em meio aquoso.

Thomas Sydenham (1624-1689) estudou as enfermidades epidêmicas provenientes dos pântanos, designadas por “febres”, associando-as a diferentes partículas infecciosas. Por sua vez, Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) designou por miasmas as emanações dessas áreas alagadiças, as quais eram resultantes da putrefação de matéria orgânica. Tais emanações poderiam produzir diferentes tipos de doenças, ressalvando-se o caso da malária ("mau ar"), que seria causada por pequenos animais que penetrariam no corpo e passariam à corrente sanguínea.

Século 18

A causa das doenças era, então, atribuída aos miasmas – relacionados a qualquer matéria orgânica em decomposição – e aos odores fétidos que exalavam. As medidas de higiene adotadas nas residências justificavam-se pela necessidade de afastar o mau odor gerado por resíduos e dejetos.

Século 19

No início desse século, admitia-se que o contágio ocorria por meio de um “veneno” – também chamado “vírus” – e sempre de uma pessoa a outra. A possibilidade de transmissão de doença pela água – como no caso da cólera – ou por vetores não era cogitada.

Entre 1835 e 1855, vários estudiosos – como Agostino Bassi, Antoine Donné e Félix Pouchet – associaram o aparecimento de doenças a seres microscópicos ou parasitas, gerando conhecimentos ainda isolados, que prefiguravam uma teoria microbiana das doenças, capaz de explicar e prever os fenômenos. Registre-se, entretanto, que o termo micróbio não era ainda utilizado. 

Na década de 1860, as principais contribuições para o estabelecimento dessa teoria originaram-se das investigações sobre o antraz e a pebrina. Casimir Davaine (1812-1882) – que, em parceria com Pierre Rayer (1793-1867), descobrira corpúsculos filiformes no sangue de carneiros mortos pelo antraz – efetuara testes de transmissão da doença por inoculação de sangue contaminado em animais sadios. Os novos experimentos forneceram provas conclusivas, embora não aceitas de forma unânime, de que os corpúsculos ou bactérias eram a causa e não o produto da doença. 

O estudo da pebrina – doença que dizimava as criações do bicho-da-seda – foi desenvolvido paralelamente por Louis Pasteur (vide box) e Antoine Béchamp (1816-1908). Coube a este último elucidar a questão relativa ao corpúsculo que causava a infecção das lagartas: tratava-se, na verdade, de um microrganismo parasita e não de um grânulo tóxico. 

A consolidação da teoria microbiana ocorreu na década de 1870 com os trabalhos de Robert Koch (vide box), nos quais foram estabelecidas as regras para a determinação do papel de um microrganismo como agente específico de uma doença, após sua correta identificação e crescimento em meio de cultura. 

Diante do exposto, pôde-se perceber que – até a concepção dessa teoria – houve um longo percurso histórico de mais de 20 séculos, durante os quais a origem das doenças foi associada ao desequilíbrio dos humores, às condições atmosféricas e à má qualidade do ar.

Louis Pasteur (1822-1895)

Desenho de Louis Pasteur em um laboratório

Pasteur solucionou problemas oriundos da fermentação do leite e do vinho e foi o responsável pela elaboração da vacina humana contra a raiva, a primeira produzida em laboratório. Com doações particulares, criou em 1888 o Instituto Pasteur, que formou gerações de cientistas e hoje se dedica ao estudo de doenças infecciosas

Em 1847 doutorou-se em Física e Química pela Escola Normal Superior de Paris e, em 1854, foi nomeado decano da Faculdade de Ciências de Lille. Integrou os colegiados da Academia de Ciências e da Academia de Medicina, em Paris.

Seus primeiros trabalhos, na área de cristalografia, focalizaram o dimorfismo e as propriedades ópticas dos cristais do ácido tartárico. Os estudos que efetuou sobre a fermentação láctica, alcoólica e butírica mostraram que esse processo resultava da ação de microrganismos sobre a composição química do meio, com a formação de novas moléculas. Solucionou a questão relativa à acidificação do vinho, propondo o aquecimento do líquido à temperatura de 55ºC, medida esta que originou o método de pasteurização.

Pasteur desenvolveu vários experimentos que traziam evidências favoráveis à existência de microrganismos em determinadas regiões da atmosfera (panspermia limitada), os quais contaminavam líquidos nutrientes, previamente fervidos. Travou uma célebre polêmica com Félix Pouchet (1800-1872), médico e naturalista, cujos testes experimentais corroboravam a geração espontânea de seres microscópicos, a partir da matéria orgânica em decomposição. A disputa foi arbitrada pela Academia de Ciências, que se inclinou para o lado de Pasteur.

Com base no amplo espectro de pesquisas que desenvolveu para identificação de patógenos que atuam sobre o organismo do homem e de alguns animais superiores, Pasteur sustentou que a causa das doenças infecciosas eram microrganismos, que deveriam ser combatidos por medidas profiláticas.

Embora, na época, os mecanismos de imunização não fossem bem conhecidos, Pasteur guiou-se por suas hipóteses e produziu vacinas contra a cólera de galinhas e o antraz em carneiros, atenuando a virulência dos agentes etiológicos. Utilizando-se da medula espinal extraída de coelhos infectados, desenvolveu a vacina humana contra a raiva, cuja eficácia e segurança foram gradativamente aprimoradas.

Robert Koch (1843-1910)

Imagem em preto e branco de Robert Kock

Para o estudo dos microrganismos, Koch testou novos meios de cultura, utilizou corantes que permitiam distinguir as estruturas internas e aperfeiçoou técnicas de fotografia microscópica

De 1862 a 1866, estudou Medicina na Universidade de Göttingen, tendo sido aluno de Jacob Henle, patologista e anatomista. Trabalhou como assistente no Hospital Geral de Hamburgo, foi médico voluntário na guerra franco-prussiana e assumiu o cargo de médico distrital em Wollstein (Alemanha). Em 1876 publicou um estudo sobre os experimentos com o antraz, no qual foram descritos os postulados que deveriam ser atendidos para a validação da pesquisa bacteriológica.

Mediante testes sucessivos de inoculação sanguínea, Koch confirmou a transmissão do antraz entre camundongos e a presença de corpúsculos filiformes no sangue dos roedores mortos. Decidiu isolá-los do organismo doente, inserindo-os em diversos meios de cultura. A observação das lâminas ao microscópio revelou que eram microrganismos que podiam reproduzir-se. Por fim, verificou que induziam a doença em animais saudáveis.

Em 1878 mostrou que as infecções sépticas tinham origem bacteriana, relatando os achados em uma monografia. Em 1882 identificou – por meio de corante especial – o bacilo causador da tuberculose, cuja transmissão fora verificada por Julios Cohnheim (1839-1884). Utilizou soro de sangue bovino coagulado como meio de cultivo e inoculou vários animais, que adoeceram. Elaborou a tuberculina, a partir da cultura do bacilo em caldo glicerinado, que não demonstrou eficácia na cura da doença.

Em 1885 foi nomeado professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim e, em 1891, tornou-se diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, criado na mesma cidade para o prosseguimento de seus trabalhos. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã e, em 1905, recebeu o prêmio Nobel de Medicina.

Livros e artigos relacionados:

COULTER, Harris L. Divided legacy: a history of the schism in medical thought. Washington, D.C.: Wehawken Book Co., 1977. 3 v.

CZERESNIA, Dina. Do contágio à transmissão: ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1997. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/knm4c/pdf/czeresnia-9788575412565.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2015.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FERNANDES, Antonio Tadeu (Ed.). Infecção hospitalar e suas interfaces na área da saúde. São Paulo: Atheneu, 2000.

FREITAS, Celso Arcoverde de. Peste. In: VERONESI, Ricardo; FOCACCIA, Roberto (Ed.). Tratado de infectologia. São Paulo: Atheneu, 1996.

HEMPEL, Carl G. Filosofia da ciência natural. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. (Curso moderno de filosofia).

HOUAISS, Antônio (Ed.). Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1992.

MARTINS, Roberto de Andrade. Contágio: história da prevenção das doenças transmissíveis. Colaboração: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, Maria Cristina Ferraz de Toledo e Renata Rivera Ferreira. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1997. (Col. Polêmica).

MORGENBESSER, Sidney (Org.). Filosofia da ciência. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1979.

OLIVEIRA, J. Cândido de. Em louvor de Koch: a propósito da descoberta do bacilo da tuberculose. Acta Médica Portuguesa, Lisboa, v. 4, n. 3, p. 195-199, 1983. Disponível em: <http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/3789/3047>.Acesso em: 3 fev. 2016.

PINTO, Paulo G. Hilu da Rocha. O estigma do pecado: a lepra durante a Idade Média. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 1995. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v5n1/07.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

PORTER, Roy. Cambridge: história ilustrada da medicina. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

ROBERT Koch - Biographical. Nobel Lectures, Physiology or Medicine 1901-1921. Amsterdã: Elsevier, 1967. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1905/koch-bio.html>. Acesso em: 12 mar. 2016.

ROONEY, Anne. A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. São Paulo: M. Books do Brasil, 2013.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. História da ciência. Os grandes erros da ciência. São Paulo: Segmento-Duetto/ Ediouro, [s.d.]. Edição especial nº 6.

TERENZI, Hernán. Golpe fatal na geração espontânea. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, v. 39, n. 234, jan.-fev. 2007. Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/banco-de-imagens/lg/protected/ch/234/memoria.pdf/at_download/file>. Acesso em: 15 fev. 2016.

VERGARA, Moema de Rezende. Os cadernos de laboratório de Pasteur: uma reflexão sobre o público e o particular nas biografias de cientistas. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 445-448, maio-ago. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v11n2/14.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2016.

Publicado em Edição 06

Especialista em ciência e tecnologia, ex-diretor acadêmico do ICT da Unifesp – Campus São José dos Campos e atual secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, Armando Milioni fala sobre os desafios para o desenvolvimento da indústria brasileira no cenário mundial

Ana Cristina Cocolo

Fotografia do professor Armando Milioni, ele está em frente a uma quadro cheio de anotações - gráficos e fórmulas matemáticas

Ajudar a estabelecer estratégias para alavancar a inovação tecnológica no Brasil e reposicionar a indústria nacional, de acordo com sua relevância e competitividade, dentro e fora do país, são as principais tarefas assumidas pelo engenheiro mecânico Armando Zeferino Milioni, nomeado, em agosto, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O atual secretário é pesquisador e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) – onde também se graduou e concluiu o mestrado – e doutor em Engenharia Industrial e Ciências de Gestão pela Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos. Atua nas áreas de pesquisa operacional e Estatística Aplicada, com ênfase em análise de envoltória de dados (DEA) e modelos de previsão. 

Milioni participou da equipe pro tempore que implantou a Universidade Federal do ABC, em 2005, com uma nova proposta acadêmica: os bacharelados interdisciplinares (BIs). Nos cinco anos em que permaneceu na UFABC, ocupou as funções de pró-reitor de pós-graduação, vice-reitor e chefe de gabinete. Em 2010, foi convidado a trazer os BIs para o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos, onde exerceu o cargo de diretor acadêmico até dezembro de 2012. 

Segundo ele, os dados referentes ao período de 2008 - 2011 da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam para uma queda da taxa de inovação na indústria. O secretário pondera, entretanto, que esses dados devem ser analisados com cuidado, pois no mesmo intervalo cresceram as taxas de emprego no setor, bem como o número de indústrias que apostaram no desenvolvimento de novas tecnologias.

 

Entreteses - A UFABC foi pioneira na implantação do bacharelado interdisciplinar (BI) nas universidades federais do país. Quantas universidades federais brasileiras, além da Unifesp, já adotam esse novo sistema de ensino?

Armando Milioni - O número vem crescendo rapidamente. Já eram 12 em 2010 e são 16 em 2014. E também há iniciativas fora do sistema federal, como é o caso do ProFIS, da Unicamp. Mas é importante esclarecer que a terminologia BI é usada de forma genérica para iniciativas que não são idênticas entre si.

E. Quais são as vantagens desse novo modelo de ensino para os estudantes e para as empresas?

A.M. Há várias. Para o aluno, por exemplo, retarda a decisão de escolha da carreira, despertando vocações mais autênticas. Esse é um velho problema da educação superior no Brasil. Em nosso país, apenas 1/3 daqueles que se graduaram em um curso superior trabalha em atividades ligadas à área de sua formação. Os BIs também estimulam o aluno a fazer escolhas e arcar com suas consequências. Ainda, induzem à autoaprendizagem, de grande valor na sociedade do conhecimento, na qual já vivemos. Esta última é um benefício também para o empregador, é claro, que terá um funcionário com capacidade autodidata, diplomado em menos tempo, com uma formação mais plural e mais abrangente, com possibilidades indefinidas de educação continuada e sem prejuízo da especialização aguda.

E. É possível dizer que a evasão nas universidades diminuiu com o BI?

A.M. Não creio, mas os BIs estão longe de ter atingido a maturidade necessária para que seus resultados possam ser medidos. Temo pela exigência de resultados de curto prazo em iniciativas dessa natureza.

E. O BI é uma tendência no Brasil? Como ele é visto em outros países?

A.M. Acredito que os BIs sejam uma tendência no Brasil. Em outros países, especialmente no mundo mais desenvolvido, já não há mais razão para se falar em tendência, pois eles são uma realidade. Há mais de dez anos transformaram-se no modelo comum de educação superior em praticamente toda a Europa. Nos Estados Unidos, existem há muitas décadas.

E. Quais foram as experiências adquiridas no exterior que o levaram a trazer essa nova proposta de educação superior?

A.M. No meu caso particular, nenhuma. Conheci o assunto quando compus a equipe pro tempore que implantou a UFABC. Foi lá que tomei conhecimento do bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, concebido por uma equipe de educadores, muitos deles da Academia Brasileira de Ciências, que era liderada pelo professor Luiz Bevilacqua. E lembro-me com clareza que reagi mal à novidade, ao tomar conhecimento dela. Gosto de me lembrar disso, pois me condiciona a controlar a natural rejeição ao novo, uma tendência que talvez se justifique do ponto de vista evolutivo, mas que pode ser muito negativa.

E. Houve resistência à implantação do BI no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Unifesp – Campus São José dos Campos? Em caso positivo, por quê?

A.M. Sim, houve. É verdade que os estudantes já estavam descontentes com as dificuldades iniciais do campus, a falta de professores e de boas condições de infraestrutura, por exemplo. Creio que a implantação dos BIs acabou servindo como catalisador desse descontentamento que se materializou numa greve – felizmente nem longa nem violenta. Os próprios grevistas escreveram um documento deixando claro que não se opunham aos BIs e reconheciam seus bons fundamentos. Concluí, portanto, que faltaram mais debate e mais explicações. Em uma reunião do Conselho Universitário, reconheci esse fato e fiz questão de assumir minha parcela de responsabilidade por ele.

E. Os cursos de BI realmente colocam em prática a interdisciplinaridade? Há quem acredite que o modelo é um conjunto de disciplinas com conteúdos rebaixados.

A.M. É certo que os BIs podem ser melhorados e há grandes desafios a serem suplantados. Alguns deles vão demorar um pouco, como a geração de material bibliográfico novo e de qualidade, que leva tempo, ou a necessidade de convencer os docentes a ensinar de um jeito diferente do que eles aprenderam. Mas entendo que o balanço geral é positivo. Os BIs representam a desejável modernização de um projeto pedagógico bastante arcaico, que ainda é majoritariamente praticado no Brasil. Quanto ao conteúdo, creio ser o oposto. O conhecimento aprofundado faz parte da lógica dos BIs, mas ele não é imposto ao aluno, e é sim uma decorrência das escolhas e das aptidões naturais que o próprio aluno é estimulado a identificar.

Milioni, em frente a um avião. Ele está em um gramado e o dia está muito ensolarado, com o céu azul

Milioni e o BEM-120, também conhecido como Brasília, primeiro avião comercial pressurizado construído pela Embraer. Nos anos 1980, o engenheiro trabalhou em dois projetos relacionados a essa aeronave

E. Dado o fato de que as empresas, em grande parte, ainda não absorveram o significado do novo bacharelado, não existe o risco de que os formandos acabem enfrentando uma situação de desqualificação no mercado por conta da formação generalista? Como resolver isso?

A.M. Sim, esse risco existe e entendo que a forma de combatê-lo é a contínua divulgação do conceito, com paciência e perseverança. Mas acho também que o combate deve começar dentro de casa, digamos assim, e, nesse contexto, acho que a Unifesp tem uma lição de casa a fazer. Em inúmeras ocasiões, em reuniões do Conselho Universitário, lutei contra editais de concursos públicos para contratação de docentes que exigiam que os candidatos tivessem graduação em uma área específica. Admito que haja casos em que isso possa ser apropriado, mas presumo que eles sejam a exceção, não a regra. A exigência do título de bacharel em Matemática, por exemplo, como condição para que alguém se candidate a uma vaga de professor de Matemática, impede que todos os graduados com BIs concorram a essa vaga. E eu não vejo razão pela qual o graduado com determinado BI, que tenha concluído o doutorado em Matemática ou área afim, não possa competir por essa vaga.

E. Na qualidade de secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MTCI), como o senhor definiria as principais áreas de pesquisa em que o Brasil necessita investir, da graduação à pós-graduação, e que são foco prioritário para o desenvolvimento do país?

A.M. Precisamos investir na formação de engenheiros e cientistas. Dos 876 mil brasileiros que em 2012 receberam diploma de educação superior, 424 mil, ou quase 50%, graduaram-se em Administração, Direito ou Educação. Para cada bacharel em Matemática foram graduados 245 em Direito. Para cada bacharel em Física, 281 em Administração. Nada contra essas áreas em que graduamos muita gente, mas os números pequenos nas áreas técnicas preocupam. Nada tenho contra a iniciativa privada e sempre pensei nas instituições de ensino superior privadas como parceiras das públicas na missão de educar o povo brasileiro. É certo, todavia, que a enorme concentração de vagas no ensino superior privado no Brasil é em parte responsável pelos números citados. Isso é fácil de demonstrar. Para cada bacharel em Física graduado na rede pública em 2012, foram graduados 29 bacharéis em Direito. Na rede privada essa proporção foi de um para 1.848! Cabe repetir: 1.848 advogados para cada físico formado na rede privada. Aliás, a concentração do ensino superior privado no Brasil nos coloca na contramão do mundo desenvolvido, notadamente dos EUA e da Europa, onde o ensino superior público é absolutamente majoritário. Defendo a expansão da rede pública de ensino superior com ênfase – que não significa exclusividade – na oferta de vagas para a graduação e a pós-graduação de engenheiros e cientistas.

E. Qual a situação do país no cenário geral da ciência e tecnologia mundiais?

A.M. É sabido que a nossa ciência vai melhor do que a nossa tecnologia. Na primeira, os ganhos das últimas décadas foram notáveis. A National Defense University (NDU), do Departamento de Defesa Norte-Americano, publicou um estudo em que o Brasil aparece em 2020 como o 6º maior gerador de artigos científicos do mundo. Em 2040, seria o 4º, atrás apenas da China, EUA e Índia, nessa ordem. Como professor de Estatística, reluto diante de previsões de longo prazo, mas acho interessante que a NDU tenha publicado o estudo. Não estamos, todavia, conseguindo os mesmos resultados na geração de tecnologia, haja vista a lenta evolução na quantidade de patentes depositadas por brasileiros. Mas não creio que isso seja por deixarmos de fazer algo essencial. Construímos uma economia relutante em enfrentar as dificuldades técnicas por duvidar da nossa capacidade de resolvê-las. Aprendemos a nos satisfazer em exportar minério de ferro, borracha e café e a importar aço, pneus e café industrializado – o que, aliás, continuamos fazendo. Acredito que há que perseverar nas iniciativas em curso, aperfeiçoando-as continuamente, é claro, mas sem esmorecer.

E. O MCTI vem buscando parcerias de cooperação científica e tecnológica com diferentes nações. Como está esse “namoro” com outros países e quais as parcerias mais recentes que vislumbram bons frutos?

A.M. Vai bem. Logo nos primeiros dias de minha chegada ao MCTI, em fevereiro deste ano, tive a oportunidade de me reunir com uma delegação alemã do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), que trazia uma proposta muito interessante. Eles abriram um edital chamando propostas sobre terras-raras, que, aliás, é uma das áreas que o MCTI considera estratégica. Então, escolheram dez países e montaram uma delegação que visitou cada um deles, divulgando o edital. A ideia era estimular que grupos de pesquisa desses países se juntassem aos alemães na elaboração de propostas. A condição era que houvesse contrapartida das agências de fomento desses países. É uma ideia astuta, pois atinge dois objetivos simultaneamente desejáveis: alavanca o valor do edital que eles lançaram e estimula a internacionalização das pesquisas. Fiquei feliz em saber que o Brasil foi um dos dez países escolhidos, uma demonstração de confiança em nossos cientistas e em nossas agências de fomento.

E. A política de desenvolvimento científico e tecnológico no país assume uma orientação adequada ao nosso perfil social?

A.M. Como professor de Estatística, costumo dizer que a melhor expressão que descreve o Brasil é “variância enorme”. E isso costuma ser verdade em qualquer indicador que você escolher. A renda, que é a mais citada, é apenas um deles, mas as consequências se manifestam na educação, saúde, habitação, enfim, na qualidade de vida. Eu diria, contudo, que desde a redemocratização, e com maior ênfase nos últimos 20 anos, as políticas públicas nacionais passaram a ser orientadas no sentido de diminuir nossas enormes desigualdades. Entendo que a política de desenvolvimento científico e tecnológico segue no mesmo caminho. Agora, nossa desigualdade é um trabalho de muitos séculos. Corrigi-la será tarefa para várias décadas. Estamos apenas começando a fazê-lo.

Milioni sentado em seu escritório

Em sua sala no ITA, Milioni faz questão de manter algumas recordações e “tesouros”: a coleção, iniciada em 2003, de crachás de identificação em congressos dos quais participou pelo mundo; e os desenhos da neta mais velha, Isabela

A jornalista e o professor Milioni na área externa do MAB, o céu está muito azul e há uma réplica de foguete ao fundo

Em visita ao Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB), em São José dos Campos, o engenheiro se entusiasma ao contar a história de cada avião exposto. Ao fundo, uma réplica em tamanho real do VLS (Veículo Lançador de Satélites) do Programa Espacial Brasileiro

E. Qual é o seu maior desafio como secretário da Setec/MCTI?

A.M. Tenho tentado contribuir com uma visão construtivamente crítica das ações das quais tomo conhecimento e também com reflexões oriundas da minha área de atuação. Quando foram divulgados os resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica 2011 (Pintec), por exemplo, no início deste ano, muito se falou na queda da taxa de inovação da indústria, que era de 0,38 em 2008 e caiu um pouco abaixo de 0,36 em 2011. Essa redução não foi bem recebida nem deveria ter sido, é fato, mas é interessante notar que ela é consequência de duas expansões desejáveis. A taxa de inovação é a razão entre o número de indústrias inovadoras e o de indústrias que satisfazem as condições para compor o universo da pesquisa – elas têm de ter um número mínimo de empregados, por exemplo. De 2008 para 2011 esse universo, que é o denominador da razão, cresceu 16%, o que é uma coisa boa, enquanto o número de indústrias inovadoras, que é o numerador, também cresceu, mas menos, algo acima de 8%. Então, é possível dizer que a queda na taxa de inovação foi o resultado de duas coisas boas, não sendo a maior das melhoras a que implicaria o crescimento da taxa de inovação. As políticas de fomento podem e devem ser continuamente aprimoradas, mas acho interessante mostrar que os mesmos números podem receber outro olhar, que desaconselha mudanças precipitadas.

E. Qual a sua participação no Programa Espacial Brasileiro?

A.M. É muito modesta. Orientei diversos trabalhos de graduação e teses de mestrado de alunos que trabalhavam no IAE, que é o Instituto de Aeronáutica e Espaço, responsável pelo projeto do veículo espacial brasileiro. Também dei alguma assessoria em análises estatísticas de confiabilidade de componentes, mas só isso. Como fiz isso em diferentes momentos nos últimos 30 anos, contudo, acabei tendo a oportunidade de acompanhar a evolução do programa todo. Sempre torci muito por ele.

E. Qual é a sua maior frustração como engenheiro mecânico aeronáutico?

A.M. Já que falamos do programa espacial, ocorre-me citar o desastre do VLS (Veículo Lançador de Satélites), em 2003. Até então, o Programa Espacial Brasileiro ia bem, atingindo todas as metas estabelecidas para os foguetes da família Sonda, que precede o VLS. Mas o salto de patamar para o VLS nunca foi atingido com sucesso. Houve duas tentativas de lançamento que não lograram êxito. Na primeira delas, o foguete precisou ser destruído logo após o lançamento, por falha evidente de trajetória. Na segunda, tudo parecia ter corrido bem, mas, novamente, o foguete precisou ser destruído por falhas detectadas quando ele já atingira uma altitude considerável. A terceira tentativa seria no dia 23 de agosto de 2003. Nesse dia, contudo, por razões que nunca foram totalmente esclarecidas, um dos foguetes que compunha o cluster entrou em combustão enquanto os técnicos estavam ao seu redor, completando as instalações que precedem o lançamento. Morreram 21 pessoas. Entrei no ITA em 1974, como aluno, e pouco depois disso comecei a ouvir falar na Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), que incluía a produção de satélites e do veículo que os lançaria. É frustrante ter de admitir, 40 anos depois, que não fomos capazes de cumprir a missão. O programa nunca se recuperou inteiramente da tragédia de 2003 e nunca houve uma nova tentativa de lançamento.

Publicado em Edição 03